









Traduzido por Fabio Fernandez
e publicado pela editora tica.


Dean me convidou
Para sair no Dia dos
Namorados...
e roubou meu
corao. Mas a eu
descobri que ele 
de Gmeos
- a pior combinao
amorosa possvel para
mim (sou de Escorpio).
Com o zodaco
Todo para escolher,
Por que fui logo me
apaixonar por
algum do signo
mais incompatvel
com o meu?


RESUMO

Um amor condenado pelas estrelas...

- E ento, Dean, qual  o seu signo? - perguntei.
Eu tinha certeza de que ele era de Touro, a combinao astrolgica perfeita para mim.
- Voc est mesmo muito envolvida com esse negcio de astrologia, no ? - Dean retrucou, seus belos olhos cinzentos olhando no fundo dos meus.
Confirmei com um gesto na cabea.
- Mas voc est se esquivando da minha pergunta. Simplesmente me diga qual  o seu signo.
- Tudo bem, tudo bem. Se  to importante para voc... Sou de Gmeos.
Eu no podia acreditar naquilo. Dean Smith, o amor da minha vida, era um... um geminiano! O pior signo possvel para uma garota de Escorpio como eu!
Pouco tempo antes um traioeiro geminiano de duas caras tinha me magoado muito. Desde ento, havia prometido para mim mesma que nunca mais deixaria isso acontecer.
Portanto, agora s me restava uma coisa a fazer: eu precisava romper com Dean... 






1 

Natalie

Escorpio (23 de outubro - 21 de novembro) 
Pare de viver no passado e olhe para o amanh. Sua recompensa poder ser um novo amor. Mas velhos hbitos so difceis de mudar, especialmente os que tm a ver com 
o corao. Algum de Touro aparecer na sua vida para curar antigas mgoas. 


- No sei no - murmurei enquanto olhava para meu reflexo no grande espelho da cabine. - Acho que este vestido est meio exagerado...
Girei o corpo para que minha melhor amiga, Jayne Engerman, pudesse me ver por inteiro. 
- O que voc acha? 
- O que eu acho, Natalie Taylor,  que voc  muito cheia de pudores - Jayne exclamou. - O que h de to exagerado em usar um vestido vermelho no baile do Dia dos 
Namorados? 
Jayne e eu estvamos num provador da Kleinfeld's, uma das lojas de departamentos mais conhecidas de Seattle. E estvamos comeando a nos sentir como se estivssemos 
encarceradas naquele cubculo espelhado fazia vrios dias. 
O bom humor de Jayne se dissipava rapidamente, e eu no podia culp-la por aquele comeo de rabugice. Ela estava sentada no cho fazia quase uma hora, com os joelhos 
dobrados contra o peito para me dar todo o espao possvel. O tamanho dos provadores das lojas de roupas  um dos grandes crimes do universo. Na lista dos piores, 
fica bem perto das salas de espetculos e dos estdios/ que nunca tm boxes suficientes no banheiro feminino. Se eu fosse projetar um provador, sem dvida incluiria 
no desenho uma cadeira para o acompanhante. Afinal, quem vai fazer compras "sozinho"? Seria um saco, no  mesmo?
- No estou falando da cor! - rebati, voltando a olhar para o espelho. -  que parece que acabei de ser pintada com um spray de festa lquida. 
Eu no podia negar que o vestido realava voluptuosamente a minha silhueta. Minha cintura parecia menor, e como a barra ficava pouco abaixo da bunda, minhas pernas 
pareciam mais compridas. Meus cabelos (que, para mim, tm cor de lama, mas que os outros dizem ser castanho) e meus olhos castanho escuros se destacavam contra o 
vermelho berrante da lycra. Minha pele at parecia levemente bronzeada, o que era um milagre, considerando-se que moro em Seattle, tambm conhecida como a Capital 
Ocidental da Chuva. Mesmo assim, na minha opinio, com aquela roupa eu parecia mais uma aspirante a apresentadora da MTV do que uma garota vestida para um baile 
de colgio. 
Jayne analisou o vestido por um instante. 
- A lycra quase nunca  elegante - proclamou. - Ao contrrio da seda, no deixa nada para a imaginao. 
Concordei com Jayne, mas j estava to desesperada para encontrar o traje perfeito para o baile, que chegara a acalentar a esperana de que minha amiga me convencesse 
de que aquela era a roupa certa para mim. 
_ Por que voc simplesmente no diz de uma vez que estou parecendo a Ordinria do Ano, e pronto? - cutuquei. 
Jayne encolheu os ombros. 
_ Voc est parecendo a Tanya Wright, o que  ainda pior 
do que a Ordinria do Ano. 
Agora eu tinha certeza de que Jayne realmente estava de mau humor. Ela sabia muito bem que a simples meno do nome de Tanya era suficiente para tirar meu apetite 
por uma semana. Mas decidi ignorar o comentrio e manter meus pensamentos concentrados onde deviam estar: em Dean Smith. 
Para mim, o fato de Dean ter me convidado para sair era um verdadeiro milagre - especialmente considerando tudo o que j tinha acontecido entre ns dois. 
Ou, para ser mais precisa, o que no tinha acontecido. 
- Bom, espero no ter estragado esta coisa - disse, agachando-me para puxar o vestido para cima. 
- E tomara que voc consiga se livrar dele sem estrag-lo Jayne emendou.
Puxei o vestido com fora, tentando tir-lo por cima. Mas me vi aprisionada numa intrincada armadilha de lycra. 
- Jayne, voc tem de me ajudar! - implorei. - Acho que este troo tem vida prpria! 
No   toa que Jayne  minha melhor amiga. Mesmo quando est de baixo-astral ou mal-humorada, posso contar com ela. Provavelmente porque  de Peixes. Os piscianos 
so muito leais e sensveis. O lema deles  "Eu acredito". 
Quanto a mim, sou de Escorpio. O nosso lema  "Eu desejo". Somos governados pelo corao, passionais e de sangue quente. E naquele momento esta escorpiana aqui 
estava comeando a achar que ficaria para sempre com o maldito vestido colado ao corpo. 
Vi todo um futuro em lycra vermelha berrante desfilar diante de meus olhos. Seria destaque nas paradas da Festa do Morango e da Festa do Tomate. E no Natal calaria 
botas pretas e arranjaria trabalho nos shoppings como um dos duendes ajudantes do Papai Noel. 
- Imagino que voc no tenha a um abridor de latas, no , Jayne? - perguntei. - Ou uma tesoura bem afiada ... 
Ela fez que no com a cabea. 
- Fique calma, Natalie. Vou tentar uma coisa. Jayne agarrou com firmeza a barra do vestido. 
- Levante bem os braos - avisou. - Quando eu contar at 
trs, vou puxar esta coisa por cima da sua cabea de uma vez s. - Vamos torcer para funcionar - murmurei. 
- Um ... dois ... trs! 
Levantei os braos bem acima da cabea e, ento, me inclinei para a frente, enquanto Jayne puxava com fora o material escorregadio. Em poucos segundos o vestido 
estava fora do meu corpo l' jazia num canto do provador como o cadver vermelho-vivo de um monstro extraterrestre. 
- Acho que o matamos - Jayne concluiu. Livre da opresso, eu finalmente respirei fundo. 
- Foi um golpe de misericrdia, Jayne - eu disse. - O doutor Kevorkian, aquele da eutansia, ficaria orgulhoso de ns. 
Ela riu. 
- Suicdio assistido na seo juvenil da Kleinfeld's - anunciou, na sua melhor imitao de ncora de telejornal. - Veja a reportagem completa s seis.
- Em primeiro lugar, eu nunca deveria ter trazido esta coisa aqui para o provador. No sei o que me deu. 
Peguei o vestido, que agora parecia inofensivo, e o recoloquei no cabide. 
- Desespero fashion - Jayne diagnosticou. 
- Pode ser. .. - murmurei, vestindo minha cala jeans. 
Jayne suspirou. 
- Desculpe meu mau humor, Natalie.  que ... - ela fez uma pausa e se olhou no espelho. -  que ... eu bem que gostaria de estar escolhendo um vestido para mim tambm. 
De repente, meu drama me pareceu insignificante. Eu sabia por experincia prpria que no h nada mais deprimente do que no ter um par para um baile. E Jayne no 
tinha. 
Na minha opinio, Jayne  linda. Ela tem cabelos loiros sedosos e brilhantes e enormes olhos azuis. Mas se sente mais  vontade com um livro que com um garoto. Jayne 
tem o mau hbito de se vestir do jeito mais inspido e menos atraente possvel, para passar despercebida. O que, convenhamos, no  a melhor forma de se conseguir 
um parceiro para coisa alguma, muito menos para um baile de Dia dos Namorados. 
- Bom - eu disse, tentando soar animadora -, pelo menos voc no vai gastar uma nota preta num vestido maravilhoso, que acaba usando uma vez s e nunca mais. 
- E pelo andar da carruagem, voc tambm no. 
Ela tinha razo. Se eu no encontrasse logo a roupa perfeita, teria de acabar me virando com o que j estava pendurado no meu guarda-roupa. 
Desolada, balancei a cabea. 
- No sei o que h de errado comigo. Nunca tenho dificuldade para comprar roupas - lamentei enquanto vestia minha camiseta regata roxa. - Simplesmente no entendo 
por que no consigo encontrar nada que me agrade. 
- Talvez voc esteja nervosa - Jayne sugeriu. 
- Claro que estou nervosa! - respondi atravs da grossa l do suter preto de gola olmpica, no qual agora eu tentava me enfiar. - J estraguei as coisas com Dean 
uma vez. No posso deixar que acontea de novo.
- Voc no estragou coisa nenhuma - Jayne ralhou. - O que aconteceu com Garth foi algo totalmente inesperado. Ningum poderia culp-la por aquilo. 
No comeo do ano letivo, Dean era aluno novo na escola. E desde o instante em que eu pusera os olhos nele, na primeira aula de ingls do ano, algo batera entre ns 
dois. 
Eu tinha atravessado docemente o primeiro ms de aulas, flutuando numa deliciosa neblina de boas expectativas, sonhando acordada com aquela mecha de cabelos escuros 
que sempre caa pela testa perfeitamente modelada de Dean. E com aquele no-sei-o-que que sempre parecia estar escondido no fundo de seus olhos cinzentos. Desde 
o comeo eu tinha certeza de que ele iria me convidar para sair. S no sabia quando. 
Mas ento aconteceu algo que me fez esquecer at mesmo que Dean existia. 
Tanya Wright tinha rompido com Garth Hunter. O namoro de Tanya e Garth sempre havia sido a fofoca predileta do segundo ano colegial. S que, apesar de os dois viverem 
brigando, ningum jamais esperava que um dia eles pudessem desmanchar o namoro. 
E quando eles realmente terminaram, eu com certeza no esperava que o impensvel acontecesse. Mas aconteceu. Garth comeou a dar em cima de mim. 
Eu era vidrada em Garth Hunter desde que me conhecia por gente. Provavelmente desde que aprendera a respirar. Bastou apenas uma palavra, um olhar de Garth, e Dean 
Smith tornou-se passado. 
Ainda que Dean tivesse trs cabeas e trs pares de maravilhosos olhos cinzentos, eu nunca teria notado. Naquele momento, Garth era o nico cara que eu conseguia 
enxergar no universo. 
Infelizmente, tambm no consegui enxergar que nossa relao seria para ele pouco mais que uma brincadeira. Samos algumas vezes e nos divertimos bastante ... ou 
pelo menos foi o que me pareceu. Mas, como logo descobri, Garth s estava me usando para reconquistar Tanya. Assim que ela voltou rastejando, ele me chutou.
- Natalie ... - Jayne comeou com uma voz serena e compreensiva, provavelmente porque percebera que, naquele momento, toda a minha sofrida histria com Dean e Garth 
desfilava diante dos meus olhos como num filme. - Voc s cometeu um erro - prosseguiu ela. - Todo mundo comete erros. E no parece que Dean esteja querendo jogar 
nada na sua cara. Ento, por que ficar de baixo-astral por causa disso? 
- Porque sou de Escorpio - respondi abatida. 
- Ah, no, voc prometeu! Nada de astrologia enquanto 
estivermos fazendo compras! - protestou Jayne. 
A astrologia  o nico ponto em que minha amiga e eu no concordamos. Para mim,  a explicao perfeita para quase tudo. Para ela, no passa de um monte de bobagens. 
Mas, no fim, foi a astrologia que me ajudou a superar a histria com Garth. Estudar os astros e o alinhamento dos planetas me fez entender a importncia de olhar 
alm da aparncia de uma pessoa, para descobrir como ela  por dentro. Alguns usam suas noes de psicologia para tentar dissecar a personalidade das pessoas presentes 
em suas vidas. Eu prefiro me concentrar nas caractersticas do signo zodiacal de cada um. 
Se eu j estivesse envolvida com astrologia antes de ser idiota o bastante para sair com Garth, teria sabido de antemo que nosso relacionamento estava fadado ao 
desastre. Nossos signos so totalmente incompatveis! 
Eu sou de Escorpio (23 de outubro a 21 de novembro). Ele  de Gmeos (21 de maio a 20 de junho). 
Os geminianos so encantadores, mas totalmente imprevisveis. E no caso de Garth, imprevisvel  sinnimo de no-confivel. 
Geralmente, eu argumentava com Jayne para tentar mudar sua viso limitada da astrologia. Mas agora eu simplesmente no estava com tempo. Se no encontrasse logo 
um vestido para o baile, teria de passar o resto da tarde com um bom dicionrio nas mos, tentando encontrar o nome de alguma doena muito rara de que ningum jamais 
tivesse ouvido falar. Ento tossiria at ficar
Ento tossiria at ficar rouca ligaria para Dean e lhe diria que teramos de cancelar o nosso compromisso. 
Mas eu no queria fazer nada daquilo. Queria sair com Dean. 
dizia muito tempo que no queria tanto uma coisa. 
- Natalie, quanto a essa histria de no ser capaz de encontrar um vestido - comeou Jayne -, no que voc estava pensando enquanto olhvamos as vitrines? 
A resposta era bvia. - Em Dean, lgico! 
- Ah-Ah! - Jayne exclamou. 
Quase pude ver uma lmpada se acendendo acima de sua cabea. 
- E o que exatamente significa esse "ah-ah"? - perguntei. 
s vezes eu tinha dificuldade para acompanhar a linha de raciocnio de Jayne. Minha amiga tende a ser um pouco abstrata. 
-  isso! - ela continuou. - Voc andou se concentrando na coisa errada. Ficou tentando imaginar do que Dean gostaria. 
- U, claro que tentei imaginar do que Dean gostaria! Ele  
o meu par, Jayne. 
- Mas ns j sabemos do que Dean gosta - ela insistiu. 
- Sabemos? 
- Natalie! - Jayne exclamou, naquele tom de voz que sempre 
usa quando eu me mostro incapaz de entender o que ela considera um problema matemtico perfeitamente simples e bvio (embora no exista nenhum problema matemtico 
simples e bvio, na minha opinio). - Ora bolas, Natalie, o Dean gosta de voc! 
Pensei por um momento no que ela acabara de dizer. Talvez tivesse razo. Talvez o motivo de nenhuma roupa ter me parecido boa o bastante fosse eu estar me esforando 
demais para agradar Dean. 
- Voc quer dizer que, se eu me limitar a escolher aquilo de 
que eu gosto, Dean automaticamente vai gostar tambm? - ! - ela confirmou com um gesto de cabea. 
- Mas isso parece simples demais! 
- Voc sabe o que dizem sobre a distncia mais curta entre 
dois pontos, no sabe? - Jayne perguntou, cruzando os braos. Mordi meu lbio.
- Que sempre h alguma coisa no caminho para atrapalhar? - retruquei. 
- Na sua vida, provavelmente sim - ela respondeu rindo. 
- No mundo real, no. 
- T, tudo bem - cedi. - J entendi. Vou tentar pensar menos 
e simplesmente procurar um vestido de que eu goste mais. - E, depois de uma pausa, completei: - Bom, ento vamos l. Nova tentativa. Estou querendo alguma coisa 
bem feminina e sexy. 
- Mas que no seja chamativa demais - acrescentou Jayne. Concordei com a cabea. 
- E que tenha um toque de mistrio ... 
De fato, aquela descrio parecia muito boa. Eu estava pronta ... para o que desse e viesse. 
Na noite de sexta-feira, fiquei sentada na minha cama, ouvindo a chuva pingar do beiral por fora da janela. Esperava com impacincia que o relgio digital no meu 
criado-mudo marcasse meia-noite. 
 meia-noite j seria catorze de fevereiro, dia de So Valentim, que  o nosso Dia dos Namorados. E dia do meu primeiro programa com Dean. 
Eu no pretendia ficar acordada at to tarde. Estava at preocupada, imaginando se teria insnia. Afinal, no queria ir ao baile do dia seguinte parecendo um guaxinim. 
Mas o sono no queria chegar, e eu tinha desistido de forar a barra. 
Alm do mais, achei que, como ainda continuava acordada  meia-noite, podia me permitir ler meu horscopo para o Dia dos Namorados. 
Antigamente eu lia meu horscopo s por diverso. Mas isso antes de me envolver a srio com astrologia. Agora dou muita importncia  leitura do horscopo.  a primeira 
coisa que fao todos os dias. 
 uma experincia muito instrutiva. Me ajuda a ver como tudo no universo est conectado. A posio de uma estrela ou de um planeta em relao ao sistema solar passou 
a ter a capacidade de influir seriamente na minha vida.
Claro que, naquela noite, havia uma razo especial para eu querer ler o meu horscopo para o Dia dos Namorados. Queria ver se haveria nele algo relacionado ao 'meu 
programa com Dean na noite seguinte.
Dei uma olhadela para o relgio digital em cima do criado-mudo. Sempre achei que d azar ler o horscopo antes da hora, mesmo que seja s um segundinho antes. Os 
nmeros verdes do relgio marcavam 23:59. Mudaram em seguida para 00:00. Finalmente. A espera tinha terminado. Abri a gaveta do criado-mudo e peguei o horscopo.
Os escorpianos so os nascidos entre 23 de outubro e 21 de novembro. Mas, como todo estudante de astrologia sabe, essas datas no so uma coisa absolutamente rgida. 
Em certos anos elas chegam a variar em um dia. Tudo depende da posio das estrelas e dos planetas no cu.
Alguns simples minutos a mais ou a menos tm a capacidade de determinar sob qual signo uma pessoa nasce. E se ela nascer no limite, h boas chances de que tenha 
caractersticas de ambos os signos: o signo cujo perodo acabou de terminar e aquele cujo perodo est comeando. Mas eu no tinha de me preocupar com nada disso. 
Nasci em cinco de novembro, bem no meio do perodo de Escorpio.
Os escorpianos sentem as coisas com mais intensidade que a maioria das pessoas,  exceo talvez dos leoninos. O Escorpio  tambm um signo fixo. Isso significa 
que somos teimosos, concentrados e perseverantes. Uma vez tomada uma deciso, no
voltamos atrs.
Pare de viver no passado e olhe para o amanh, meu horscopo avisava. Sua recompensa poder ser um novo amor. Mas velhos hbitos so difceis de mudar, especialmente 
os que tm a ver com o corao. Algum de Touro aparecer na sua vida para curar antigas mgoas. Coloquei o jornal de lado, refletindo sobre aquela previso.
No geral, soava bastante boa, sobretudo aquela frase a respeito de um novo amor. E o fato de que poderia surgir um taurino em cena era mesmo timo.
O signo de Touro (20 de abril a 20 de maio)  o meu complemento astral. Meu par perfeito no plano astrolgico. Os taurinos so muito prticos e p-no-cho.  um 
signo de terra fixo, o que faz deles a compensao perfeita para os escorpianos: um signo de terra fixo proporcionando base slida a um signo de gua fixo.
Pensei comigo que precisava me lembrar de confirmar se Dean era realmente de Touro. Mas eu no tinha muita dvida. Todos os meus instintos diziam que era. Ele no 
tinha desistido de mim durante toda aquela histria horrvel com Garth Hunter. E, alm disso, tinha me convidado para o baile ...
- Natalie, espere um pouquinho! - Dean chamou-me duas semanas atrs, quando eu subia a escadaria na entrada do nosso colgio, o Emerald High School.
Por ser muito verde, Seattle  chamada de Emerald City _ a cidade esmeralda. Da a origem do nome da nossa escola. Mas os estudantes da Emerald garantem que a escola 
ganhou esse nome por outra razo: o limo verde que sempre parece estar escorrendo das paredes dos banheiros.
A jaqueta de Dean estava molhada e havia gotas de chuva em seus cilios. Fiquei maginando se ele podia ouvir meu corao, que de repente disparara.
Fazia tempo que eu andava tentando encontrar uma maneira de mostrar a ele que eu j tinha superado toda aquela histria com Garth, mas no conseguira bolar nenhum 
plano consistente. Na verdade, Dean nunca chegara sequer a me convidar para sair. Portanto, no era que eu tivesse dado um fora nele, nem nada parecido. Era mais 
como ter dado um fora na possibilidade de ter algo com ele.
- Ser que nunca pra de chover nesta cidade? - Dean reclamara enquanto a porta da escola batia atrs de ns.
- No em fevereiro - respondi. - No ano passado choveu em vinte e seis dos vinte e oito dias do ms.
- Essa no - ele disse. - Vou voltar para o Arizona. L, a gente gosta de uma boa tempestade, mas de areia.
Rindo, eu caminhava na direo da classe de ingls.
- Natalie - Dean recomeara, atrs de mim. - Eu andei pensando ...
Eu me detive, voltando-me em sua direo. O rosto de Dean parecia um pouco tenso, mas muito determinado.
- Voc j tem companhia para o baile do Dia dos Namorados?
E foi assim que aconteceu. Nada de querer fazer com que eu me sentisse mal pelo que ocorrera ou deixara de ocorrer entre ns. E Absolutamente nenhuma meno a Garth 
Hunter. Naquele instante eu soube que Dean era de Touro. Ele no tinha ficado magoado nem fora agressivo. Mantivera-se o tempo todo de cabea erguida e equilibrado, 
no clssico estilo taurino. Imediatamente eu soube que meu instinto no havia se enganado com relao a Dean. Ns poderamos ter um futuro juntos.
Mas ento, o que quer dizer esse negcio de estar vivendo no passado?, perguntei a mim mesma, relendo meu horscopo no jornal.
Fiquei pensando naquela previso por alguns minutos, enquanto olhava para os nmeros no meu relgio, que agora j marcava 00:30. Finalmente sa da cama. O cho de 
madeira estava frio, mas nem pensei em calar os chinelos. Eu tinha uma misso a cumprir.
Atravessei o quarto na ponta dos ps e abri a gaveta inferior da cmoda. Escondida debaixo das minhas camisetas, que esperava pacientemente pelo prximo vero, havia 
uma velha caixa de papelo com gravuras douradas na tampa. Levei-a comigo de volta para a cama. Com delicadeza, levantei a tampa.
Dentro da caixa jaziam todas as lembranas da minha relao com Garth.
E a maior parte era composta de recortes do jornal da escola. Eu tinha guardado tudo o que j fora publicado nele a respeito de Garth Hunter. Havia um artigo sobre 
sua candidatura  presidncia do grmio estudantil (ele perdera, mas no ficara nada constrangido com a derrota). E um outro, com uma foto que o mostrava sentado 
no banco de reservas, depois de ter sido expulso de um jogo de basquete.
Mas a lembrana de que eu maIs gostava era uma foto de ns dois juntos. Fora tirada no ltimo outono, na festa de boas-vindas aos alunos novos.
O brao de Garth envolvia meus ombros. Ele sorria para a cmara. Eu sorria para ele. Havia tanto amor em meu rosto que at um cego poderia enxergar isso.
Mas, com exceo daquela expresso no meu rosto, tudo o mais naquela fotografia tinha sido uma farsa.
A foto publicada no Emerald Times tinha sido a vingana de Garth contra Tanya. Uma prova material de que ele no se importava com o fato de ela ter dado o fora nele.
E quando Tanya viu a foto de Garth abraando outra garota estampada na primeira pgina do jornal da escola, fez exatamente o que Garth queria: voltou rastejando 
para ele.
Por que eu ainda guardo estas coisas?, perguntei a mim mesma, enquanto olhava para a zombeteira expresso de triunfo no rosto de Garth. Mesmo agora, olhar para aquela 
foto ainda me dava um aperto no corao. No por ter perdido Garth, mas por ter sido to idiota. Desde o comeo eu deveria ter sido esperta o bastante para perceber 
que Garth no passava de um monte de escria.
Meu horscopo est certo, pensei. De fato, eu ainda no estava andando para frente. Enquanto continuasse agarrada quelas lembranas de Garth, continuaria vivendo 
no passado.
Sa de novo da cama, agora calando meus felpudos chinelos vermelhos. Vesti meu robe de algodo atoalhado tambm. Desci as escadas na ponta dos ps, tomando cuidado 
para no acordar meus pais. No tinha a menor vontade de explicar a minha me por que estava vagando pela casa quela hora da noite, com uma caixa de papelo debaixo 
do brao.
Mas sabia o que tinha que fazer. Fui para a cozinha, levantei a tampa da lata de lixo e esvaziei nela todo o contedo da minha caixa de lembranas de Garth Hunter.
O passado estava morto. Era hora de enterr-lo.
Peguei uma velha esptula numa gaveta do armrio da cozinha e, com ela, fui empurrando cuidadosamente cada uma das fotos de Garth para debaixo de uma grossa camada 
de p de caf molhado.

2

DEAN

Gmeos (21 de maio - 20 de junho)
Recomeo! A oportunidade pela qual voc esperava est bem a na
esquina. Agora  a sua hora de reparar velhos erros.
Mas no deixe que seu entusiasmo o desvie do caminho certo.
Quando estiver em dvida, d-se um tempo.

Voc est parecendo um babaca, disse a mim mesmo no espelho do banheiro. Eu tentava sem sucesso enfiar o dedo indicador entre o colarinho excessivamente apertado 
da camisa e meu pomo-de-ado. Para que toda essa bobagem de traje a rigor, afinal? Os publicitrios levam as pessoas em geral a acreditar que os smokings fazem um 
cara parecer romntico. Mas, na minha opinio, a nica coisa que realmente fazem  suprimir a capacidade - para no dizer a vontade - de o sujeito respirar.
- Voc est mesmo parecendo um pouco hspido - disse John Muirhead, meu melhor amigo, enquanto me observava da porta do banheiro.
Hspido?, pensei. A mdia de John na escola  9,5. Ele gosta de usar um tipo de vocabulrio que normalmente s pode ser encontrado nos melhores dicionrios.
- Me sinto como se estivesse sendo estrangulado at a morte - gemi.
- Voc est parecendo um almofadazinha! - meu irmozinho, Randy, gritou de seu quarto.
- Almofadinha - corrigiu Roy, seu irmo gmeo.
Do lado de fora da porta, ouvi John emitindo estranhos sons abafados, como se estivesse engasgado. Supus que era por estar tentando no rir. Por alguma razo misteriosa, 
John acha meus irmozinhos gmeos terrivelmente divertidos. Com certeza, por que no tem de viver com eles.
- Sabe que seus irmos tm razo, Dean? - disse John. - Com essa roupa, acho que voc ficaria muito bem no joelho de um ventrloquo.
- Almofa-Dean! - gritou Roy.
Ouvi uma exploso de gargalhadas. timo. Agora eu ia ter de passar no mnimo os prximos seis meses sendo chamado de "Almofa-Dean".
- Muito obrigado pelo estmulo  criatividade dos meus irmos, John - resmunguei.
- No h de qu.
Eu finalmente dera um jeito de enfiar meu dedo pelo colarinho. Dei um puxo e o n da gravata, que eu passara os ltimos vinte minutos aperfeioando, se desfez. 
Agora, pelo menos, eu conseguia respirar.
Deve haver algum truque, pensei, enquanto lutava para refazer o n. Algum macete que todos os homens do universo sabem, menos eu. E comecei a me arrepender profundamente 
de no ter comprado uma gravata simples de presilha que vira na casa de aluguel de smokings.
- De onde eu tirei essa idia de que poderia gostar de ir a um baile de gala? - grunhi para John. - Voc poderia por favor refrescar minha memria?
- Nenhum jovem americano com sangue nas veias quer ir a um baile de gala - John respondeu. - Voc simplesmente estava disposto a fazer esse sacrifcio para no perder 
a sua melhor chance nos ltimos tempos de convidar Natalie Taylor para sair.
John estava certo, claro. No que eu pretendesse admitir que ele tinha lido minha mente mais uma vez. O Dia dos Namorados me parecera a chance perfeita para me aproximar 
de Natalie.
Fazia meses que eu queria convid-la para sair. Desde o instante em que a vira pela primeira vez, na aula de ingls. Ela estava rindo de alguma piada que tinham 
acabado de contar, pouco antes de eu entrar na classe. Seus grandes olhos castanhos brilhavam bem abertos e radiantes, e mesmo no tendo ouvido a piada, eu me senti 
como se compartilhasse de seu riso.
Eis a uma garota que eu gostaria de conhecer melhor, pensei naquele exato instante.
Infelizmente para mim, durante um bom tempo no tive coragem suficiente para responder com alguma atitude concreta  atrao que sentira por ela. No gosto de fazer 
as coisas com pressa. Nunca tenho pressa. Prefiro agir quando sinto que tenho cho firme sob os ps. Assim, na pior das hipteses, j sei onde vou dar com a cabea, 
se cair.
Minha me diz que o fato de eu no me apressar com as coisas  uma boa qualidade. "Devagar e sempre, a tartaruga ganhou a corrida, Dean", ela diz. Minha me  cheia 
dos provrbios populares. Tem um para quase toda situao.
No caso de Natalie Taylor, porm, eu no s perdera a corrida como no conseguira sequer chegar  pista. Justamente na poca em que eu finalmente conseguira criar 
coragem para convid-la para sair, um pequeno desvio de curso apareceu no meu caminho. Um desvio chamado Garth Hunter.
Ento, tive de esperar mais trs meses para que Natalie pelo menos voltasse a se lembrar de que eu existia.
E ainda mais um ms para convid-la para sair, s para ter certeza de que no restara nenhuma seqela de sua breve relao com Garth. Por fim, decidira que no podia 
me permitir esperar at depois do Dia dos Namorados.
Mas agora o Dia dos Namorados tinha chegado, e l estava eu me olhando no espelho do banheiro, nervosssimo.
- Vamos l, Dean! - John gritou. - Mais cedo ou mais tarde, voc vai ter de sair da.
Fui para o corredor.
- Ei, at que voc no est to mal - John comentou, inclinando a cabea para um lado, como se estivesse analisando um experimento cientfico.
Passei bruscamente por ele e me dirigi ao meu quarto.
- Obrigado - resmunguei.
Peguei minha carteira em cima da cmoda e a enfiei no bolso da cala.
- Algum dia voc vai estar vestindo toda esta tralha, e ento vai ser a minha vez de tortur-lo com comentrios irnicos.
John se sentou na minha cama.
- Eu, num smoking? De jeito nenhum! - zombou.
Me virei para encar-lo.
- Nunca diga jamais.  s uma questo de voc encontrar a garota certa...
John abaixou os olhos e se ps a estudar o padro da colcha da cama.
- No parece que exista alguma garota para mim por a, nem certa nem errada.
Caramba, Dean, ralhei comigo mesmo. Voc tinha de lembrar ao John que ele  o Grande Solitrio de Seattle.
Infelizmente para meu amigo, ele tem mesmo cara de algum cuja mdia na escola  9,5. No quero dizer com isso que John seja um CDF bitolado ou um babaca. Mas ele 
tem aquele problema grave nos cabelos: o topo de sua cabea sempre parece ter sido atingido por um raio, o que o deixa com cara de cientista maluco.
- Dean, j so quase sete horas! - anunciou a voz de minha me, vinda do corredor.
Sua chegada ps fim  conversa entre mim e John.
- Voc no deve se atrasar, filhinho - continuou ela, enfiando a cabea pela fresta da porta do meu quarto. - E no se esquea disto - acrescentou, estendendo-me 
uma pequena caixa.
Durante o dia, minha me  uma importante executiva de uma agncia de publicidade. Mas assim que chega em casa, troca suas elegantes roupas de trabalho por jeans 
e camisetas surrados. Em homenagem ao Dia dos Namorados, naquela noite ela estava vestindo uma cala de moletom vermelho e uma malha de moletom prpura, com inscries 
douradas da Universidade de Washington. O que ela me estendia agora era uma caixinha plstica de floricultura, na qual repousava o pequeno buqu de Natalie. Minha 
me insistira para que guardssemos o buqu na geladeira, pois, segundo ela, era a melhor maneira de conserv-lo. Mas passara o dia todo apavorada com a possibilidade 
de eu ir embora sem ele.
Ao me ver no caro - para no dizer desconfortvel - smoking alugado, ela se deteve. Assumiu de repente um olhar distante e sonhador. Era sem dvida um momento do 
tipo "lbum de famlia".
- Dean est parecendo um boneco de ventrloquo! - meu irmozinho Randy, que aparecera na porta, anunciou com um grito, quebrando o devaneio romntico de minha me.
- Pois eu acho que ele est maravilhoso - ela rebateu.
- Voc  me. Tem de dizer isso - Randy replicou, enquanto se enlaava nas pernas dela e puxava sua malha. - Podemos assistir ao filme que pegamos na locadora assim 
que o Dean for embora?
- Vocs alugaram um filme? - perguntei. -  isso a, vou ficar em casa.
- Voc no pode! - Randy respondeu, me mostrando a lngua. - S tem sorvete suficiente para dividir com o John.
Agora que a inexorvel hora de sair tinha afinal chegado, eu passara de nervosa para aterrorizado.
Fazia uma eternidade que eu queria sair com Natalie e esperava por aquele momento, mas... e se algo desse errado? s vezes a espera por um evento acaba sendo melhor 
que o evento em si. No que eu realmente acreditasse que haveria algum problema. No com Natalie Taylor.
- Bom, ento... acho que  melhor eu ir indo - falei, mas meus ps no se mexeram.
- A porta  ali - John apontou, com aquele sorriso zombeteiro e satisfeito de quem no ia ter de passar as prximas cinco horas procurando sustentar um bom papo 
com uma garota com a qual saa pela primeira vez.
Peguei minhas chaves em cima da cmoda.
- A partir deste momento, prometo que passa a ser minha prioridade nmero um encontrar um par para voc, para o baile de fim de ano da escola - anunciei solenemente 
a John.
- Divirta-se bastante, querido - disse minha me, enquanto eu descia. - Vou tentar no ser sentimentalide e no ficar esperando acordada at voc voltar.
A cara de Roy surgiu por trs do batente da porta de seu quarto.
- Boa noite, Almofa-Dean! - ele gritou.
Enquanto descia as escadas, me perguntei se haveria neste mundo muitos caras com a sorte de ter irmos to adorveis, ou se eu seria o nico.
- Dean! - minha me me chamou l do alto, quando eu j estava saindo. - Voc no est esquecendo de alguma coisa?
Parei e repassei minha lista mental. Smoking. Chaves do carro. Grana. Buqu...
Ooops! Eu tinha me esquecido de pegar a caixinha com o buqu de Natalie. Enquanto subia de volta as escadas rumo ao quarto, pude ouvir as risadas de John - as dele 
e as da famlia inteira.
- No posso acreditar nisso - eu disse, vrias horas mais tarde.
Natalie e eu estvamos de p perto da entrada do ginsio da Emerald High School, debaixo de um caramancho decorado com rosas de seda vermelha. Por perto, algum 
gravadorzinho emitia sons de pssaros. Acho que a idia era que o gorjeio ajudasse a criar o clima, mas eu mal conseguia reprimir uma tremenda vontade de rir. Ainda 
mais com o baixo da Ginger Ross, a banda que tocava no baile, retumbando ao fundo.
- No consigo acreditar que deixei voc me convencer a tirar esta foto - continuei.
- E eu no consigo acreditar que voc esteja fazendo tanto fricote s por causa de uma simples foto - Natalie rebateu, provocativa.
Olhei para ela, tentando pensar numa rplica mordaz, mas naquele exato instante o flash disparou.
- Ah, perfeito! - o fotgrafo exclamou.
- Viu? No foi to terrvel, no  mesmo? - Natalie perguntou, enfiando seu brao no meu.
- Tirando estas enormes manchas brancas diante dos meus olhos, nenhum problema - respondi.
Natalie riu. O som do baile agora chegava leve e gostoso at ns. At aquele momento, a noite havia sido um sucesso total. Natalie e eu tnhamos conversado e brincado 
como se nos conhecssemos fazia muitos anos.
Eu soube que as coisas iam correr bem desde o momento em que a apanhara em sua casa. Natalie estava deslumbrante. Vestia um maravilhoso vestido preto semitransparente, 
que sempre me fazia querer olhar para ela uma segunda vez. E uma terceira. E uma quarta. Na verdade, sua beleza me fascinara tanto que quase me esqueci de lhe dar 
o buqu.
Eu cheguei a me preocupar um pouco por causa das flores. Afinal, um buqu de rosas vermelhas e cravos-de-amor no era l muito original. Mas o arranjo sara perfeito. 
O buqu combinava com os botes de rosa vermelhos que lhe adornavam os cabelos.
- Tudo bem agora - o fotgrafo anunciou em meio ao falso gorjeio de pssaros. - Estamos prontos para a segunda foto.
- Olha o passarinho - sussurrei.
- Olha o passarinho! - o fotgrafo cantarolou.
Como se tivessem ouvido, os passarinhos do gravadorzinho comearam a piar freneticamente. Dessa vez, tanto Natalie quanto eu ramos quando o flash se apagou.
- Eu bem que gostaria que a Jayne tivesse visto isso - Natalie comentou poucos minutos mais tarde.
Estvamos sentados numa pequena mesa iluminada por uma vela vermelha em forma de corao, num bistr improvisado perto do salo de baile. A banda fazia uma pausa, 
e Natalie e eu tnhamos aproveitado para dar uma sada e beber um ponche.
- Jayne? Voc quer dizer Jayne Engerman? - perguntei.
Natalie confirmou com um gesto de cabea.
- Ela no veio ao baile?
Natalie tomou um gole do ponche e balanou de novo a cabea:
- Infelizmente, no. Juro que s vezes chego a pensar que todos os garotos da escola devem ter alguma sria disfuno perceptiva. Jayne  o mximo, e nenhum deles 
nunca reparou nela.
- Ei, no pense que voc pode jogar toda a culpa nos garotos - protestei, sentindo necessidade de sair em defesa do meu gnero.
No que Natalie no estivesse certa quanto a muitos caras, claro. Mas eu no poderia deixar passar um comentrio daqueles sem dizer nada, ou acabaria sendo expulso 
do clube da testosterona.
- Eu conheo um cara que  realmente incrvel - continuei -, e nenhuma garota jamais reparou nele.
- Ah, ? Quem? - Natalie perguntou, seus olhos cintilando.
- John Muirhead.
- John Muirhead, o cara mais sabido do universo?
- Esse mesmo. John adoraria sair com algum, mas nenhuma garota que eu conheo olharia para ele.
- Aposto que Jayne olharia - Natalie desafiou. - Ela  to brilhante quando John, e provavelmente os dois tm muito em comum. Aposto que tudo o que teramos de fazer 
seria dar um jeito de eles se encontrarem, e logo cairiam aos ps um do outro.
- Isso  ridculo - falei. - No se pode planejar um amor  primeira vista.
Claro que John e Jayne deviam saber da existncia um do outro. Eu tinha certeza de que eles assistiam a vrias aulas juntos. Como John, Jayne tambm devia freqentar 
as aulas especiais para os mais adiantados.
Natalie ergueu o olhar do seu copo de ponche em minha direo, seus olhos sorrindo.
- Quer apostar?
H uma grande idiossincrasia na minha personalidade equilibrada e tranqila: eu simplesmente no consigo resistir a um desafio.
- Tudo bem, vamos tentar - concordei.
Afinal, o que eu tinha a perder? A pior coisa que poderia acontecer seria ns quatro nos encontrarmos, e Jayne e John ignorarem solenemente um ao outro.
- Como a gente vai fazer? - perguntei.
Natalie ficou pensando por um momento. Ao longe, ouvi a banda recomeando. Natalie comeou a bater o p no ritmo do baixo.
- Jayne e eu vamos sair para tomar um caf amanh, mais ou menos  uma da tarde - ela afinal respondeu. - Se voc e John aparecessem casualmente no caf, ser que 
pareceria algo armado?
- Acho que no - respondi, pensando na idia. - Especialmente se vocs duas fossem ao Bob's Buzz Stop.
- O caf e melhor no Caf Luna - Natalie me informou. - Mas acho que posso encarar o Bob's Buzz Stop em nome de um futuro grande amor.
- Ok, ento estamos combinados. Amanh  uma da tarde no Bob's Buzz Stop.
Natalie fez que sim com a cabea:
- timo - completou. - E se eles se interessarem um pelo outro, voc vai ter de me levar ao Caf Luna todas as tardes de domingo at o fim do ms.
- E se no se interessarem, voc paga - emendei.
Aquilo era um excelente sinal. Natalie j estava fazendo planos para me ver de novo.
- Toque aqui - ela disse, estendendo-me a mo por cima da mesa.
Peguei a mo dela. Seus dedos estavam frios, de segurar o copo de ponche gelado.
- Bom, muito bom... - disse uma voz feminina acima de nossas cabeas - Parece que vocs dois esto se divertindo bastante.
Natalie olhou bruscamente para cima. Seus dedos apertaram os meus.
- Ah... Oi, Tanya - ela cumprimentou sem muito entusiasmo.
Alta e magrrima, cabelo loiro oxigenado, Tanya Wright parece uma modelo. O vestido vermelho justssimo parecia pintado em seu corpo. Notei que,  medida que Natalie 
reparava nos detalhes da aparncia de Tanya, uma estranha expresso tomava conta de seu rosto.
Eu no tinha muita certeza de quais eram as intenes de Tanya. Provavelmente s queria fazer com que Natalie se sentisse o mais constrangida possvel. Tanya  do 
tipo vingativo, daquelas pessoas que guardam rancor para sempre. Imaginei que ela nunca perdoaria Natalie por ter sado com Garth.
Antes do baile, eu havia acalentado esperanas de conseguir evitar Garth Hunter naquela noite. Simplesmente no via nenhuma vantagem em me colocar numa situao 
propcia a comparaes diretas entre ns dois.
Garth  o tipo de cara que faz as garotas encherem dirios inteiros com fantasias amorosas e suspirarem pelos corredores da escola. Comparado a ele, eu era mesmo 
"Dean, a tartaruga devagar e sempre".
Um brao dentro de uma manga preta de smoking serpenteou ao redor da cintura de Tanya.
- Oh, Garth, voc me assustou! - ela guinchou.
Fiquei imaginando como ela conseguia inalar alguma quantidade de ar, por mnima que fosse, de to apertado que era seu vestido.
Natalie se levantou rapidamente, sua mo ainda segurando a minha com fora.
- Que tal danar um pouquinho, Dean?
Suas bochechas tinham ficado vermelhas, mas eu no sabia dizer se estava brava ou sem graa.
- tima idia - respondi, levantando-me e seguindo-a rumo ao salo de baile.
- Divirtam-se, pombinhos - Garth gritou s nossas costas. - E no faa nada que eu no faria, Dean.
Eu no convidaria uma garota como Natalie para sair s para lhe dar um chute depois, pensei, se  isso o que voc quer dizer.
Natalie Natalie seguiu andando sem parar at o centro da pista de dana. Ento, deteve-se to de repente que quase trombei nela. Antes que eu pudesse me dar conta 
do que estava acontecendo, ela se virou para mim e passou os braos por cima dos meus ombros.
- Ah, Dean... - suspirou.
A voz dela estava triste? Frustrada? Eu no sabia dizer.
Abracei sua cintura e comeamos a nos embalar suavemente ao ritmo da msica. Enquanto a banda comeava outra msica lenta, disse a mim mesmo que no devia me preocupar 
muito com o que Natalie quisera dizer com "ah, Dean".

Danar uma msica lenta com Natalie era diferente de qualquer coisa que eu j tinha experimentado. Ela se encaixava nos meus braos como se tivssemos sido feitos 
para danar juntos. No se pendurava em mim como se estivesse se afogando, como algumas garotas faziam. E no me apertava demais, de maneira que nossos joelhos no 
ficavam se trombando.
Ela simplesmente se encaixava. Meus braos fechavam um crculo perfeito em torno de sua cintura. Os delas traavam um crculo perfeito em torno do meu pescoo. Dois 
segundos depois de termos comeado a danar, eu j tinha me esquecido at da existncia de Garth Hunter. Ele no poderia se interpor entre ns. No quando ter Natalie 
em meus braos me fazia sentir to maravilhosamente bem.
Como seria beij-la? Olhei para aqueles lbios macios e carnudos e meu corao comeou a bater mais forte. Quis beij-la desvairadamente, at perder a razo, at 
me tornar para ela o nico cara no planeta de cuja existncia ela se lembrasse.
Pouco a pouco, fui inclinando a cabea para frente, roando meus lbios de leve pelo pescoo dela, num movimento descendente. Um arrepio de prazer subiu-me pela 
espinha. Natalie deu um suspiro e inclinou a cabea para trs. Olhei-a nos olhos.
Os olhos de Natalie eram clidos e doces, como chocolate amargo quente. Ela estava sorrindo quando seus lbios encontraram os meus.
Beija-la foi como mergulhar em guas profundas. Houve um sbito choque quando nossos lbios se tocaram, seguido por um longo e lento deslizar de um oceano de prazer. 
Eu podia sentir o sabor de seu batom e do ponche de cereja. A combinao era inebriante.
Quase no notei quando a msica terminou. Poderia ter continuado na pista para sempre, com Natalie em meus braos. Quando nossas bocas se separaram, eu no sabia 
ao certo se ela tinha ou no me beijado desvairadamente. Mas eu tinha.
- Ento... isso significa que voc vai ser minha namorada? - sussurrei em seu ouvido.
- Tente me impedir e voc vai ver s!

- O cu no est deslumbrante esta noite? - Natalie disse, uma hora mais tarde. - H estrelas por toda parte.
O baile tinha terminado, e eu estava levando Natalie para casa de carro. Meu brao estava estendido por trs do assento do passageiro do Toyota de minha me. Natalie 
se sentara bem pertinho de mim, com a cabea apoiada em meu ombro. Eu podia ver seu rosto todas as vezes que passvamos debaixo de um poste de luz.
Era tarde, e a rua margeada de rvores onde Natalie morava estava em silncio. Enquanto estacionava diante da casa dela, reparei que seus pais tinham deixado a luz 
da varandinha da entrada acesa. Outra luz brilhava num canto da sala de visitas. Me perguntei se a senhora Taylor estaria esperando acordada pela filha, como eu 
tinha certeza de que minha me estava.
Pensar no beijo de boa-noite que logo nos daramos j estava fazendo meu corao martelar com fora contra o peito. Me perguntei se seria cedo demais para perguntar 
a Natalie se eu poderia v-la de novo. Se daria para perguntar dali a, digamos, vinte segundos.
-  melhor no ficarmos sentados aqui fora por muito tempo - Natalie falou quando desliguei o carro. - Minha me provavelmente est com a cmera de vdeo apontada 
para c.
- Isso no  nada - confidenciei baixinho. - A minha me comprou culos de viso noturna hoje  tarde.
Ela se virou para me olhar de frente e penteou com os dedos as mechas dos cabelos que caam na minha testa. Eu podia jurar que ela estava pensando numa maneira de 
enganar a cmera de vdeo.
- Meu pai tem acesso ao telescpio Hubble - continuou brincando.
- Voc ganhou. Eu no tenho pai.
A mo de Natalie parou de se mexer na minha testa. Eu ergui minha mo e cobri seus dedos com os meus.
- Sinto muito, Dean, de verdade - ela disse. - Quero dizer... Ai, meu Deus, agora eu estou me sentindo uma idiota...
- No se desculpe - falei. - Voc no tinha como saber. Meu pai abandonou a gente quando eu ainda era pequeno.
Os olhos castanho-escuros de Natalie estavam fixos em meu rosto.- Isso  barra. A vida s vezes realmente  uma droga, no ?
- s vezes - concordei.
A luz na varandinha da entrada comeou a piscar. Natalie deitou sua cabea em meu ombro e suspirou.
- No posso acreditar nisso! - gemeu. - Vou ter de matar meus pais.
- Eu tenho a arma perfeita - emendei. - Um dos meus irmozinhos deixou seus tnis fedidos no porta-malas.
Assim que samos do carro, a luz da varanda parou de piscar. Acompanhei Natalie at a entrada pelo caminho cimentado que atravessava o jardim dianteiro da casa, 
mas parei pouco antes da porta. Estvamos perto da luz, mas no totalmente iluminados por ela. Felizmente o sr. e a sra. Taylor no podiam nos ver com nitidez.
- Ento, h... A gente se v amanh? - perguntei, passando meus braos ao redor da cintura dela e puxando-a para perto do meu corpo. -  uma da tarde no Bob's Buzz 
Stop?
Natalie fez que sim com a cabea.
-  melhor voc ir preparado para perder.
Ento, seu olhar se ergueu acima da minha cabea.
- Dean, veja! - ela gritou, se agitando subitamente em meus braos. - L no alto! Uma estrela cadente!
Acompanhei seus olhos bem a tempo de ver uma faixa de luz descrevendo um arco pelo cu.
- Dizem que as estrelas cadentes trazem boa sorte - Natalie sussurrou.
- No so nada mais que poeira interplanetria entrando na atmosfera terrestre - sussurrei de volta.
Natalie riu.
- Voc  terrvel - ela disse. - Aposto como no h uma nica clula romntica em todo o seu corpo.
- Ah, h sim! - repliquei.
- Prove - ela sussurrou, aproximando um pouco mais seu rosto do meu.
Posso no ser um gnio, mas sei enxergar uma oportunidade quando ela aparece. Inclinei a cabea e encostei meus lbios nos de Natalie.
- Feliz Dia dos Namorados - murmurei baixinho.

3 

Natalie 

Escorpio (23 de outubro - 21 de novembro)
Ciclo romntico em alta. nfase na sua vida amorosa e na de algum
prximo a voc. No deixe que sua apaixonada natureza escorpiana
a conduza a uma busca desvairada por algo impossvel.
Concentre-se em seus objetivos e use suas energias para atingi-los.


- Por que viemos aqui? - Jayne perguntou, enquanto eu abria a porta do Bob's Buzz Stop. - Voc nem gosta deste lugar...
- Talvez eu queira dar a ele uma segunda chance - respondi, dirigindo-me ao balco de pedidos. - Afinal,  uma prerrogativa feminina mudar de idia.
Olhei para os doces na grande vitrine de vidro do balco e acabei decidindo tomar s um caf com leite. Eu no queria que Dean chegasse e me encontrasse com a cara 
toda lambuzada de acar.
- Como feminista, me sinto pessoalmente ofendida com essa observao - Jayne declarou, pedindo em seguida o seu habitual milk-shake de chocolate, grande e pouco 
batido. - Ela perpetua o mito de que as mulheres no tm idias.
- Um caf com leite diet para mim, duplo - pedi  mulher atrs do balco. - Relaxe, Jayne. Eu estava s brincando.
Dei uma olhada ao redor, reparando na decorao. At que o lugar no era to mau. Eu nunca gostaria dali tanto quanto do Caf Luna, mas tinha um certo charme desleixado.
New Age techno, essa era a melhor maneira de descrever o Bob's Buzz Stop. Psteres anunciando concertos de bandas de rock alternativas e de msica New Age cobriam 
as paredes. Havia at mesmo um conjunto de computadores num dos cantos do salo. Diante dos monitores, ratos de computadores bebiam avidamente seus cafs, enquanto 
navegavam na internet.
Foi para isso que eu sa com esta chuva? - perguntou Jayne olhando ao redor, enquanto pagvamos nossas bebidas e nos dirigamos a uma mesa perto da janela.
As nuvens haviam coberto o cu no domingo de manh, e, quando acordei, j chovia a cntaros. Era como se os deuses da chuva estivessem bravos pelas vinte e quatro 
horas completas de tempo bom no Dia dos Namorados, e agora quisessem a todo custo recuperar o tempo perdido.
Do lado de dentro, as janelas do Bob's Buzz Stop estavam embaadas pela mistura dos vapores emanados pelos clientes e pelas mquinas de caf expresso.
- No - respondi, quando j nos acomodvamos em nossas cadeiras. - Voc saiu com esta chuva porque  minha melhor amiga e est louca para ouvir tudo a respeito do 
meu encontro com o Dean.
E porque vai me ajudar a ganhar a minha aposta, acrescentei mentalmente.
Refletindo a respeito do desafio que lanara a Dean na noite anterior, achei que talvez fosse desonesto e de mau gosto fazer uma aposta daquele tipo em cima da minha 
melhor amiga. Mas felizmente conseguira me convencer do contrrio, com o argumento de que a aposta era, em ltima instncia, pelo bem da prpria Jayne, e ganhar 
seria secundrio. O objetivo mais importante de minha misso era ajudar Jayne a se apaixonar.
- E ento, como foi? - Jayne perguntou, tomando um gole do seu milk-shake.
- Fantstico, incrvel, maravilhoso - respondi. - Jayne Engerman, tem creme batido no seu nariz.
Ela limpou o rosto com um guardanapo.
- Fantstico, incrvel, maravilhoso, isso  tudo?
- Tanya estava usando aquele vestido vermelho - prossegui.
Meu queixo tinha ido praticamente ao cho quando notei que Tanya Wright estava vestindo a mesma roupa que eu experimentara na Kleinfeld's.
Jayne quase sufocou ao engasgar com seu milk-shake.
- Natalie Taylor, voc est mentindo.
- No senhora - retruquei. - Espere at segunda-feira de manh. Ela provavelmente no vai ter conseguido descolar o vestido do corpo.
Fiz uma pausa de uma frao de segundo.
- Jayne, justo antes de Dean me dar o beijo de boa-noite, vimos uma estrela cadente.
Felizmente para mim, Jayne est costumada s minhas sbitas mudanas de assunto nas conversas. Elas so uma das marcas registradas do signo de Escorpio.
- Espero que ela fique entalada naquele vestido para o resto da vida - Jayne respondeu. - E, para sua informao, as estrelas cadentes no so nada mais que poeira 
csmica interplanetria entrando na atmosfera. Dean perguntou se poderia ver voc de novo?
Um golpe de ar frio atingiu nossa mesa quando a porta do Bob's Buzz Stop se abriu.
- Oi, Natalie! Oi, Jayne! - cumprimentou uma voz masculina num tom casual. - No sabia que vocs duas tambm freqentavam este lugar.
Dean estava me saindo melhor ator do que eu imaginara. Jayne nunca iria desconfiar de que aquele encontro era pura armao. E se suspeitasse, pensaria que eu tinha 
dado um jeito de irmos quele lugar na esperana de topar com Dean, e no com o melhor amigo dele.
- Vocs conhecem John Muirhead, no ? - Dean continuou, caminhando na direo da nossa mesa.
- Claro - respondi sorrindo. - Oi, John.
O cabelo de John parecia recm-atingido por um ciclone. Mas reparei que ele tinha olhos castanhos muito bonitos.
- Igualmente - John respondeu. - H... quero dizer, oi...
Seu olhar passou de mim para Jayne. Ela encarou John por um instante; ento, engoliu em seco e olhou para baixo, para seu copo. Duas vivas manchas vermelhas ardiam 
em suas bochechas. Eu ergui uma sobrancelha. Jayne nunca corava, nem mesmo quando ficava sem graa.
Vitria!, pensei. Dean Smith, prepare-se para perder esta aposta.
- Por que voc dois no vo pegar alguma coisa para beber - sugeri. - E, depois, venham se sentar com a gente.
- tima idia - Dean respondeu, com uma expresso risonha nos olhos cinzentos. - Vamos l, John - disse ao amigo, colocando uma das mos no ombro dele e puxando-o 
na direo do balco.
- Natalie - Jayne sussurrou, assim que os ouvidos dos rapazes estavam for a de alcance -, o que voc est aprontando?
- Estou s sendo simptica - respondi. - O que h de errado nisso? No me diga que voc vai querer me privar de uma chance de tomar um caf com Dean.
Os olhos dela se desviaram bruxuleantes na direo do balco. Tomei um gole do meu caf com leite, olhando de soslaio para Jayne, que tentava no olhar para John.
- Voc no se importa de eles virem se sentar com a gente, no ? - perguntei depois de um minuto. - Quero dizer, eu sei que o John Muirhead tem fama de ser um panaca 
bitolado...
Os olhos de Jayne saltaram de volta na minha direo, todo o seu rosto incendiado de um vermelho vivo.
- John Muirhead no  um panaca bitolado! - ela disse, parecendo ofendida. - S porque um cara  inteligente...
Ela se interrompeu com um suspiro.
- Francamente, Natalie, no posso acreditar que voc seja to superficial.
Levantei as mos, num gesto de rendio. Ela reagira exatamente da maneira que eu esperara que reagisse. Na verdade, toda aquela vermelhido no rosto de Jayne me 
fez pensar que talvez ela j tivesse uma forte queda por John Muirhead havia algum tempo.
- Tudo bem, retiro o que disse - respondi. - Desculpe.
- Eles esto voltando - Jayne anunciou. -  melhor calarmos a boca.
Dean e John roubaram duas cadeiras vazias de uma mesa prxima e se sentaram. Reparei que eles tinham pedido as mesmas bebidas que ns. Dean pedira um caf com leite 
expresso, como eu, e John, um milk-shake, como Jayne.
Dean arrastou sua cadeira para perto da minha, de maneira que nossas pernas se tocavam. O leve roar de sua perna vestida num jeans contra a minha fez o ambiente 
parecer subitamente muito quente. Por um instante ficamos todos em silncio. Os quatro pareciam estar se perguntando quem seria o primeiro a falar.
- E ento, John - falei, por fim -, qual  o seu signo?
Se olhares matassem, Jayne teria me transformado num cadver instantaneamente. John apenas pareceu confuso.
- Signo? - ele perguntou.
- . Voc sabe, a era de Aqurio, essas coisas.
- Ah, sei... Sou de Peixes.
- Mesmo? Hummm...
Aquela informao era muito interessante. Eu esperara que John fosse dizer que era de Virgem, a combinao perfeita para o signo de Jayne. Mas Jayne tambm era de 
Peixes.
- Quando  o seu aniversrio? - perguntei.
- Trs de maro.
- Trs de maro?! - Jayne ecoou. - Mas  no mesmo dia que o meu!
John virou a cabea na direo dela. Era a primeira vez que ele a olhava diretamente desde que tinha se sentado.
- Srio? Mas isso  mesmo incrvel! Nunca conheci ningum nascido no mesmo dia que eu - John falou.
- Igualmente - completou Jayne. - H... quero dizer, eu tambm no.
Os dois continuaram a se olhar por alguns segundos. Tomei mais um gole do meu caf, pensando no que acabara de ouvir.
De modo geral, casais do mesmo signo no so uma boa combinao. Simplesmente no h fogo suficiente entre eles. So parecidos demais. Mas no caso de John e Jayne, 
o fato de serem do mesmo signo parecia constituir a base de sua atrao. Na pior das hipteses, o fato de fazerem aniversrio no mesmo dia lhes dera algo sobre o 
que conversar.
- Ento parece que vocs dois so almas gmeas - anunciei alegremente.
Jayne me lanou um olhar carrancudo.
- No d bola para a Natalie - minha amiga advertiu John. - Ela caiu no vcio da astrologia.
- Para falar a verdade - John disse -, eu acho o estudo da astrologia muito interessante. Muitas culturas antigas foram fortemente influenciadas pelas estrelas. 
Os construtores de Stonehenge, por exemplo...
- Eu pensei que Stonehenge tinha sido construdo para ajudar a planejar o ciclo anual do plantio - Jayne interrompeu.
- Tambm, mas no s para isso - John admitiu. - Na verdade, alguns estudiosos acreditam...
Por baixo da mesa, Dean apertou minha mo. Ento, inclinou-se para a frente, de maneira que Jayne e John no pudessem ouvir o que ele iria me dizer em seguida.
- Acho que voc vai ganhar a aposta - Dean sussurrou. - Tudo indica que j estou devendo alguns cafs a voc.
Gostei de ver que Dean no tinha aquela faceta habitual do ego masculino: a de sempre ser o vencedor.
- Para falar a verdade, talvez seja pura coincidncia - confessei, tambm sussurrando. - Estou ficando com a sensao de que Jayne sempre se interessou por John, 
e eu simplesmente nunca percebi.
Com seu polegar, Dean comeou a descrever pequenos crculos nas costas da minha mo direita. Aquele leve toque fez todo o meu brao se arrepiar.
- Como voc pde deixar de perceber uma coisa dessas? - ele perguntou.
- Talvez porque eu estivesse preocupada demais com outra coisa - respondi, sorrindo para seus maravilhosos olhos cinzentos.
Dean sorriu tambm.
- Imagino que voc no v se incomodar por ter de me explicar essa observao.
- Bom - falei, baixando os olhos e fingindo timidez -, tenho andado muito preocupada com essa prova de matemtica medonha que vem a.
Dean soltou uma gargalhada. Eu estava a ponto de dizer a ele o que realmente andara distraindo a minha ateno, quando um segundo golpe de ar frio varreu a nossa 
mesa. Franzi a testa. Garth e Tanya tinham acabado de entrar.
Deve ser uma maldio que caiu sobre mim, pensei. Tudo o que eu queria era me esquecer de Garth Hunter. A simples viso dele me dava um n no estmago. Mas parecia 
que eu dava de cara com Garth todas as vezes que olhava  minha volta. Se no soubesse que ele era egocntrico demais para pensar em algum alm de si prprio, teria 
achado que estava inspecionando meu novo namorado.
O corpo de Dean se enrijeceu quando ele viu Garth. Pude sentir a tenso descendo por seu brao at chegar  mo, que segurava a minha. Garth e Tanya nos ignoraram. 
Seguiram seu caminho remo ao balco. Jayne e John no pareceram notar que tanto Dean quanto eu olhvamos para o outro lado do salo. Eles ainda estavam discutindo 
a finalidade da construo de Stonehenge.
- Eu no posso ficar muito tempo mais - Dean me avisou. - Prometi minha me que iria ajudar a cuidar dos meus irmozinhos. Vim s para dar uma fora a um grande 
amor - acrescentou num sussurro.
Concordei com um gesto de cabea.
- Tudo bem, eu entendo.
Torci para que Dean no estivesse muito chateado por causa da apario de Garth. Uma parte de mim queria lhe dizes sem rodeios que ele no precisava se preocupar 
com Garth, que eu estava totalmente curada dele. Mas temia que at mesmo a meno do nome de Garth o fizesse parecer demasiadamente importante para mim aos olhos 
de Dean.
Todas as novas relaes tm momentos tensos, disse a mim mesma. Afinal, eu tambm no teria ficado muito feliz se Dean tivesse uma ex-namorada com a qual ficssemos 
topando o tempo todo.
- Ento... acho que nos vemos amanh na aula de ingls - eu disse a Dean.
Ele sorriu.
- Eu no perderia essa aula de jeito nenhum - disse ele. - As aulas do professor Dixon so to estimulantes.
- Sim, para quem tem o QI de uma ostra - ironizei.
Dean se levantou. John afastou seu olhar de Jayne e arqueou as sobrancelhas.
- Voc j est indo? - perguntou, parecendo decepcionado.
Dean fez que sim com a cabea.
- Preciso ir para casa. Voc pode ficar se quiser.
- No, no - John disse, se levantando apressado. - Igualmente. Quero dizes, tambm preciso ir para casa.
Eu comeava a perceber por que John tinha dificuldade em sair com garotas. Ele parecia se desestruturar sob presso. Obviamente a idia de ser deixado sozinho com 
duas garotas o aterrorizava.
Mas eu tinha gostado dele. Numa escala de um a dez, dei nove para o nosso encontro no caf. Jayne parecera genuinamente absorta em sua conversa algo esotrica com 
John. E Dean e eu no mostrvamos nenhum sinal de esfriamento.
- At mais - Dean despediu-se, j se dirigindo para a porta do Bob's Buzz Stop.
- At mais - repetiu John.
- Tchau! - Jayne e eu respondemos em unssono.
E estvamos sozinhas de novo. Jayne ficou em silncio por algum tempo. Eu fiquei sentindo vazio a meu lado, onde Dean estivera sentado minutos antes, enquanto ouvia 
a mquina de caf expresso sibilar no fundo do salo.
- Voc gosta dele, no ? - perguntei, por fim.
No havia nenhuma razo para no optar pela abordagem direta.
- De quem? - Jayne perguntou.
- Voc sabe de quem - respondi. - Do John.
Jayne jogou seus cabelos loiros por cima do ombro esquerdo.
- E se gostar, o que  que tem? - ela perguntou secamente.
- Tem que eu vou achar superlegal - respondi. - Voc  minha melhor amiga. John  o melhor amigo de Dean. Dupla de casais. Seria perfeito.
Jayne ficou em silncio, dobrando e redobrando seu guardanapo de papel.
- Voc acha que ele poderia me convidar para sair? - ela perguntou aps alguns segundos. - Quero dizer, John Muirhead  provavelmente o cara mais inteligente de 
toda a escola.
- Perfeito. - Eu sorri. - Ento ele deve ser inteligente o bastante para merecer voc.
Jayne sorriu tambm.
- Eu sabia que havia um bom motivo para voc ser minha melhor amiga - ela disse. - Mas ainda tenho mais uma perguntinha.
- O que ? - perguntei, esperando que Jayne me enchesse de perguntas sobre as peculiaridades do beijo de lngua.
- Qual  o signo de Dean?

***

Romeu e Julieta so sem dvida os amantes mais famosos de toda a histria da literatura - informou  classe o nosso professor de ingls, Mr. Dixon, na segunda-feira 
de manh.
A voz de Mr. Dixon soava to condescendente como sempre. Era como se ele achasse que nenhum de seus alunos de literatura universal tivesse ouvido falar de Romeu 
e Julieta. Ou de William Shakespeare.
Mas uma pessoa precisaria ter sido criada em Marte para no saber quem so Romeu e Julieta. So o casal adolescente primordial - e a perfeita ilustrao da verdade 
universal de que os pais devem manter o nariz fora da vida amorosa de seus filhos.
- Muitos estudiosos acham que Romeu e Julieta so figuras trgicas, condenadas - continuou Mr. Dixon. - Pessoalmente, acho que o que Shakespeare nos mostra aqui 
 nada mais que um tpico casal de adolescentes sofrendo de sobrecarga hormonal.
Ele esperou que algum risse, mas ningum o fez. Dixon, o Panaca, como todos o chamam, ensina ingls na Emerald High desde sempre. H um boato de que a escola foi, 
na verdade, construda em torno dele. Suponho que Mr. Dixon conhea seu ofcio, mas ningum jamais foi capaz de entender por que ele se tornou professor de colegial, 
j que em sua opinio os adolescentes so, todos, seres desprezveis.
E, na minha opinio, Dixon, o Panaca, estava completamente enganado quanto a Romeu e Julieta. O problema no era de hormnios, mas dos astros. Na pea, Shakespeare 
at mesmo os chama de "amantes condenados pelas estrelas". O que mais algum precisa saber alm disso?
Os astros no saam da minha cabea naquela manh - mais que de costume. Depois que Jayne me perguntara o signo de Dean no dia anterior, eu me dera conta de que 
ainda no sabia com certeza sob que signo ele havia nascido. E aquilo era uma informao crucial.
- Vamos ao trabalho - Mr. Dixon ordenou. - Abram seus livros na pgina vinte e quatro.
Abri meu exemplar de Romeu e Julieta, considerando mentalmente minhas alternativas. Eu queria esclarecer a questo do signo de Dean o mais cedo possvel. De preferncia, 
antes do fim daquela aula.
No que estivesse realmente preocupada quanto quilo. Tinha quase certeza de que Dean era de Touro. Mas queria confirmar. Depois, poderia me concentrar em outras 
coisas importantes. Como, por exemplo, fazer Dean notar como eu estava maravilhosa na minha nova cala jeans.
- Eis aqui uma amostra daquilo que eu dizia - Mr. Dixon anunciou triunfante. - Bem aqui, Ato I, cena 5. Romeu literalmente se apaixona  primeira vista por Julieta.
E o que h de errado nisso?, eu me perguntei, enquanto apoiava meu cotovelo na carteira de Dean. Com o canto do olho, captei o sorriso dele.
Dean estava lindo naquela manh. Vestia uma cala jeans desbotada, e seu suter cinza carvo era da mesma cor de seus olhos. Uma mecha de cabelo rebelde caa em 
sua testa. Eu tinha de me conter o tempo todo para no estender a mo e pentear a mecha para trs.
Dei uma olhadela para Mr. Dixon. Ele estava de p diante da classe, gesticulando com os braos. Me inclinei um pouco mais para o lado da carteira de Dean. No existe 
melhor hora que agora.
- Dean - sussurrei -, qual  o seu signo?
Os olhos de Dean se voltaram de supeto para Mr. Dixon. O Panaca odeia quando algum fala durante suas aulas. Sobretudo se falam enquanto ele est falando.
- O qu? - Dean sussurrou de volta.
- Qual  o seu signo? - repeti um pouco mais alto.
- Ah, senhorita Taylor, senhor Smith! - Mr. Dixon falou alto, l da frente da classe. - Fico muito feliz em saber que vocs dois esto em tima forma vocal hoje.
Pude sentir meu corao cair de uma s vez at o fundo das minhas botas de couro novas. Alguma punio diablica sempre recaa sobre os alunos que quebravam a lei 
do silncio de Mr. Dixon. Os escorpianos no so famosos por sua pacincia, mas eu me arrependi amargamente de no ter agentado at o fim da aula para falar com 
Dean.
- A melhor maneira de sentir o poder da linguagem de Shakespeare  ouvir seus textos lidos em voz alta - Mr. Dixon informou.
Ele parecia estar se deliciando com a chance iminente de humilhar Dean e eu diante de toda a classe.
Por favor, pensei, algum me diga que isto no est acontecendo.
Mr. Dixon ia nos fazer ler em voz alta para a classe.
Na minha lista de coisas ruins da vida, ler em voz alta para a classe ocupa o mesmo lugar que esfregar o banheiro. Especialmente quando o material a ser lido  Shakespeare. 
Suas peas nunca fazem o menor sentido, ao menos no na primeira leitura.  um ingls to arcaico que quase parece outra lngua.
- Comece na linha quarenta e nove, senhor Smith - ordenou Dixon, o Panaca.
Com o canto do olho, pude ver as bordas das folhas do livro de Dean tremerem. No sabia dizer se ele estava tremendo de nervosismo ou de vontade de rir. Pensei em 
olhar para seu rosto, a fim de decifrar seu estado de esprito, mas sentia-me terrivelmente envergonhada. Dean estava encrencado, e por minha culpa.
- Estamos esperando, senhor Smith - Mr. Dixon insistiu. Dean limpou a garganta. Depois de uma breve pausa, comeou a ler.
Nada mau, pensei, quando Dean parou para tomar flego. Da maneira como ele lia os versos, Shakespeare at fazia sentido.
Ouvi com entusiasmada ateno a leitura de Dean. Depois de alguns segundos, at relaxei o suficiente para me permitir imaginar que ele era Romeu e eu, Julieta.
Ainda me lembrava claramente da primeira vez que Dean e eu tnhamos nos visto. Fora justamente ali, na aula de ingls de Mr. Dixon. Desde o primeiro instante eu 
soubera que Dean era especial. A qumica entre ns dera certo. Tnhamos batido um com o outro.
Ns dois realmente somos como Romeu e Julieta, disse a mim mesma. Um olhar significativo havia sido tudo o que Romeu e Julieta tinham precisado para se apaixonar. 
Mas, ao contrrio dos amantes de Shakespeare, Dean e eu no acabaramos morrendo nos braos um do outro no fim da histria. A nossa histria ia ter um final feliz. 
Juntos para sempre. Felizes para sempre.


***



- Humm, que delcia. O seu sabor est to gostoso quanto eu me lembrava - Dean sussurrou.
Estvamos de p sob o grande carvalho do jardim da frente da minha casa, apoiados contra o tronco. Depois da aula de ingls, eu ficara um pouco preocupada com a 
possibilidade de Dean estar furioso comigo, por eu ter colocado ns dois em maus lenis, mas at aquele momento ele parecia tudo, menos bravo.
- Boa frase - falei rindo. - Voc a usa com todas as garotas que beija?
- Puxa! - Dean retrucou com um sorriso. - Voc faz idia do quanto isso foi devastador para o meu ego? Voc acabou de desmontar a minha melhor armadilha!
- Eu no sou um bicho - informei. - No preciso de armadilha.
O sorriso de Dean cresceu.
- Vou anotar isso - ele disse num sussurro.
Seus lbios roaram suavemente os meus. Um arrepio percorreu toda a minha espinha, e eu correspondi  presso de sua boca. Se eu fosse um computador, os circuitos 
da minha placa-me teriam derretido naquele instante.
Depois de vrios e longos minutos, Dean se afastou alguns centmetros.
- E ento, Natalie? Voc me deve uma explicao. A troco de qu foi tudo aquilo na aula de ingls, hoje de manh?
Graas a Deus ele prprio puxou o assunto da astrologia, pensei. Ns devemos estar mesmo na mesma freqncia de onda astral.
- Ah... Eu s queria saber qual era o seu signo - expliquei. - Desculpe pela terrvel falta de timing. Eu no queria causar problemas para voc.
- Bah, o Dixon  um idiota - Dean disse.
Ento, ele se inclinou um pouco mais, para poder olhar bem dentro dos meus olhos.
- Voc est realmente muito envolvida com esse negcio de astrologia, no ?
- Acho muito interessante, sim - admiti.
- To interessante quanto o motivo da construo de Stonehenge?
- Dean, voc est se esquivando da minha pergunta.
- Tudo bem, tudo bem. Se  to importante para voc... Sou de Gmeos.

Eu no podia acreditar naquilo.
Dean Smith, o amor da minha vida, era um... um geminiano! A pior combinao possvel para mim!
Nas ltimas horas a palavra "Gmeos" ficara ecoando em meu crebro. O jantar tinha sido uma mistura cinzenta de lasanha, salada e pensamentos sobre Dean. Minha me 
teve de me avisar trs vezes que eu tinha derramado meu copo d'gua. Eu estava to absorta em meus pensamentos que nem sequer percebera que tinha ensopado minha 
cala jeans de gua gelada.
Felizmente terminara rpido. Agora eu estava sentada na minha cama, tentando encontrar uma sada para a confuso em que minha vida se transformara de repente. Mas 
minha mente parecia girar em crculos. Eu me sentia como um rato de laboratrio aprisionado num labirinto. No importava para onde me virasse, dava num beco sem 
sada.
Dean era do mesmo signo que Garth Hunter. Um geminiano. Rolei na cama e gemi de angstia. Meu olhar viajava desesperado de um canto para outro do meu quarto. Havia 
livros e papis espalhados pelo cho. Na ltima meia hora eu tinha relido cada migalha de informao que pudera encontrar a respeito da relao Gmeos-Escorpio.
"O relacionamento entre Gmeos e Escorpio pode ser extremamente excitante", dizia meu livro favorito, Amor e zodaco. "Tentar fazer frente ao carter instvel dos 
geminianos coloca aos ardentes escorpianos exatamente o tipo de desafio que eles adoram. O charme do geminiano  um perfeito complemento para as paixes do escorpiano. 
Com seu bom humor, ele  capaz de afastar com facilidade os mais obscuros estados de esprito do Escorpio. Mas esse charme est fadado a se desgastar no momento 
em que voc se der conta de que uma relao duradoura com um geminiano  invivel. Seu parceiro nunca poder ser muito mais que um flerte inconstante e volvel. 
 melhor cair fora agora, antes que o seu corao seja partido. Se voc quiser uma relao estvel, procure em outra rea do zodaco."
Em outra rea - pensei: como Touro, por exemplo. E eu, que tinha tanta certeza de que Dean era um leal e confivel taurino... Como pudera cometer um erro to crasso? 
Todos os meus instintos me diziam que Dean era algum em quem eu podia confiar. Ele me parecia to diferente de Garth... E era diferente - ao menos na superfcie.
Mas eu j tinha aprendido da maneira mais dura possvel - sendo torturada por Garth - que no podia julgar um cara por sua aparncia. No, se quisesse que meu corao 
sobrevivesse. Dean e Garth eram iguais naquilo que realmente importava: na essncia de seu ser.
E, mais cedo ou mais tarde, Dean iria me chutar. Ele no conseguiria evitar. O fato de que esmigalharia meu corao em mil pedaos estava escrito nas estrelas. No 
fim, seria outro Garth Hunter. O destino ditado pelos astros era inevitvel, como os impostos e os lanches ruins nas cantinas das escolas. Dean ainda no tinha partido 
meu corao, mas partiria. Era s uma questo de tempo.
Rolei para fora da cama e sa do quarto rumo ao banheiro. Lavei o rosto com gua fria, limpando as manchas deixadas pelas lgrimas. E enquanto me secava com uma 
toalha felpuda e macia, encarei a verdade de frente.
S havia uma sada para aquela situao. Eu estivera procurando por outra a noite toda, mas no existia nenhuma outra.
Eu me recusava a alimentar deliberadamente uma catstrofe amorosa. No podia deixar que meu corao fosse partido uma segunda vez.
Precisava interromper aquela minha paixo cada vez mais profunda por Dean Smith. Tinha de terminar com ele - antes que ele terminasse comigo.

4 

Dean

Gmeos (21 de maio - 20 de junho)
Acontecimentos surpreendentes abalam o que antes parecia ter uma base slida. No entre em pnico. Agora  a hora de descobrir quem voc realmente . Algum que 
no nutre bons sentimentos por voc pode tentar distra-lo. Evite a raiva. Mantenha-se calmo.

Decidi dar uma passada no Caf Luna antes da escola, na tera-feira de manh. No  um lugar aonde costumo ir. Tem uma freqncia muito cult para o meu gosto. Mas 
eu sabia que Natalie gostava do Caf Luna, de maneira que estava disposto a me sujeitar a um bando de pretensiosos vestidos de preto, discutindo vegetarianismo e 
Kafka. Com um pouco de sorte, eu toparia com Natalie.
"Natalie." Repeti a palavra para mim mesmo pela dcima vez naquela manh. Balancei a cabea e ri. Eu precisava parar de ficar dizendo seu nome. Mas parecia fisicamente 
incapaz de pensar em qualquer outra coisa alm de Natalie. Naquela manh, Roy tinha enterrado uma bala de goma na minha tigela de cereais. Eu j tinha comido mais 
da metade do meu caf da manh, quando descobri o "presente" de Roy.
Abri a porta do Caf Luna. A primeira coisa que notei foi um enorme mbile feito de luas e estrelas pendurado no teto. O mbile me lembrou a paixo de Natalie por 
astrologia. Perguntei-me o quanto ela levava aquilo a srio.
Pessoalmente, eu no podia me imaginar tentando conduzir minha vida de acordo com as estrelas. Como uma pessoa podia antever eventos totalmente imprevisveis, como, 
por exemplo, se apaixonar por algum?
Avistei Natalie e Jayne sentadas numa mesa de canto. Natalie estava maravilhosa, como sempre. Naquela manh, vestia uma cala preta justa e uma camiseta cor de canela.
As duas pareciam completamente absortas em sua conversa. Natalie estava um pouco inclinada por cima da mesa, o rosto srio. Enquanto falava, gesticulava repetidas 
vezes com um brao. Jayne escutava e assentia com gestos de cabea, seus olhos fixos nos de Natalie. Nenhuma das duas notou minha presena. Me perguntei se Natalie 
estaria dando conselhos a Jayne, para que batalhasse por uma possvel relao com John.
- Ouvi dizer que o caf daqui  muito bom - falei, me aproximando da mesa delas.
Eu esperava que Natalie me olhasse e sorrisse. Em vez disso, ela deu um tranco na cadeira, como se tivesse sido espetada por um alfinete gigante. Antes que eu pudesse 
dizer mais alguma coisa, ela se levantou, pegando a jaqueta e a mochila penduradas no encosto da cadeira.
- Preciso ir - disse secamente.
Sem mais nenhuma palavra, ela se dirigiu para a porta do Caf Luna.
Que diabos estava acontecendo? Paralisado, fiquei olhando para a cadeira vazia de Natalie, tentando no deixar meu queixo cair no cho. Ser que durante a noite 
havia crescido uma verruga gigante no meu nariz? Ou um terceiro brao? O qu, afinal?
- O que h com a Natalie? - perguntei a Jayne, assim que senti que minha voz voltaria a funcionar.
Jayne mordeu o lbio. Por um instante, olhou para sua xcara de caf. Quando me encarou de novo, seus olhos expressavam solidariedade.
- Ela est meio perturbada no momento - respondeu.
- No me diga - falei, sabendo que minha voz soara um pouco mais sarcstica do que eu pretendera. A sbita partida de Natalie tinha deixado uma estranha sensao 
na boca do meu estmago.
- Voc sabe o que est acontecendo?
- Acho que a prpria Natalie deveria contar a voc -Jayne respondeu, seus olhos azuis fixos nos meus. -  s... Tente lhe dar um pouco de espao, est bem, Dean? 
Tenho certeza de que tudo vai dar certo, assim que ela se acalmar.
Eu estava morrendo de vontade de pressionar Jayne para que ela soltasse mais informaes. Mas antes que eu pudesse tentar lhe arrancar qualquer coisa, ela se levantou. 
Segundos depois, j tinha ido embora.
Eu me dirigi para o balco e pedi um caf com leite expresso triplo, esperando que a cafena extra me endurecesse o esprito de alguma maneira. At conseguir descobrir 
por que Natalie estava to perturbada, eu ia precisar de toda a ajuda que pudesse obter.

- Ela est me evitando - falei.
John e eu estvamos sentados na cantina da escola, alimentando-nos  fora de pores de "atum surpresa". Acho que a surpresa tinha algo a ver com o fato de estarmos 
descobrindo a cada mordida que havamos sido tapeados ao acreditar que aquela droga poderia ser comestvel.
Natalie e Jayne estavam numa mesa prxima. Natalie no me dirigira a palavra durante o dia todo. Nem sequer se sentara perto de mim na aula de ingls de Mr. Dixon. 
O dia inteiro eu tentara seguir o conselho de Jayne. Estava dando "espao" a Natalie. Mas, quanto mais espao eu lhe dava, mais ela se afastava.
- Simplesmente no consigo entender - continuei. - Ontem  tarde estvamos nos beijando debaixo da rvore da casa dela. Hoje ela me trata como se eu tivesse peste 
bubnica. Por qu?
- Mau hlito? -John sugeriu. Suspirei profundamente.
- Isto  srio, John.
Duas garotas do primeiro colegial sentadas na mesa ao lado da nossa comearam a dar risadinhas. timo, pensei. Elas provavelmente ouviram cada palavra da nossa conversa. 
Eu j podia prever os boatos: Natalie Taylor acha que Dean Smith tem mau hlito. Dean Smith implorou por uma segunda chance, e ela lhe disse que no sairia com ele 
nem que fosse o ltimo cara disponvel no planeta.
Droga! Ao menos por uma questo de autopreservao, eu tinha de descobrir o que estava acontecendo.
Espetei meu garfo em algo que parecia salada verde. Coloquei a suposta alface na boca, mastiguei e engoli. Tinha sabor de papel sulfite com tempero italiano. Aquele 
dia estava mesmo uma porcaria.
Se a maneira como Natalie tinha me evitado a manh toda era indicao de algo, ento ela pretendia continuar fingindo que eu no existia pelo resto do tempo. Sem 
dvida eu precisava agir.
- J volto - eu disse a John.
Caminhei a pequena distncia at a mesa de Natalie. Mais uma vez, ela e Jayne estavam profundamente absortas em sua conversa. Mas dessa vez eu no ca na ingenuidade 
de achar que as duas falavam sobre John. Tinha certeza de que falavam de mim - ou, mais exatamente, da sbita averso de Natalie por mim.
- Natalie, podemos conversar? - perguntei, me sentando na cadeira prxima  delas.
Os olhos castanhos de Natalie pareciam enormes. Havia um grande crculo escuro em torno de cada um deles, como se ela no tivesse dormido nada naquela noite. Pude 
sentir meu estmago dando um n. Algo de muito srio estava acontecendo.
- Dean - Natalie disse, sua voz saindo totalmente rouca. - Eu... eu estou conversando com a Jayne agora...
- Ah, no tem importncia, depois a gente continua - Jayne interrompeu, levantado-se rapidamente. - Eu preciso procurar uma coisa na biblioteca mesmo.
Ela tirou sua bandeja da mesa.
- Boa sorte - Jayne sussurrou perto do meu ouvido quando ia saindo.
Suas palavras soaram agourentas. Ela saiu quase correndo rumo  porta da cantina. Com o canto do olho, pude ver John levantar-se e segui-la.
Uma expresso de pnico invadiu o rosto de Natalie.
- E ento - ela perguntou quase sem voz -, como anda voc, Dean?
Agora eu sabia que estava encrencado. Natalie queria uma conversa formal e amena - uma tcnica clssica para manter distncia -, e quela altura da minha vida, eu 
j tinha aprendido que uma conversa formal e amena  o beijo da morte em qualquer namoro.
Minha frustrao crescia a cada segundo. No posso suportar quando as pessoas no me dizem diretamente o que se passa em suas cabeas. Natalie era a ltima pessoa 
do mundo de quem eu esperaria esse tipo de jogo comigo.
- Por que voc no me conta como eu ando? - respondi. - At hoje de manh, eu pensava que tudo estava andando bem. Muito bem, alis.
Minha voz fora subindo de tom enquanto eu falava. No fim, eu j estava quase gritando.
Natalie se retraiu.
- Por favor, Dean, no quero brigar.
- Eu tambm no quero - repliquei, um pouco mais suave. - S quero que voc me explique o que est acontecendo. Se fiz algo de errado, acho que tenho o direito de 
saber o que foi.
- No - Natalie respondeu quase num sussurro. - Voc no fez nada de errado, Dean.  s que... eu... eu sinto muito, mas no podemos mais nos ver.
Ouvir aquilo foi para mim como se Natalie simplesmente tivesse pego sua cadeira e a quebrado na minha cabea. A dvida me invadiu. Eu devia ter entendido mal. No 
era possvel que a garota dos meus sonhos tivesse acabado de me informar que no queria mais nada comigo.
- Deixe-me ver se entendi bem - comecei, com palavras lentas e ponderadas. - Voc est rompendo comigo, mas eu no fiz nada de errado?
Natalie no falou nada. Apenas confirmou com um gesto de cabea, o rosto plido.
- Bom, at que foi rpido - falei com amargor. - O que voc fez ontem, depois que nos despedimos? Foi tomar conselhos amorosos com Garth Hunter?
O rosto de Natalie ficou roxo.
- Vou ignorar esse seu ltimo comentrio - ela disse friamente. - Isto no est sendo mais fcil para mim do que para voc, Dean. S estou tentando fazer o que acho 
melhor para ns dois. As coisas nunca dariam certo entre ns.
Limpei minha garganta, que parecia bloqueada por chumaos de algodo.
- E posso saber por que voc tem tanta certeza de que as coisas no dariam certo entre ns?
- Porque voc  do signo errado - Natalie disse com toda a naturalidade.
Comecei a duvidar da sabedoria da minha idia de tomar caf com leite expresso triplo de manh. Talvez agora houvesse cafena demais no meu sistema, e aquilo estivesse 
me fazendo perder o entendimento.
-  por isso que voc est rompendo comigo? - quase gritei. - Porque sou do signo errado?
Natalie confirmou:
- No podemos nos ver mais porque voc  de Gmeos, e esse signo  uma pssima combinao para mim.
- Isso  uma piada, s pode ser. Por favor, Natalie, me diga que  uma piada.
Ela negou, balanando a cabea.
- Eu sei por experincia prpria que Gmeos significa encrenca para mim - ela continuou, olhando para o tampo da mesa.
- Garth era de Gmeos.
Meu estmago travou de vez. Agora parecia uma bola de chumbo.
- Tudo isso  por causa de Garth, no ? - perguntei sem alterar o tom de minha voz. - Porque voc ainda est apaixonada por ele.
- No, Dean, no estou - Natalie insistiu. -J superei isso h muito tempo.  que Escorpio e Gmeos simplesmente no combinam. Nossos signos so incompatveis.
- Pelo amor de Deus, Natalie, no me venha com essa! Ela pousou a mo em meu brao.
- Estou fazendo isso por voc tambm, Dean - continuou.
- Para impedir que voc seja infeliz mais tarde.
- Bom, isso  mesmo muita considerao da sua parte - retruquei, retirando meu brao com um puxo. - Assim, em vez de ficar infeliz mais tarde, fico infeliz j.
Natalie se levantou.
- Acho que no adianta conversarmos mais sobre isso - ela disse. - Estou tentando explicar, mas voc no quer me entender. Fica deliberadamente tentando deturpar 
o que eu digo.
Ela socou na mochila o saco de papel pardo contendo o lanche que trouxera para a escola.
- Voc est enganada - retruquei. - Eu entendi, sim. Entendi que voc est se afastando de mim sem nenhum motivo.
- Eu tenho um motivo - Natalie rebateu. -  que voc simplesmente no quer aceit-lo. E no vou ficar aqui de p, discutindo com voc. Nunca pretendi mago-lo. Mas 
j disse tudo o que tinha a dizer.
Antes que eu pudesse pensar numa maneira de det-la, ela pegou sua mochila e saiu andando. E eu fiquei l de p, plantado no meio da cantina.
Com certeza devo ter batido um novo recorde mundial, pensei, enquanto via Natalie abrindo a porta e sumindo de vista. Eu tinha encontrado e, em seguida, perdido 
a garota dos meus sonhos em exatos trs dias e meio.

O resto do dia foi um desastre total. Cheguei  ltima aula do perodo pronto a varar uma parede com um murro. Uma parede bem dura.
Todas as vezes que eu entrava numa sala de aula, as conversas eram subitamente interrompidas. A cena entre mim e Natalie na hora do almoo, na cantina, estava sendo 
comentada pela escola inteira. Na sexta-feira de manh, nosso rompimento provavelmente seria uma das manchetes do jornal da escola.
Girei os nmeros do cadeado do meu armrio at atingir a combinao, ignorando intencionalmente os olhares curiosos dos outros garotos que perambulavam pelo vestirio. 
Tirei minha jaqueta e joguei-a no fundo do armrio. Apesar do tempo frio, eu no via a hora de estar ao ar livre. Correr pela trilha da escola era sempre uma boa 
vlvula de escape para qualquer frustrao. E quanto antes eu conseguisse apagar Natalie da minha vida, melhor.
Ouvi um estrondo atrs de mim. Algum abrira bruscamente a porta do vestirio.
- Ei, Romeu! - uma voz falou alto. - Algum problema na sua vida amorosa?
Ah, timo, pensei. Era s o que me faltava.
Eu j tinha me perguntado quanto tempo demoraria para Garth Hunter aparecer na minha frente. Garth tinha um dos egos mais gigantescos da face da Terra, e eu tinha 
certeza de que ele no resistiria  oportunidade de me torturar.
Me virei para encar-lo.
- Voc disse alguma coisa para mim?
A viso de Garth me deu vontade de vomitar. Rezei para que o atum surpresa permanecesse no meu estmago. Vomitar naquela situao dificilmente seria encarado como 
uma prova de masculinidade.
Como Natalie pode achar que esse cara  melhor do que eu?, eu me perguntei, enquanto olhava para sua expresso presunosa:
ele  nojento.
- Disse - ele respondeu. - Eu disse que  uma pena essa
histria entre voc e Natalie.
Seus olhos azuis me fitavam agressivos,  espera de uma reao. Mas eu no estava a fim de lhe dar mais nenhuma munio.
- Pois  - retruquei. - Uma pena.
Sentei-me no banco e comecei a amarrar meus tnis, confiando em que Garth deixaria o assunto morrer por ali. Deveria ter imaginado que no.
- Quanto tempo demorou para ela dar um p em voc? - ele insistiu. - Uns vinte minutos, mais ou menos?
- Eu no estava cronometrando - retruquei. - Mas acho que ela quis tentar bater o seu recorde mundial.
Pude ouvir uma risada abafada vindo do outro lado dos armrios. A maioria dos garotos da escola gostava to pouco de Garth quanto eu. Ele era popular graas ao que 
John chamava de "fator intimidao". Era mais fcil ficar bem do que brigar
com ele.
- Puxa, legal, Dean - Garth disse, como se eu lhe tivesse feito um elogio. - Mas, no seu lugar, eu no levaria a mal o fato de Natalie ter lhe dado o fora to rpido. 
Ela no podia evitar. Sabe como , na verdade ela nunca conseguiu me esquecer.
- Eu acho que vocs dois tm algo em comum - falei. Os dois esto apaixonados por voc.
Outra risada alta, provinda do canto mais distante do vestirio. Garth fez uma cara carrancuda enquanto tirava a jaqueta.
- Bom, voc no pode nos culpar por isso - ele disse, por fim, j sorrindo zombeteiramente de novo. - Afinal, eu sou realmente fora de srie. E Natalie no  a nica 
garota da escola que no consegue parar de criar fantasias comigo.
Eu estava enganado a seu respeito, Garth, pensei: voc no tem o maior ego da face da Terra; tem o maior ego da Via Lctea.
- Ento deixe-me ver se entendi bem. Voc est dizendo que Natalie prefere sonhar com voc do que namorar comigo?
Garth sorriu ainda mais, revelando vrios anos de caros tratamentos ortodnticos.
- Acho que agora nunca vamos saber a resposta, no  mesmo? Grande erro, meu chapa, respondi em pensamento. Garth Hunter acabara de me desafiar.
Suas palavras com certeza haviam tido a inteno de me fazer reconhecer minha inelutvel derrota. Mas tiveram o efeito oposto sobre mim. Me senti melhor do que vinha 
me sentindo desde que Natalie me rejeitara no Caf Luna.
Havia uma maneira de provar que eu era melhor do que Garth Hunter. S o que eu tinha a fazer era convencer Natalie a voltar para mim. O que, afinal de contas, era 
tudo o que eu realmente queria.

5 

Natalie

Escorpio (23 de outubro - 21 de novembro)
A sorte cai por terra, enquanto a mente luta com o corao. Tente distanciar-se da situao. Deixe as coisas flurem. Voc est sendochamada a ajudar algum que 
sempre lhe ajudou. Lembre-se das propriedades curativas do tempo.

- No consigo entender por que voc est to perturbada - eu disse a Jayne na sexta-feira  tarde. - No foi voc quem leve de desistir do namorado.
- No - Jayne concordou, carrancuda. - S da minha nica possibilidade de algum dia ter um.
Estvamos sentadas numa mesa ao lado da janela da frente da Seattle Dessert Company, afogando nossas mgoas em enormes taas de sorvete de chocolate. s vezes as 
coisas do amor tm prioridade sobre as da boa forma.
Dean no tinha mais falado comigo desde a nossa discusso na cantina da escola, na tera-feira.
Eu dissera a mim mesma milhares de vezes que devia me sentir satisfeita por ele no ter mais tentado me convencer a no terminar. Eu, de fato, havia dito tudo o 
que tinha para dizer. E Dean no aceitara a motivao astrolgica para o nosso rompimento. Alis, reagira com bastante hostilidade  histria da astrologia em geral.
Tudo bem, eu precisava levar em considerao que nem todo mundo nesta vida era to iluminado quanto eu, no que se refere  astrologia. Nem mesmo Jayne entendia por 
que ler os astros era to importante para mim.
Claro que eu sabia que tinha tomado a deciso certa. Mas ser mal compreendida era doloroso. Acho que nunca tinha me sentido pior em toda a minha vida.

Agora que eu no podia mais ansiar por sair com Dean, estava me dando conta de quanto tempo ele tinha sido uma parte importante da minha vida. Durante todo o ano 
letivo, eu sempre estivera muito atenta  presena dele. Agora, sua ausncia criava um vcuo amoroso com o qual minha natureza escorpiana achava difcil conviver. 
Eu estava num total impasse.
Naturalmente, eu me voltei para Jayne em busca de consolo. At cheguei a conjecturar que a soluo a curto prazo para minha situao poderia ser adotar uma abordagem 
mais pisciana da vida. Eu deveria tomar um pouco de distncia, analisar meus atos, ser governada pela razo.
Mas Jayne no estava ajudando. Ela se mostrava to animadora quanto um cobrador de impostos. Se a quantidade de sorvete que ela estava tomando era sintoma de algo, 
Jayne se sentia no mnimo to deprimida quanto eu mesma.
- O que voc quer dizer com "sua nica possibilidade de algum dia ter um namorado"? - perguntei.
Procurei mostrar-lhe pelo tom da minha voz que no me sentia completamente solidria com ela naquele momento. Afinal, ns no tnhamos ido l para afogar as mgoas 
dela num sorvete de chocolate caro e altamente calrico, mas para afogar as minhas.
Jayne enterrou sua colher no sorvete.
- Voc deve se lembrar - ela respondeu. - Foi voc mesma quem disse. Eu sou sua melhor amiga. John  o melhor amigo de Dean. Era o arranjo perfeito para que eu e 
ele nos conhecssemos melhor. Agora que voc e Dean no esto mais juntos, John e eu no temos a mnima chance.
Eu a fitei nos olhos.
- Ento quer dizer que voc gosta mesmo de John Muirhead?
Eu j suspeitava que Jaynetinha uma forte queda por John, quando nos encontramos todos no Bob's Buzz Stop no fim de semana anterior. Mas desde ento ela nem sequer 
mencionara o nome dele.
- Claro que gosto! - Jayne respondeu. - Gosto dele h meses. No consigo acreditar que voc no tenha percebido.
- Acho que ando to perturbada com o que aconteceu com Dean que at me esqueci dessa histria sobre voc e John.
Jayne tomou outra colherada de sorvete.
- No tem importncia - ela disse. - Quero dizer, no vale a pena perdermos mais tempo falando disso. John provavelmente no vai sequer olhar para mim de novo.
Ela suspirou.
De repente, me dei conta do quanto eu havia sido egosta a semana toda. Afinal, Jayne era minha melhor amiga. Eu no devia abandonar a causa amorosa dela s porque 
a minha virara uma runa.
- Bom, ento vamos ter de dar um jeito para que ele olhe, Jayne.
A colher de Jayne estancou em pleno ar.
- O que voc quer dizer?
- Quero dizer que voc no deve desistir. Se gosta mesmo dele, tem de fazer com que ele fique sabendo disso.
- Mas como? - ela perguntou. - Sem voc e Dean ...
- A relao na qual voc deve se concentrar  a relao entre voc e John - interrompi com firmeza. - E no na relao entre mim e Dean. S porque eu e ele j somos 
passado, isso no quer dizer que voc e John tambm tenham de ser.
- Mas eu no vejo como- Jayne protestou.
- Precisamos de um plano - anunciei.
Estiquei o brao para debaixo da minha cadeira e puxei minha mochila.
- Voc e John Muirhead vo ser um casal! - declarei solenemente.
Abri o zper da mochila e remexi dentro dela  procura de uma caneta. Depois, abri meu caderno numa pgina em branco.
Eu j estava comeando a me sentir muito melhor. Ajudar Jaynee ]ohn a ficarem juntos ia ser uma tima vlvula de escape para meu romantismo escorpiano frustrado.
- Declaro esta sesso de planejamento estratgico iniciada - anunciei.
Fiz uma tabela com duas colunas e escrevi o nome de Jayne no topo de uma delas. No topo da outra, escrevi o nome de John.
- Muito bem, vamos comear pelo bsico - falei. Vamos fazer uma lista das coisas que vocs dois tm em comum.

Depois vamos cruzar os dados para ver se algumas dessas coisas em comum podem se traduzir em possibilidade de namoro.
- No posso acreditar que voc vai fazer isso - Jayne disse com um sorriso um pouco desdenhoso.
Mas eu reparei que ela tinha parado de comer.
-  assim que as garotas realmente populares fazem as coisas?
- As garotas realmente populares tm bancos de dados no computador - respondi. - Mas ns vamos ter de nos virar com a tecnologia mais  mo. E ento, qual  a primeira 
coisa que voc e John tm em comum?
Jayne pensou por um momento.
- Voc e Dean?
- Que tal mdias escolares absolutamente inacreditveis? E fazer parte do grupo de elite dos melhores alunos da escola? rebati. - Essas coisas provavelmente vo 
nos levar mais longe. E agora, o que mais?
- Que ns dois gostamos de milk-shake?
- timo - falei. - Agora estamos comeando a caminhar em alguma direo.
Meia hora depois, meu humor j tinha melhorado bastante. Eu at rira duas ou trs vezes. E as duas colunas da tabela estavam cheias. O cruzamento dos dados que possibilitariam 
que John e Jayne se conhecessem melhor resultou em consumo de cafena e clube de xadrez. Tnhamos decidido tambm que, tanto quanto possvel, Jayne deveria tentar 
se sentar perto de John na aula de ingls, mesmo que isso significasse que teramos de nos sentar distantes uma da outra. E que ela deveria ficar perambulando perto 
do escaninho de John pelo menos cinco minutos por dia.
- Ento estamos combinadas - eu disse a Jayne.
Arranquei a folha do meu caderno na qual registrara todos os dados e a entreguei a ela.
- Guarde isto como se fosse a sua prpria vida - instru.
Ela dobrou o pedao de papel e o enfiou no bolso de trs do jeans.
- No se preocupe, vou guardar. Voc pode imaginar como eu me sentiria humilhada se algum encontrasse isto?
Eu ri.
- Nem pense nessa possibilidade.
Fechei o zper da minha mochila e me levantei. Enquanto seguia Jayne para fora da confeitaria, me obriguei a admitir a verdade.
O fato de eu estar ajudando minha melhor amiga a tentar viver um grande amor no era a nica razo pela qual eu estava me sentindo melhor. Eu tambm sabia que, independentemente 
do que tinha acontecido entre mim e Dean, ele ainda era o melhor amigo de John.
E ajudar Jayne e John a ficarem juntos era o pretexto perfeito para continuar perto de Dean.
- Natalie, chegou um pacote para voc! - minha me gritou no exato instante em que entrei pela porta de casa.
- Srio? - perguntei.
Humm ... Quem poderia ter me mandado um pacote? Eu finalmente conseguira cancelar minha assinatura do Clube do eu, depois de ficarem anos me amolando pelo correio.
Atravessei a sala a caminho da cozinha, onde minha me estava de p em frente ao fogo, remexendo numa grande panela contendo algo que cheirava deliciosamente bem.
- O que voc est fazendo? - perguntei, espiando por cima do ombro dela.
- Chili - ela respondeu. - E salada, e po de milho, acredite se quiser. Sa do trabalho mais cedo, porque houve um blecaute no nosso prdio.
- Oba! Um jantar de verdade!
Minha me sorriu.
- No me diga que voc se cansou de pizza e hambrgueres?
- Jamais - respondi. - Bom, e onde est o tal pacote?
-Na mesa.
Ns sempre deixamos a correspondncia numa cesta que fica em cima da mesa da cozinha. Assim, nada some. A correspondncia de hoje consistia numa caixinha de amostra 
grtis de sabo em p, uma das interminveis revistas de informtica de meu pai e um catlogo de compras da Kleinfeld's. Perto da cesta havia um embrulho de papel 
pardo, com meu nome escrito em cima:

Srta. Natalie Taylor
3609 Seaview Street
Seatle, WA 98199
Meu corao comeou a bater um pouco mais rpido. Eu tinha quase certeza de que aquela era a letra de Dean.
Virei o pacote. No havia remetente. Eu podia praticamente sentir o olhar de curiosidade da minha me.
- De quem ? - ela perguntou.
Eu no tinha conversado muito com minha me sobre meu recente fiasco amoroso. Mas como intuio materna  um de seus maiores predicados, eu tinha a sensao de que 
ela sabia que algo estava acontecendo. Mesmo assim, preferi no lhe contar que havia uma chance muito boa de o misterioso pacote ter sido enviado pelo cara com quem 
eu acabara de ser obrigada a romper. Minha me nem sempre compreende meu envolvimento com os astros.
- No sei - respondi dando de ombros. - No tem remetente.
- Ah, um admirador secreto - ela comentou.
Olhei para ela com o canto dos olhos.
- No enche, me.
Minha me comeou a juntar os ingredientes para o po de milho.
- E isso  jeito de falar com sua me? - ela perguntou.
- Por favor - eu disse. - Por favor, no enche.
- E ainda dizem que os jovens de hoje no tm educao ... - ela resmungou.
Enfiei o pacote debaixo do brao. Aquele papo no ia levar a lugar algum.
- Vou subir l para o meu quarto para abrir isto. Vejo voc daqui a pouco.
- Quando terminar, seria timo se voc pudesse pr a mesa.
- Pode deixar, eu ponho.
Se no estiver chorando demais para descer, acrescentei em silncio.
Meu quarto fica na parte de cima da casa. Bem em frente  minha janela ficam os galhos da rvore sob a qual Dean e eu havamos nos beijado pela ltima vez.
Uma vez na segurana e privacidade do meu quarto, precisei ainda de alguns minutos para criar coragem suficiente para abrir o pacote. Pelo menos no havia nenhum 
tique-taque soando dentro do embrulho. Isso eliminava a possibilidade de que Dean tivesse me mandado uma carta-bomba.
Deixe de ser to medrosa, Natalie. Dean no  do tipo que faria algo violento ou ofensivo para se vingar.
Peguei uma tesoura na minha escrivaninha. Cuidadosamente, cortei o papel pardo. Quando o retirei, encontrei um objeto cuidadosamente envolto em vrias camadas de 
jornal. Cavouquei atravs dos pedaos de jornal. Eu j estava a ponto de explodir de curiosidade quando, por fim, vi o que era: uma foto emoldurada.
A moldura tinha um aspecto antigo. Era de madeira dourada e patinada, decorada com flores em alto-relevo nas bordas. Dentro da moldura, uma foto de ns dois juntos. 
Ao olhar para a fotografia, uma grande bola comeou a se formar na minha garganta.
Era a foto que tnhamos tirado no baile do Dia dos Namorados.
Dean e eu olhvamos sorrindo para a cmera. As rosas de seda vermelha presas no arco do caramancho, bem acima de ns, combinavam perfeitamente com as cores do meu 
buqu. Nossos enormes sorrisos irradiavam felicidade.
S quarenta e oito horas depois de aquela foto ter sido batida, Dean e eu tnhamos nos confrontado na cantina da escola. E eu tinha rompido com ele.
Desabei na minha cama, aninhando a foto contra o peito. Eu ainda podia me lembrar nitidamente de como me sentira enquanto Dean e eu posvamos para aquele fotgrafo 
pateta. Naquele momento, eu jamais teria adivinhado que nossa relao no estava destinada a durar. Tudo parecia absolutamente perfeito.
Fechei os olhos. Na minha mente, Dean e eu estvamos na pista de dana, embalados pela suavidade da msica. Enquanto danvamos as msicas lentas, eu me esqueci 
por completo de que havia outras pessoas alm de ns na pista. Todo o meu corpo comeou a se arrepiar quando pressenti que Dean estava a ponto de me beijar.
Mais tarde, depois do baile, deitei minha cabea no ombro dele durante todo o trajeto de carro, de volta para minha casa.Sentia-me bela e romntica, como uma glamourosa 
personagem feminina sada de um antigo filme romntico em preto-e-branco.
Meu crebro me repetiu mais uma vez que eu tinha feito a coisa certa ao terminar com Dean. Nossos signos eram totalmente incompatveis. Eu j tinha aprendido a lio 
da maneira mais dolorosa. Sabia que um envolvimento com outro geminiano me colocaria na rota do desastre certo. Eu estaria armando tudo direitinho para que meu corao 
se estilhaasse mais uma vez.
Mas infelizmente meu corao parecia j estar completamente estilhaado. Eu teria dado qualquer coisa para me sentir de novo a garota feliz que sorria radiante naquela 
foto emoldurada. A garota que achava que um futuro brilhante e cor-de-rosa a aguardava para breve.
Natalie, voc  uma fraca, pensei olhando para a foto: voc sabe muito bem o que tem de fazer.
O nico jeito de superar aquela situao dolorosa era colocar Dean no passado de uma vez por todas, e para sempre. Eu simplesmente no podia me permitir cair em 
sentimentalismos por causa daquela foto. Precisava trat-la com a mesma dureza implacvel com que tratara todas as fotos de Garth.
Tentei me imaginar destruindo o presente que acabara de receber de Dean. Descendo a escada sorrateiramente na calada da noite. Abrindo a tampa da lata de lixo e 
jogando l dentro a bela moldura.
Ento percebi que nunca conseguiria fazer aquilo. Nem em um milho de anos.
Jamais poderia destruir uma foto de ns dois juntos, mesmo que isso significasse procurar a infelicidade por continuar vivendo no passado. Dean tinha significado 
muito para mim. E talvez ainda significasse.
Acomodei o porta-retratos no meu criado-mudo. O rosto sorridente de Dean seria a ltima coisa que eu veria  noite, e a primeira que veria pela manh.

6 

Dean 

Gmeos (21 de maio - 20 de junho)
Tenha determinao! Se a vida andou lhe dando alguns golpes baixos ultimamente, agora  a hora de mostrar do que voc  feito. Seu desejo de testar a si mesmo poder 
lev-la a um beco sem sada. Mantenha os olhos (e o corao) abertos.


- Ok - eu disse a John. - Fase 1 concluda. Com brilhantismo, alis, se  que eu prprio posso falar assim.
Era sbado de manh, e ns dois estvamos sentados no nosso canto favorito do Bob's Buzz Stop.
John ergueu seu milk-shake de chocolate num brinde.
- Fase I? Era a foto no porta-retratos, certo? - ele perguntou.
- Claro que era a foto. Voc no prestou ateno no que eu falei,John?
Meu plano para convencer Natalie de que deveramos voltar j estava em andamento. Eu tinha ficado obcecado com aquela idia, quando a foto do baile do Dia dos Namorados 
chegara a minha casa pelo correio. Achei que mandar a foto a Natalie seria a maneira perfeita de iniciar minha campanha.
Mas tinha sido perturbador ver documentada naquela fotografia o quanto Natalie e eu estvamos felizes ento. Nossa relao tivera um comeo to promissor. .. Mas 
tudo fora por gua abaixo to rpido quanto comeara.
Achei que dar a ela a nossa foto poderia faz-la pensar em todas as coisas boas que havamos tido e ainda poderamos ter juntos. Talvez ela at comeasse a sentir 
um pouco de saudades. Mas eu no podia confiar s numa fotografia para fazer todo o servio. Tinha de haver outras maneiras de provar a ela que deveramos voltar.

- O que voc acha de toda essa histria de astrologia, John? - perguntei.
Meu amigo tomou um gole de milk-shake. Naquele dia, seu cabelo parecia ter passado por um liquidificador.
- No sei, Dean - ele respondeu. - Para mim, essa obsesso de Natalie com os astros parece bastante esquisita.
- Imagine para mim, ento! - exclamei. - No consigo acreditar que ela esteja falando srio.
John ficou em silncio por alguns segundos.
- Ela sem dvida pareceu estar falando srio. Quero dizer, foi a nica razo pela qual ela rompeu com voc, no foi?
- Ela terminou comigo por causa de Garth Hunter - respondi.
- Por que voc e Garth so ambos sei-l-o-qu?
- Gmeos. Mas isso deve ser s uma desculpa. No pode ser o verdadeiro motivo. No faz o menor sentido.
- Dean - John disse -, ns estamos falando de uma garota.As garotas raramente fazem sentido.
Eu sorri para ele. John tinha razo. Um cara s pode ir at certo ponto, quanto se trata de compreender os mecanismos da mente feminina.
- Ento, qual  a sua opinio? - perguntei.
- Bom, voc e eu sabemos que esse negcio de astrologia  uma fraude, uma bobagem - John disse ponderadamente. Mas no devemos partir do pressuposto de que Natalie 
tambm saiba disso. As garotas simplesmente no pensam do mesmo jeito que ns. Alm do mais, temos provas bastante contundentes de que
a astrologia  mesmo muito importante para ela.
- Como por exemplo?
- Aquele dia em que topamos com Natalie e Jayne tomando caf aqui, a primeira coisa que Natalie fez foi perguntar o meu signo - ele me lembrou.
- Tem razo - concordei, tamborilando com os dedos no tampo da mesa.
Naquela poca, eu tinha achado que a pergunta astrolgica de Natalie tinha sido apenas uma maneira de puxar papo. Mas agora ...
- Portanto - continuei, na mesma linha de raciocnio de John -, numa situao dessas um cara esperto tentaria tirar proveito dessa veia astrolgica dela, ou ao menos 
no a ignoraria.
-  verdade - John concordou. - Mas ns no precisamos 110S tornar crentes. Podemos usar o mtodo cientfico. Colher informaes. Ver aonde elas nos levam.
-  isso a! - exclamei. - Gosto dessa idia, John. Agora s () que temos a fazer  descobrir onde poderamos obter informaes sobre astrologia.
John apontou para um folheto pregado na parede do Bob's Buzz Stop.
- Que tal uma loja do tipo "nova era"?

Duas horas mais tarde, eu saa cambaleante do caixa da livraria Tudo Sob o Sol, os braos carregados com todos os livros que conseguira encontrar sobre astrologia, 
e em especial sobre o signo de Gmeos.
Eu tinha folheado alguns deles enquanto esperava de p na fila: Sob os astros, Conhecendo o seu signo, Uma vida melhor atravs tio astrologia. Infelizmente, as passagens 
que eu localizara no eram I; muito animadoras. Tive de admitir que no era difcil entender I)or que Natalie tinha chegado  concluso de que no queria se envolver 
com outro geminiano.
A lista de atributos dos geminianos traava um perfil quase exato de Garth Hunter. "Charmoso" e "dinmico" figuravam no topo da lista. Mas esses adjetivos eram seguidos 
imediatamente por volvel, frvolo, inconstante, imprevisvel.
Mesmo assim, eu no iria me deixar desanimar. No estava disposto a ser arruinado pelo meu prprio signo. Se aprendesse bem qual era o tipo de personalidade que 
se supunha que um geminiano deveria ter, ficaria perfeitamente habilitado para mostrar a Natalie que eu no tinha nada em comum com meus colegas de signo.
- Ei! - John chamou, segurando numa mo um livro intitulado Amor e zodaco, e apontando com a outra para fora da loja
Veja s aquilo! 
- "Casa da Fortuna de Madame Sonya" -li em voz alta no cartaz para o qual John apontava. - "Quiromancia, adivinhao do futuro, tar. Deixe Madame Sonya mostrar-lhe 
o caminho."
- Uma visita a Madame Sonya pode ser exatamente o que voc precisa - John disse. - Uma arma secreta.
- De jeito nenhum - respondi. - No vou a uma vidente, John, nem pensar.
Ele encolheu os ombros.
- No seja to preconceituoso. Talvez ela lhe diga algo que voc precisa ouvir. Na pior das hipteses, talvez voc possa transformar sua visita  vidente numa conversa 
com Natalie. Provavelmente ela ficaria impressionada vendo que voc est to seriamente a fim de recuper-la a ponto de ir procurar uma conselheira espiritual.
Comecei a espirrar no instante em que entramos na Casa da Fortuna de Madame Sonya. Havia uma vareta de incenso queimando bem ao lado da porta de entrada. Uma outra 
passagem, tambm vedada por uma cortina de contas, encontrava-se bem  nossa frente. Imaginei que devia dar para o santurio privado de Madame Sonya.
Passeei a vista pela sala em que estvamos. As paredes eram revestidas de tecido escuro. No teto, havia um tecido tipo tule, salpicado de pintas fosforescentes. 
Supus que aquelas manchas brilhantes pretendiam representar as estrelas. Pequenos alto falantes acima de nossas cabeas emitiam uma expressiva msica de violino 
cigano. Senti um lampejo de esperana. Talvez Madame Sonya fosse uma jovem lindssima, como a Esmeralda do Corcunda de Notre-Dame. Talvez sua simples presena fosse 
me fazer esquecer at que Natalie Taylor existisse.
No tivemos tanta sorte. Uma gorda Madame Sonya surgiu de trs da cortina de contas. Ela usava um elaborado turbante na cabea, e dava a impresso de ter esgotado 
todo o estoque de rmel e sombra prpura do mercado. Seu rosto estava coberto por uma pesada camada de maquiagem.
- Ah, dois jovens incrdulos - ela disse, sua voz spera, carregada de algum sotaque inidentificvel, lembrando um pouco o Conde Drcula. - Vocs vieram consultar 
Madame Zonya sobre suas desgraadas vidas amorosas, no ? perguntou.
Seus olhos negros cintilavam. Atrs de mim, John tossiu. Para no rir, supus.
- Madame Sonya, estamos desesperados - John disse, depois de outra tossidinha. - A senhora precisa nos ajudar.
Madame Sonya sorriu. Seus dentes eram muito brancos e muito pontiagudos. Talvez ela realmente fosse uma vampira.
- Madame Zonya vai ajudar vocs, no se preocupem - a vidente replicou.
Ela se afastou para o lado, fazendo um gesto para que a precedssemos.
- Entrem.
- Leia a sorte dele primeiro - instru Madame Sonya, alguns minutos depois, apontando para John.
Estvamos agora no santurio interno da Casa da Fortuna. John e eu havamos nos sentado em desconfortveis cadeiras dobrveis, diante de uma pequena mesa. Do outro 
lado, Madame Sonya esparramava-se confortavelmente num hiper-acolchoado sof de veludo vermelho.
Suspeitei que a vidente tivesse escolhido aquelas cadeiras to desconfortveis de propsito. Provavelmente, queria que seus clientes prestassem mais ateno nas 
suas bundas dormentes que nas leituras pseudopsquicas dela.
Madame Sonya franziu a testa.
- Voc precisar aprender a ser mais paciente - ela me disse. -  um jovem muito ansioso.
Seu sotaque tinha ficado mais carregado, agora que havamos entrado na sesso de vidncia propriamente dita.
- Pensei que fssemos falar primeiro de John, no de mim - rebati.
Ela me olhou de soslaio.
- Tudo bem, tudo bem. Eu comear com seu amigo, j que  assim que voc quer.
Madame Sonya esticou o brao sobre a mesa.
- Mostre-me a palma do sua mo.
John obedeceu. Madame Sonya pegou a mo dele com a palma virada para cima e a ergueu at a altura de seu nariz. Enquanto isso, meu nariz comeou a coar desesperadamente.
Estava a ponto de espirrar de novo. Pelo bem de John, torci para que o incenso no surtisse o mesmo efeito em Madame Sonya.
- Voc estarr prrocurrando algo - Madame Sonya murmurou.
- Estarr prrocurrando um grrande amorr. Ela estarr muito perrto. To perrto que talvez voz no a veja. Nem sempre serr fcil reconhecerr um alma gmea.
Isso  timo, pensei: alma gmea. Madame Sonya acabava de me proporcionar uma oportunidade perfeita para torturar John.
- Ei, John - sussurrei alto -, ela est falando da Jayne Engerman.
John se recusou a olhar para mim, mantendo toda a sua ateno concentrada na quiromante.
- Dean, cale a boca. Voc est perturbando as vibraes espirituais - ele ralhou.
- Mas ela s pode estar falando da Jayne - insisti. - A prpria Natalie disse que vocs dois so almas gmeas.
Isso  timo, pensei: alma gmea. Madame Sonya acabava de me proporcionar uma oportunidade perfeita para torturar John.
- Ei, John - sussurrei alto -, ela est falando da Jayne Engerman.
John se recusou a olhar para mim, mantendo toda a sua ateno concentrada na quiromante.
- Dean, cale a boca. Voc est perturbando as vibraes espirituais - ele ralhou.
- Mas ela s pode estar falando da Jayne - insisti. - A prpria Natalie disse que vocs dois so almas gmeas.
- Vocs freqentam outra vidente? - Madame Sonya perguntou, agora com menos sotaque. - Quem  ela, essa Natalie?
-  a garota pela qual ele est apaixonado - John respondeu, apontando para mim.
- Do mesmo jeito que voc est apaixonado por Jayne devolvi.
- Diacho, tudo bem -John disse, arrancando sua mo das mos da vidente. - Voc quer que eu admita? Admito. Eu gosto de Jayne Engerman.
- timo - falei. - Quem sabe agora voc consiga fazer algo quanto a isso.
- Podemos passar para a leitura da sua sorte, por favor? - John perguntou irritado.
Mesmo com aquela luz tnue, eu podia ver que ele ficara corado.
- Para comeo de conversa, era voc quem precisava de ajuda, no eu - ele acrescentou.
Madame Sonya balanou a cabea com ar de desaprovao, e olhou brevemente para cada um de ns.
- Muito conflito - ela murmurou. - H conflito demais nesta sala.  ruim para a leitura. Nubla o esprito.
Ela me encarou do outro lado da mesa.
- A palma de sua mo. D para mim.
Com cautela, estendi a mo para Madame Sonya. A coisa no parecia to divertida assim, agora que ela ia concentrar seus poderes psquicos em mim.
Madame Sonya agarrou minha mo e comeou a percorrer a palma com suas unhas pontiagudas, pintadas de escarlate.
- Ah! - ela exclamou, como se tivesse descoberto algo muito importante. - Ento  daqui que o conflito vem. Voz estarr muito infeliz. Muito infeliz no amorr. Voz 
fazerr infeliz todo mundo  sua volta.
Brilhante deduo, pensei. Qualquer idiota poderia ter percebido isso. Alm do mais, quem j ouviu falar de pessoas felizes indo consultar videntes? Os videntes 
so como os terapeutas: as pessoas s os procuram quando algo vai mal em suas vidas.
- Seu caminho serr cheio de pedrras - Madame Sonya continuou. - Muito mais que o do seu amigo. Ele s precisarr abrrirr os olhos e olharr ao redorr. Os seus olhos 
j estarr aberrtos. Mas sua mente estarr cheia de iluses. Voz z verr aquilo que querr verr.
Naquele momento eu no queria ver mais nada alm da luz do dia. Madame Sonya estava comeando a me produzir uma sensao algo horripilante.
De um salto, a vidente se levantou do sof e, com o corpo retesado, ergueu a palma da minha mo bem acima de sua cabea.
- Voz estarr no caminho cerrto, mas mantm perrto do corrao algo que est obstrruindo zua felizidade. Voz prrecisarr liberrar isso. Liberrar! - ela quase gritou, 
sacudindo meu brao com tanta fora que pensei que talvez o tivesse torcido.
- E ento o zeu amorr vai voarr livrre! - concluiu num grito arrebatado.
Soltou minha mo. Depois, tornou a sentar-se, como se a sesso tivesse sido espiritualmente exaustiva.
- Isso  tudo que eu poderr dizerr a vozs - Madame Sonya continuou. - As imprresses espirrituais, elas me abandonarram.
- Bom, h ... Obrigado - John balbuciou.
Ele ficou de p. Parecia to ansioso para ir embora quanto eu.
- So vinte dlarres porr cabea - Madame Sonya informou. - Eu estarr fazendo prreo bom para vozs. Voltem sempre que quiserrem. E tenham um bom dia.
Peguei minha carteira. Vinte paus por cinco minutos de blablabl. Talvez eu devesse parar de perder tempo com testes vocacionais e aprender a ler o futuro para ganhar 
a vida.
- Bom, isso foi espiritualmente iluminador - resmunguei, assim que John e eu atravessamos a cortina de contas que dava para a rua. - Agora todo o meu futuro est 
claro como cristal.
- Voc tem de admitir, Dean, foi uma experincia interessante - John falou.
- Interessante, sim - concordei. - Mas vale vinte dlares? No.
Enquanto nos dirigamos para o carro de John, ponderei sobre as palavras de Madame Sonya. Talvez ela estivesse certa. Talvez eu fosse um iludido. Iluso nmero um? 
Que eu tinha qualquer chance, por mnima que fosse, de recuperar Natalie.

Na segunda-feira, eu me sentei na minha carteira justamente no instante em que soava o ltimo sinal. Um segundo depois, senti que os olhos de algum estavam pousados 
em mim. Poderia ser? Prendi a respirao e fiz uma rpida prece.
Dei uma olhadinha para os lados. Natalie olhava diretamente para mim. Meu corao pulou. Ela desviou o olhar imediatamente. Provavelmente, agora torcia para que 
eu no tivesse notado que estava me olhando.
Mas fiquei feliz. Aquela era a primeira vez desde que tnhamos rompido que ela tinha olhado diretamente para mim. Mandar a fotografia havia sido uma boa jogada. 
Eu estava ganhando terreno. Correo: eu no estava perdendo terreno.
Abri meu caderno assim que Dixon, o Panaca, iniciou sua aula. Estvamos quase no fim de Romeu e Julieta. quela altura da pea, metade das personagens importantes 
j tinha morrido. E a outra metade estava cometendo erros to estpidos que restava pouca dvida de que tambm teria o mesmo fim. Os Montecchio e os Capuleto eram 
duas famlias que definitivamente teriam se beneficiado muito de alguma terapia familiar.
Percebi que eu era a nica pessoa na classe que estava olhando para uma folha de papel em branco. Todos os demais estudavam seus exemplares de Romeu e Julieta. Rapidamente 
abri meu livro, fingindo prestar ateno  palestra de Mr. Dixon. Mas s conseguia pensar em Natalie. Precisava planejar minha prxima jogada.
Achei que no deveria chegar diretamente nela e perguntar-lhe se tinha gostado da foto. A situao parecia pedir uma abordagem mais indireta. Algo com finesse. Algo 
que mostrasse que eu me importava com a nossa relao, mas que ao mesmo tempo no me fizesse parecer ansioso demais. No tinha cabimento sacrificar totalmente o 
pouco que restara do meu ego masculino.
Mantive os olhos em Dixon, o Panaca, enquanto considerava minhas opes. Ele marchava agitado diante da classe, arrastando enormes nuvens de p de giz atrs de si.
Ento, virou-se de repente, dando as costas para os alunos, e comeou a escrever furiosamente na lousa. Uma oportunidade ideal surgira. Eu iria usar aqueles segundos 
de liberdade para escrever um bilhete para Natalie.
De acordo com minha experincia, as garotas estavam sempre escrevendo bilhetes umas para as outras. Mas elas raramente recebiam bilhetes da metade masculina da espcie. 
Eu no podia imaginar, por exemplo, Garth Hunter dando-se ao trabalho de escrever um bilhete amoroso - ou de qualquer outro tipo - para a garota de seus sonhos.
Perfeito, pensei: totalmente no-geminiano.
Tirei a tampa da minha caneta. Esperei que, caso Dixon, o Panaca, me visse escrevendo, supusesse que eu estava tomando notas da sua incrvel conferncia.

Querida Natalie,
Voc recebeu a foto que lhe mandei? Quando olho para essa foto,
 como se voltasse no tempo. Quase posso ouvir a fita com aqueles
estpidos sons de pssaros.

Bom, e agora, o que mais? Eu no tinha a mnima idia do que escrever em seguida. No podia comear logo a implorar. Ou podia? Continuei:

De todo jeito, espero que voc goste da foto tanto quanto eu. Talvez possamos sair algum dia desses, para tomar um caf na sua cafeteria favorita, o Caf Luna. Se 
der,  s me dar um toque. Voc sabe onde me encontrar. Sou o cara no fim da fileira, tentando se manter acordado durante esta aula absolutamente entediante.

Saudades,
Dean

Era um bilhete meio bobo. O sentimento que ele emanava era um cruzamento entre algo que eu escreveria num dirio escolar e o tipo de carta que, quando pequeno, costumava 
mandar  minha me dos meus acampamentos de vero. Pelo menos no tinha dito a Natalie para "continuar bonita como sempre e tentar arranjar um namorado neste vero".
Dobrei o bilhete em dois e escrevi o nome dela na frente. Me forcei a passar o bilhete a John, antes que pudesse mudar de idia.
_ Passe isto - sussurrei, continuando a vigiar Mr. Dixon. Da ltima vez que ele pegara algum passando um bilhete, fizera a remetente escrever seu contedo na lousa 
cinqenta vezes.
John passou o bilhete para Becky Greer, que estava sentada perto dele. Becky o passou para Gretchen Rubin.
Fechei os olhos. O bilhete estava fora do meu controle. Agora s me restava esperar pela reao de Natalie.

7 

Natalie

Escorpio (23 de outubro - 21 de novembro)
A guerra dos sexos continua. Haver momentos em que voc se sentir encurralada. A esperana pode residir numa revelao surpreendente. Pratique atos aleatrios 
de gentileza desinteressada, mais conhecidos como "boas aes".

- Natalie! -Jayne sussurrou alto.
Dei um salto na cadeira. Eu estava divagando com o discurso de Mr. Dixon sobre os mritos dos dois pretendentes de Julieta, Pris e Romeu.
Aquilo estava longe de ser a maneira mais fascinante de comear uma manh de segunda-feira. E discutir sobre Pris era uma total perda de tempo. Nenhuma garota com 
uma cabea saudvel se apaixonaria por um cara escolhido pelo pai dela.
- O que foi? - sussurrei na direo de Jayne, mantendo os olhos fixos em Mr. Dixon. Eu no podia me permitir ser pega falando durante a aula dele de novo.
Jayne no respondeu. Em vez disso, me passou uma folha de caderno dobrada. Meu nome estava escrito nela em letras de frma. Mais uma vez, reconheci a letra. Era 
de Dean.
Ele tinha me mandado um bilhete. Era mais corajoso do que eu imaginara. Dean sabia que se Mr. Dixon encontrasse o bilhete, seu texto terminaria na lousa.
Durante todo o fim de semana eu tinha pensado em que atitude adotar quando visse Dean na segunda-feira de manh. Eu precisaria admitir perante ele que tinha recebido 
a foto de ns dois juntos. No poderia simplesmente ignorar o fato...
No fim eu tinha resolvido ser amigvel, porm reservada e distante. Agradeceria educadamente pelo presente. Mas de uma maneira no to calorosa a ponto de ele pensar 
que eu queria voltar.
Havia s um problema. Eu ia ter de falar com Dean. Ns no tinhamos dito mais nenhuma palavra um ao outro desde aquele dia terrvel na cantina da escola. S a idia 
de olhar em seus olhos e falar com ele fazia meu corao bater mil vezes por segundo.
Na noite anterior, eu tinha prometido a mim mesma que a primeira coisa que faria na segunda-feira de manh seria agradecer a Dean pelo presente. Mas assim que ele 
entrara na aula de ingls, eu percebera que nunca seria capaz de ir adiante com aquele meu plano to adulto e maduro. Deitada em minha cama, imaginando a maneira 
simptica e serena como iria agradecer a Dean pela foto, a cena parecera totalmente plausvel. Nessa minha visualizao mental, porm, eu deixara de fora um elemento 
muito importante da futura situao real: meus sentimentos.
Eu nem mesmo estava segura de quais eram eles quela altura, mas sabia muito bem que no tinha atingido o estgio de poder pensar em Dean apenas como um amigo.
Coloquei minha mo sobre o bilhete. Talvez eu pudesse absorver seu contedo por osmose. Por que ele o escrevera? O que diria?
De acordo com o perfil de seu signo, escrever um bilhete no era coisa que Dean devesse ter feito, em absoluto. Pela minha experincia, o geminiano sempre quer ser 
o centro das atenes. Como geminiano que era, Dean deveria ter se obstinado a esperar que eu fizesse o primeiro movimento.
Alis, todo o comportamento de Dean com relao  fotografia tirada no baile era totalmente no-geminiano. Se j no soubesse qual era seu signo, teria jurado que 
ele estava agindo como um tpico taurino.
O fato de Dean estar se comportando como um taurino me deixava bastante confusa. Antes de mais nada, eu queria lhe responder como sempre respondera antes do nosso 
rompimento. Mas sabia que no podia me permitir fazer isso.
Eu no podia me deixar levar pelo fato de Dean no parecer um geminiano. Ele era um geminiano. Estvamos destinados, mais cedo ou mais tarde, ao desastre. Isso estava 
escrito nos astros.
Olhei de novo para o bilhete. No podia esperar nem mais um segundo. Meus dedos quase doam de tanta vontade de desdobrar o papel e ver o que Dean escrevera nele.
Mantive meus olhos fixos em Dixon, o Panaca, enquanto abria o bilhete e o alisava com as mos. Li palavra por palavra, uma vez, depois outra, e mais outra. Redobrei 
o bilhete e o enfiei debaixo do meu caderno, onde ficaria em segurana. Meu corao batia aos pulos.
Talvez Dean tenha acabado de me fazer um favor, pensei. Se agradecer pelo retrato com um bilhete de resposta, no vamos precisar nos falar pessoalmente.
Abri meu caderno numa pgina em branco. L na frente, Mr. Dixon deixou cair um pedao de giz no cho. Enquanto ele se curvava para peg-lo, comecei a escrever.

Querido Dean,

A foto ficou demais. Adorei, de verdade. E sei exatamente o que voc quer dizer quando fala daqueles sons de passarinhos. Sempre que penso naquele fotgrafo bobo 
que bateu a foto, eu rio.

Parei. Que diabos estou fazendo?, perguntei a mim mesma: no posso mandar a ele um bilhete neste tom. O texto no estava "amigvel, porm reservado e distante". 
Estava totalmente amigvel.
Rabisquei tudo o que tinha escrito e comecei de novo.

Querido Dean,

Muito obrigada pela foto adorvel. Gostei em especial da moldura. Voc teve de procurar muito para encontrar uma que fosse decorada com rosas?

Obrigada de novo, 
Natalie

Bom, isso sem dvida est muito melhor, pensei com sarcasmo, olhando para o sucinto bilhete. Soava como se eu tivesse voltado ao pr-primrio. Era uma rplica praticamente 
exata de todas as cartas de agradecimento que eu havia escrito a minha av na infncia. Risquei tudo de novo.
Vamos l, Natalie, voc  capaz de fazer isso, disse a mim mesma: no  um tratado de filosofia;  s um bilhete de agradecimento.
Mr. Dixon voltara  lousa. Agora, fazia uma lista dos membros das casas Montecchio e Capuleto que ainda continuavam vivos quela altura da pea de Shakespeare.
Querido Dean, comecei pela terceira e, assim esperava, ltima vez O seu presente foi muito gentil. Muito obrigada.
Era isso. S duas frases. Amigvel, porm reservada e distante.
Arranquei a folha do meu caderno e dobrei-a duas vezes. Escrevi rapidamente o nome de Dean na frente e dei o bilhete a Jayne, antes de ter tempo de mudar de idia.
Com o canto do olho, vi Jayne entreg-lo a Kirk Parker. Assim que a mo de Kirk agarrou o pequeno pedao de papel, meu corao parou. Uma fria dormncia percorreu 
toda a minha espinha
dorsal.
Eu no tinha passado o bilhete a limpo! Ficara to preocupada em fazer a nota chegar s mos de Dean antes do fim da aula, que no me lembrara de reescrever aquelas 
duas frases medocres em outra folha de papel. Como eu podia ter sido to burra?
Agora Dean ia saber quanto eu tivera de me esforar para lhe responder. E saberia todas as coisas que eu tivera medo de dizer.

- E ento, voc vai me contar o que havia no bilhete ou no?-Jayne perguntou.
Estvamos sentadas na cantina meio decadente de Emerald High bebendo chocolate quente e tentando no cair numa orgia total de cookies amanteigados. Ainda tnhamos 
mais dez minutos antes que o intervalo do meio da manh terminasse.
Eu ainda no havia mostrado a Jayne o bilhete de Dean. Relutava em tocar no assunto Dean. Desde a aula de ingls, ficara lutando para expulsar da minha mente quaisquer 
pensamentos sobre ele. Mas parecia impossvel. O bilhete fizera coisas demais voltarem  tona.
Encolhi os ombros.
- Ele s queria saber se eu tinha gostado da foto que me mandou. S isso.
- Havia algo sobre John e eu? -Jayne indagou.
- No, nada - respondi.
Pela milionsima vez nas poucas ltimas semanas, me senti culpada por me esquecer de que os outros tm sentimentos tanto quanto eu.
- Sinto muito, Jayne.
Jayne remexeu seu chocolate quente com a colherinha.
- Esse negcio de tentar mostrar a John que eu gosto dele nunca vai funcionar, no , Natalie?
- Claro que vai funcionar! - protestei. - Voc no pode desistir j. Ainda  segunda-feira. A nica coisa que voc teve tempo de fazer at agora foi tentar se sentar 
perto dele na aula de ingls.
- E nem isso consegui - Jayne suspirou.
- Amanh ser outro dia - insisti. - E a voc vai se sentar perto dele.
- Eu sei - Jayne disse. -  s que... Sei l, eu realmente estava com a esperana de que Dean tivesse dito algo. Quero dizer, como vocs dois no tm mais o que 
falar sobre a relao de vocs, quando vi que ele tinha escrito um bilhete para voc, achei que talvez pudesse ser algo sobre mim e John.
- Eu bem que gostaria que tivesse sido - falei. Assim eu no estaria me sentindo to confusa agora, acrescentei em pensamento.
- Acho que vou dar uma pulo na biblioteca - Jayne anunciou. - Preciso devolver um livro que j passou do prazo.
Jayne nunca estourava os prazos de devoluo dos livros, mas no vi nenhuma razo para pedir para ela ficar. Era bvio que ela estava chateada, e eu no queria me 
intrometer.
- Tudo bem - assenti. - Mas no se esquea: na hora do almoo, voc tem uma tarefa a cumprir na ala dos escaninhos.
- Como se fosse adiantar grande coisa...
Jayne jogou sua mochila por cima do ombro e saiu andando. Continuei sentada na cantina, contemplando as profundezas do meu chocolate quente.
No estou ajudando muito, constatei. Jayne estava desanimada, e ainda no tnhamos superado nem metade da segunda-feira. Uma garota mais habituada s coisas do amor 
saberia que no deveria esperar milagres da noite para o dia. Mas Jayne no tinha familiaridade com essas coisas.
Percorri mentalmente a lista que havamos elaborado sobre o que ela e John tinham em comum. Talvez houvesse algo que eu tivesse deixado escapar. Algo que pudesse 
trazer um retorno mais imediato para Jayne. Mesmo a garota mais autoconfiante do mundo acha difcil dar em cima de um cara, quando no se sente segura de que ele 
est mesmo interessado.
Tomei outro gole do chocolate quente. O que precisvamos era de uma situao social. Um evento que fizesse John e Jayne se encontrarem e, ento, os forasse a passar 
algum tempo juntos, preferivelmente um tempo que envolvesse estreito contato fsico.
Um baile seria perfeito. Mas no haveria mais nenhum at depois das frias de primavera.
Bati com a colherinha na borda da xcara. Tirando um baile, a melhor opo seguinte seria uma festa. Nas festas geralmente se dana, sobretudo msicas lentas. Mas 
como eu podia ter certeza de que John tiraria Jayne para danar?
Vamos l, Natalie, pensei. Tem de haver uma soluo. Pense com a cabea de Jayne. Finja que  uma pisciana.
Eu precisava ser racional e lgica. Tinha de haver uma maneira de garantir que John e Jayne fossem parar num mesmo lugar na mesma hora. Com a dana e o clima de 
paquera, eu poderia me preocupar depois.
Uma festa de aniversrio era a opo mais bvia. O aniversrio de Jayne estava chegando. Se eu organizasse uma festa para ela e convidasse John...
- Natalie! - quase gritei comigo mesma. - Voc  uma idiota total e completa!
Na minha lista, eu tinha passado por cima da coisa mais bvia que Jayne e John tinham em comum: eles faziam aniversrio no mesmo dia!
E, embora ainda no soubessem disso, Jayne e John em breve iriam compartilhar tambm uma festa de aniversrio.

8

Dean

Gmeos (21 de maio - 20 de junho)
Progresso! As coisas comeam a se mover a seu favor, mesmo que isso possa no parecer evidente de incio. Sua dedicao e perseverana so seus dois bens mais valiosos. 
No deixe que a raiva, mesmo que justificvel, o desvie do caminho certo.

- Voc pode fazer isso - insisti. - Vamos l, John, voc tem de me dar uma mo.
-  que eu simplesmente no vejo que vantagem isso vai trazer -John protestou.
Era hora do almoo, e estvamos parados no corredor central da escola. Perto do fim do corredor, Jayne e Natalie estavam de p, bem em frente ao escaninho de John.
- J expliquei a voc - continuei. - Quero saber o que Natalie est sentindo, mas ainda acho que no  boa idia adotar uma abordagem direta. O que significa que 
voc precisa sondar Jayne em busca de informao. No entendo por que voc est criando tanto caso por causa disso. Eu sei que quer falar com ela.
Uma expresso de pnico invadiu o rosto de John. Ele parecia mais como se estivesse a ponto de encarar um peloto de fuzilamento do que de conversar com uma garota 
bonita. At seus cabelos tinham perdido vida de tanta tenso.
- Certo, tudo bem, eu quero falar com ela -John admitiu. - Mas eu estava pensando em algum dia num futuro distante. Como, por exemplo, l pelo ano 2010.
- Em 2010 vai ser tarde demais, John. Vamos l, eu desafio voc.
- Esquea - ele disse. -  voc quem no consegue resistir a um desafio. No eu.
- Encare a coisa desta maneira, John: se voc no falar com ela, vai passar o resto da vida se perguntando o que poderia ter acontecido se tivesse falado. Ela no 
vai esperar por voc para sempre. Vai encontrar algum outro cara. E ento voc vai realmente se sentir um idiota.
John gemeu.
- T bom, t bom, eu vou - ele cedeu. - Mas se o tiro sair pela culatra, vou ensinar a seus irmozinhos todos os experimentos cientficos que conheo que envolvam 
o uso de substncias qumicas fedorentas.
- Boa sorte - concordei, rindo.
Fiquei olhando enquanto John caminhava na direo de Jayne e Natalie. Apoiei-me nos escaninhos da parede atrs de mim e tentei fingir que refletia sobre alguma coisa 
importante. Quando John chegou s garotas, reparei que o rosto de Jayne ficou meio avermelhado. Mas Natalie s sorriu. Depois de um instante, Jayne e John saram 
andando.
Naquele momento, percebi que ter armado aquela situao para que John e Jayne ficassem sozinhos acarretara uma conseqncia que eu no havia previsto: Natalie e 
eu tambm tnhamos ficado sozinhos no corredor.
Bom, no exatamente sozinhos. Estvamos de p no meio de um movimentado corredor de escola. E nem estvamos to perto um do outro. Mas a sensao era de estarmos 
totalmente a ss.
Eu disse a mim mesmo que deveria simplesmente sair andando de uma maneira casual na direo dela. Ento me lembrei de que tinha decidido no adotar a abordagem direta. 
Ainda assim, no tinha certeza de que poderia resistir quela oportunidade de falar com Natalie.
Mas antes que eu pudesse pesar os prs e os contras de falar ou no com ela, Natalie tomou a deciso por mim. Olhou em minha direo. Ento, sorriu e me fez um sinal 
com o polegar para cima. Chegou mesmo a dar uns dois ou trs passos na minha direo. Meu corao pulou. Ela estava vindo falar comigo - e voluntariamente.
Mas, quando estava a alguns metros de distncia, congelou, paralisada. Sem sequer me olhar de novo, deu meia-volta e saiu andando na direo oposta.
Fiquei olhando por alguns instantes, enquanto ela caminhava a passos rpidos pelo corredor, afastando-se de mim, e quando comecei a me dirigir para a aula seguinte, 
percebi que me sentia muito bem.
Sem dvida alguma, Natalie estava me enviando sinais contraditrios. O que era muito melhor que nada. Definitivamente, as coisas estavam comeando a melhorar.

- Dean! Aqui! - Frank Sebree gritou.
Lancei a bola de basquete para Frank, e ento limpei o suor dos olhos. Corri pela quadra a tempo de ver Peter Jackson fazer uma cesta perfeita. O outro time tomou 
posse da bola e saiu jogando pelas laterais.
Depois da ltima aula, quase sempre rolava um joguinho de basquete no ginsio do centro comunitrio local. E naquele dia eu tinha sentido uma necessidade especial 
de queimar minha energia extra de alguma maneira vigorosa. Depois do que acontecera no corredor da escola com Natalie, eu tinha ficado bastante agitado.
Peter me passou a bola. Dei um drible e passei a bola para outro companheiro, por baixo das pernas do adversrio. Fizemos cesta de novo.
At a, tudo ia correndo do jeito que eu queria. Eu estava obtendo alguns progressos com Natalie. E at conseguira trabalhar um pouco na histria de John e Jayne. 
Mais alguns dias como aquele, e ns todos viveramos felizes para sempre. Em vez de vidente, talvez eu devesse me dedicar a ser agente de casamentos.
- Ei, pessoal - Peter sugeriu -, vamos fazer um intervalo. 
Fomos todos para a lateral da quadra. John me jogou uma toalha. Eu sempre suo feito um animal quando pratico qualquer tipo de esporte.
- E ento? - perguntei a John. - A Jayne contou alguma coisa a voc?
Eu j tinha me agentado o mximo que podia sem pression-lo para que me contasse os detalhes de sua conversa com Jayne.
- Ei, Romeu! - uma voz chamou alto, antes que John pudesse responder. - Que tal esse joguinho de basquete?
Olhei com o canto do olho e bufei silenciosamente. Eu no estava com o mnimo saco para aturar Garth Hunter. E no podia entender por que ele no me deixava em paz. 
Minha mente racional sabia que era mais vantajoso eu ficar na minha, mas comeava a me sentir farto de ser alvo das zombarias de Garth. Se no o detivesse, ele poderia 
continuar me enchendo para sempre.
- Por que voc no vem jogar e confere por si prprio? - rebati.
Garth franziu a testa.
- Por acaso voc pensa que pode dar conta de mim?
- Por acaso eu penso que no quero ter absolutamente nada a ver com voc, Garth - respondi. - Mas este  um pas livre. Se voc quer jogar, v em frente.
O rosto de Garth parecia de pedra enquanto ele tirava sua jaqueta e a jogava nas arquibancadas.
- Tudo bem, grande - ele disse. - Vamos ver do que voc  capaz.
Garth nem sequer perguntou se algum estava disposto a ficar no banco para deix-lo jogar. Simplesmente entrou na quadra e comeou a brincar com a bola. Pela ensima 
vez nos ltimos tempos, fiquei revoltado com a presuno de Garth de sempre achar que merecia ser o centro das atenes.
Voltamos para a quadra e retomamos o jogo. Peter pegou a bola e a lanou para mim. Parti com ela rumo  cesta. Garth se manteve na minha cola a cada passo do caminho. 
Eu estava quase a ponto de arremessar a bola quando ele a arrancou das minhas mos com um soco, lanou-a com rapidez para um companheiro de equipe e, ento, me tirou 
do caminho com uma cotovelada. Se estivssemos jogando com regras e juiz, ele teria cometido uma falta grave.
- Qual  o problema, grande? - ele gritou, enquanto eu o marcava ao longo da quadra. - Sua mente no est no jogo?
- Pelo menos eu tenho uma mente - rebati. 
Garth riu.
Seu time fez cesta, e eu peguei a bola. Lancei-a para Brian Thompson e corri para o centro da quadra.
- Ainda no conseguiu voltar com Natalie, no ? - Garth continuou.
Ele corria a meu lado, seu rosto a apenas poucos centmetros do meu. Decidi que no me dignaria a responder quele comentrio.
Peter me lanou a bola. Garth deu um bote adiante para tentar peg-la antes de mim. De repente, nossos ps se entrelaaram e Garth caiu no cho justo no momento 
em que eu conseguia agarrar a bola.
- Desculpe a - falei, estendendo-lhe minha mo para ajud-lo a se levantar.
O fato de Garth ter tropeado nos meus ps era culpa exclusivamente dele, mas para mim, apesar da m atitude dele desde o comeo ainda continuava a existir o chamado 
esprito esportivo. Garth afastou minha mo com um tapa.
- Deixe-me contar uma coisinha a voc, Smith - Garth disse, levantando-se sozinho. - Eu posso ter Natalie Taylor de volta na hora que quiser. Voc no tem a mnima 
chance.
- E quem disse que eu quero uma? - retruquei.
Pude sentir meu rosto comear a esquentar, mas no pretendia dar a Garth mais nenhuma munio alm da que ele j tinha.
- Voc  realmente pattico - Garth atacou. - No pense que consegue enganar ningum, cara. Voc tem seguido Natalie por a feito um cachorrinho com a lngua de 
fora. Seria detestvel se nao fosse to triste.
Senti meus nervos comearem a fugir do meu controle. - Voc  um babaca, Garth. E Natalie jamais voltaria com voc. Ela s terminou comigo porque tem medo de que 
eu a trate to mal quanto voc a tratou. Infelizmente, o meu signo  o mesmo que o seu.
O rosto de Garth ficou vermelho. Ele parecia furioso. - Isso  uma desculpa esfarrapada, e voc sabe muito bem. Essa historia de astrologia  s um pretexto. A verdade 
 que ela fez uma comparao entre ns dois. Voc no estava  altura e ento ela lhe deu o fora.
Meu estmago deu um n. Garth acabava de verbalizar o meu receio mais profundo. O receio que eu tinha lutado to duramente para afastar dos meus pensamentos.
- Voc  um miservel presunoso, Garth - gritei.
- A qualquer hora - ele repetiu com escrnio. - Posso t-la de volta a hora que quiser. Ela nem sequer se importaria se tivesse de me dividir com Tanya.
- J me enchi desse assunto - falei, saindo da quadra. - Vim aqui para jogar basquete, no para discutir suas fantasias.
- Ok, tudo bem - Garth disse atrs de mim. - V embora. Tudo o que eu disse  a pura verdade, e voc no  homem suficiente para encar-la.
- A sua definio de homem  um Neanderthal.
Agarrei minha jaqueta do banco. Sem olhar para trs, caminhei para a porta. Eu sabia que estava dando a vantagem a Garth ao desertar daquela maneira do nosso confronto. 
Mas j tinha agentado tudo o que podia agentar num s dia.
Escancarei as grandes portas de ao do ginsio e sa. L fora chovia. A tarde fria e chuvosa combinava perfeitamente com meu estado de esprito.
Enquanto cruzava o estacionamento, as palavras de Garth iam ecoando na minha cabea. Eu queria apagar o que ele dissera, mas no conseguia. Garth e Natalie haviam 
sido namorados. Isso era um fato. E nada que eu pudesse fazer alteraria o passado.
No queria acreditar que Natalie tinha rompido comigo porque secretamente preferia Garth Hunter. Natalie no era o tipo de garota que podia suportar por muito tempo 
o comportamento execrvel de Garth. Disse a mim mesmo que quem falara o tempo todo na quadra de basquete fora o ego de Garth. Sua afirmao de que Natalie voltaria 
para ele no tinha base em nada alm da sua inflada opinio sobre si prprio.
Mas, enquanto abria a porta do carro, meus pensamentos mergulharam num crculo vicioso. Ser que mesmo quando Natalie respondia aos meus beijos, l no fundo ela 
no estava me comparando com Garth?

***

A noite de sexta-feira foi um fiasco total. Sete dias antes, eu esperava ansiosamente pela hora de sair com Natalie. Agora, a nica coisa pela qual eu podia ansiar 
era assistir a "Arquivo X" na televiso.
Sentei-me na sala com John, minha me e meus irmozinhos. Aquilo estava longe de ser uma companhia romntica. E eu ainda me sentia to magoado pelo que acontecera 
com Garth na quadra de basquete que at tinha me esquecido de brigar com Roy e Randy pela parte das pipocas que me cabia por direito.
Mas eu no era o nico que parecia desgraado. John estava acabrunhado desde que chegara. Durante toda a noite tinha ficado sentado na frente da televiso com um 
olhar vidrado.
- Hora de ir para a cama - minha me finalmente anunciou aos gmeos.
- A gente no quer ir ainda, me! - Roy choramingou. 
Minha me lanou-lhes um de seus olhares terrveis.
- Sem discusses - ela disse.
Os gmeos pularam obedientes do sof e saram andando na direo da escada. Sabiam que no deviam mexer com mame quando aquela expresso aparecia nos olhos dela.
- Ei, John - falei, assim que ficamos sozinhos -, me desculpe por estar meio distrado hoje.
John observava fixamente o agente Mulder caando um extraterrestre num beco escuro.
- No se preocupe - ele disse. - Para falar a verdade, nem percebi.
A agente Scully apareceu, brandindo uma daquelas lanternas halgenas do FBI. Sempre fiquei impressionado com as enormes distncias que ela consegue correr com aqueles 
sapatos de salto alto.
- No fim, acabei ficando sem saber - comecei. - Como foram as coisas hoje com Jayne, afinal?
Ao ouvir o nome de Jayne, John gemeu.
- Foi meio difcil arrancar algo dela - ele respondeu. - Disse que Natalie no anda conversando muito sobre como se sente em relao ao rompimento com voc.
Isso seria bom ou ruim? Por um lado, eu estava contente por Natalie no ter sado por a contando para todo o mundo como se sentia depois de ter me dado um p na 
bunda. Mas por outro, eu gostaria que ela tivesse confessado  sua melhor amiga que se sentia infeliz sem mim.
- E voc acha que conseguiu causar alguma impresso em Jayne? - continuei.
John fez uma careta de desnimo e desviou o olhar da televiso.
- Causei uma impresso, sim. A impresso de ser um panaca total. Eu tinha uma oportunidade perfeita para convid-la para sair. Nada demais, talvez s um caf, ou 
algo do gnero. E tudo o que consegui fazer foi conversar sobre Natalie e voc.
De repente, me senti um pouco culpado. Eu andara to emaranhado com os meus prprios problemas amorosos que no me lembrei de pensar que talvez estivesse usando 
John s para atingir meus objetivos.
- Da prxima vez vai ser mais fcil - falei, tentando anim-lo. - Voc quebrou o gelo. Estabeleceu contato.
- Falando assim, voc faz a Jayne parecer um et -John resmungou.
- Bem, encare a realidade, John: ela  uma garota.
Sob circunstncias normais, John teria pelo menos dado um leve sorriso pela minha observao. Mas ele continuou a olhar para a tela da televiso com a mesma expresso 
melanclica.
- Se Garth e Natalie voltarem a ficar juntos, o que vai acontecer comigo e com Jayne? - ele perguntou.
Ento era isso! John estava to preocupado com Garth Hunter quanto eu.
- Isso no vai acontecer, John - respondi. - No h a menor chance.
- Mas se acontecesse - John insistiu -, eu nunca poderia convidar Jayne para sair. Quero dizer, seria como trair meu melhor amigo.
- John - falei com voz baixa e calma -, se voc quer convidar Jayne para sair, deve convidar, no importa com quem Natalie esteja. No existe nenhuma regra que diga 
que voc no pode sair com uma garota simplesmente porque detesta o namorado da melhor amiga dela.
- Eu nunca vou ter coragem de convidar a Jayne para sair - John disse. - Por isso, acho que essa questo toda de Natalie e Garth nem vem ao caso.
- Sai dessa, John. Voc no pode desistir agora. Ainda no fez nada.
- Voc fez, e veja s no que deu -John apontou com amargor. 
Eu nunca tinha visto meu amigo to deprimido. Era preocupante.
- Voc no pode pensar assim - insisti. - Se pensar, nunca vai sair com ningum.
- Na verdade - John admitiu -,  mais ou menos isso o que eu tinha em mente.

Por volta da uma da manh, eu me sentia exausto, mas no conseguia dormir. Fiquei deitado na cama, olhando para o teto. Desde que John fora embora, poucas horas 
antes, eu ficara pensando na situao dele. Preocupar-me com a inexistente vida amorosa do meu melhor amigo era melhor do que me preocupar com minha inexistente 
vida amorosa.
John evidentemente no seria capaz de convidar uma garota para sair sem um pouco de ajuda de um amigo. Naquela toada, ele ia terminar passando a vida num monastrio.
No posso deixar isso acontecer, pensei. Independentemente do que ocorrer entre mim e Natalie, tem de haver uma maneira de preservar os sentimentos que possam existir 
entre John e Jayne.
Eu precisava planejar um acontecimento que colocasse John e Jayne juntos. Algum evento especial. Queria que fosse o tipo de situao em que Jayne pudesse ver o quanto 
John era legal. E seria melhor se John fosse o centro das atenes. Mas como?
De repente, ri alto.
A ocasio perfeita estava chegando, e eu estaria pronto para ela. Ia preparar uma festa de aniversrio surpresa para John.

- Voc j escolheu o tema para sua festa? - a vendedora da loja me perguntou.
Era sbado de manh, e assim que recebi o sinal verde de minha me, sa de casa com a misso de organizar a festa para John. No havia motivo para perder tempo. 
Olhei para o crach da vendedora. Seu nome era Julie, e felizmente ela parecia ser bastante simptica.
Organizar festas no  exatamente algo em que eu tenha l muita experincia. Eu tinha a sensao de que iria precisar de toda a ajuda que pudesse conseguir. Trs 
de maro no estava to longe assim. E, segundo Julie, eu tinha muitas coisas a considerar.
O fato de que eu talvez tivesse de escolher um "tema" para uma simples festa de aniversrio jamais me ocorrera. Imaginei que iria comprar alguns bales, pratos de 
papel, velas...
- Precisa ter um tema? - perguntei. 
Julie riu.
- Claro que no. Mas muitos de nossos clientes preferem assim. O tema torna mais fcil coordenar as compras.
- Eu nunca fui muito coordenado - confessei, fazendo-a rir de novo. - Tudo bem se eu simplesmente der uma olhada pela loja?
- Claro. Se eu puder ajudar em alguma coisa,  s me chamar.
- Obrigado, chamo sim.
Comecei a dar um giro pelo local. A primeira coisa que vi foi um display de convites com textos espirituosos e picantes. A loja parecia enorme. Eu no tinha idia 
de que pudesse haver tantos temas possveis para uma festa. Havia uma seo inteira dedicada a toalhas de mesa pretas, talheres pretos e decoraes de bolo pretas. 
Os guardanapos pretos tinham um poema inscrito neles, que dizia o quanto todos se sentiam tristes pelo fato de o anfitrio estar fazendo quarenta anos. E as pessoas 
ainda dizem que os adolescentes tem um senso de humor incompreensvel!
Virei  direita e tentei outra seo. Serpentinas e flmulas de papel crepom estavam absolutamente fora de moda, decidi. Odeio soar machista, mas para mim as serpentinas 
e flmulas pareciam mais apropriadas para uma garota. Mas achei que bales cairiam bem, desde que no tivessem nenhuma bobagem pretensamente bonitinha inscrita neles.
Parei sob uma penca de piatas pendurada no teto; para quem no sabe, piatas so aqueles potes de barro cheios de doces ou prendas, usados naquela brincadeira mexicana 
em que uma pessoa vendada tem de quebrar o pote para ganhar as prendas. Achei que parecia uma boa possibilidade. Seria uma brincadeira da qual todos os convidados 
poderiam participar juntos, uma espcie de experincia socializadora que poderia dar mais vida  festa.
Ento imaginei a expresso no rosto da minha me, quando visse um bando de adolescentes brandindo grandes porretes de madeira pela casa. Isso sem falar no que aconteceria 
depois da festa, quando Roy e Randy fizessem a sua prpria sesso de quebra-piatas.
No, a piata estava definitivamente fora de questo. Continuei andando e deparei com um display de pratos do Pato Donald. Dei uma risada. Donald no era exatamente 
o smbolo de uma festa descolada.
A campainha da porta da frente da loja soou, sinalizando que outro cliente acabava de entrar. Talvez eu pudesse seguir essa outra pessoa. Espionar as escolhas de 
outra pessoa poderia me dar algumas dicas. Claro que, com a minha sorte, provavelmente o novo cliente estaria organizando uma festa de setenta e cinco anos para 
sua av.
Virei rpido para a esquerda, dirigindo-me para um display com um tema de faroeste. Eu nem sequer tinha visto ainda o novo cliente que entrara naquela seo exatamente 
ao mesmo tempo que eu. E estava andando to rpido que trombei direto com ela.
- Sinto muito, muito mesmo - falei. - A culpa  toda minha. No olhei para onde ia.
A pessoa que eu quase esmagara estendeu o brao para apanhar uma palmeira de papelo, a outra vtima da trombada.
- No tem problema - ela disse, endireitando-se e afastando o cabelo do rosto.
Meu corao parou. Era Natalie.
Estava linda como sempre. Vestia uma camisa cor de chocolate exatamente da cor de seus olhos. Os cabelos sedosos e castanhos cascateavam por sobre os ombros. Desde 
o nosso rompimento, eu nunca estivera fisicamente to perto dela.
E se no controlasse logo a minha sobrecarga hormonal de adolescente, iria acabar fazendo algo terrivelmente embaraoso, bem ali no meio da loja.
- O-oi - eu disse. - Olhe, Natalie, eu realmente sinto muito. 
O rosto de Natalie se iluminou por um breve instante.
- Srio, no tem problema, Dean.
Um silncio constrangedor caiu entre ns. Senti que Natalie queria falar, mas estava se reprimindo.
- Tudo bem por a? - Julie cantarolou do balco.
- Tudo bem, obrigado - respondi.
A voz de Julie pareceu quebrar a estranha conexo que estava fazendo com que Natalie e eu ficssemos olhando um nos olhos do outro. Natalie deu um passo para o lado, 
para me dar passagem.
- E ento - eu disse, determinado a no perd-la assim to rpido -, o que traz voc por aqui?
Natalie se concentrou numa estante cheia de saias havaianas.
- Estou preparando uma festa de aniversrio para Jayne.
- Voc est brincando! - falei. - Mas  por isso mesmo que eu estou aqui!
Natalie me olhou, um sorriso querendo aparecer nos cantos da boca.
- Voc veio aqui porque est planejando uma festa para Jayne?
- Para John - corrigi. - Uma festa surpresa. De aniversrio. Minha mente comeou a girar rpido, analisando as possibilidades. Isto  uma oportunidade perfeita, 
Dean. No a estrague.
- Tive uma idia - falei, tentando soar o mais natural possvel. - Ns podamos... sei l, unir nossas foras. Eles no fazem aniversrio no mesmo dia?
- Fazem - ela respondeu, parecendo meio reticente. - Mas... no sei, Dean...
Decidi ser totalmente honesto.
- Olhe, Natalie, eu sei que as coisas ainda esto meio estranhas entre ns... Eu no quero pressionar voc...
Natalie corou, mas me olhou nos olhos com calma. 
- Parte da razo pela qual estou organizando esta festa  Jayne - continuei. - John realmente gosta dela, e achei que uma festa seria uma boa maneira de fazer os 
dois se encontrarem. Mas se cada um de ns preparar uma festa separada, Jayne nem sequer vai estar na minha festa. E isso arruinaria meus planos.
- E os meus tambm - Natalie admitiu. - Eu estava preparando a minha festa pelo mesmo motivo que voc.
De novo, fez-se um longo silncio. Natalie continuava sria. Eu quase podia escut-la, pesando em sua mente os prs e os contras da minha proposta.
Uma festa conjunta para John e Jayne obteria mais resultados do que cada um de ns fazendo uma festa separada. Mas tambm significaria que Natalie e eu teramos 
de passar bastante tempo juntos. Isso era perfeito para os meus propsitos, mas eu no sabia muito bem como ela encarava a idia.
Percebi que precisaria seguir  risca aquela disposio que demonstrara a Natalie de no pression-la. Ao primeiro sinal de qualquer movimento suspeito, ela fugiria 
para se proteger.
- A festa poderia ser na sua casa - sugeri, achando que talvez ela se sentisse mais  vontade em seu prprio territrio. - Mas claro que dividiramos todos os gastos: 
enfeites, comida e tudo o mais que for necessrio.
Pude sentir a balana comeando a se inclinar a meu favor.
- ... Acho que poderia ser - Natalie comeou a concordar. - Eu precisaria confirmar com minha me.
- Claro - eu disse, tentando esconder minha euforia. - Posso pedir  minha me para ligar para a sua, se voc quiser.
- Isso seria legal - Natalie disse. - Tenho certeza de que ela ia gostar. Voc sabe, eu no cheguei a conhecer a sua me...
- , acho que no.
Ns no chegamos to longe, pensei. Mas guardei essa observao para mim mesmo.
- Vai ser superlegal, Natalie - falei. - A oportunidade perfeita para Jayne e John expandirem suas respectivas vidas afetivas.
-  incrvel que no fim tenhamos descoberto que os dois j se gostavam, no ? - ela perguntou.
Concordei com um gesto de cabea.
- E ainda mais incrvel que no consigam fazer nada a respeito sozinhos - acrescentei.
Fiz uma pausa.
- Bom, e quanto  festa? - continuei. - Qual voc acha que deveria ser o tema?
- Tema? - Natalie perguntou, parecendo confusa. - A gente precisa de um tema?
Eu sorri com malcia.
- De acordo com Julie, a moa da loja, precisamos. Natalie pensou por um momento.
- O que John acharia de cabra-cega?

9 

Natalie

Escorpio (23 de outubro - 21 de novembro)
A posio da lua sugere perturbaes. Agora  o momento de dar um passo atrs, de fazer uma autoavaliao da alma. Algum prximo a voc lhe sugerir que tente uma 
nova abordagem da situao. Status  mesmo o que voc quer?

- Natalie, se voc quebrar outro ovo, vai ter de sair para comprar mais.
A voz de minha me parecia paciente, mas eu podia sentir que ela estava comeando a ficar frustrada comigo. Estvamos as duas na cozinha, reunindo os ingredientes 
para uma grande sesso de confeco de biscoitos para a festa de aniversrio de Jayne e John, naquela noite. Costumo ser bastante boa na cozinha, mas derrubara coisas 
pelo cho a tarde toda.
Quebrei o ltimo ovo na borda da bancada. Eu tinha aprendido nas aulas de sade da escola que nunca se deve quebrar um ovo na borda do recipiente que se est usando, 
por causa do risco de envenenamento por salmonela.
Manobrei rapidamente o ovo partido at a tigela da batedeira. O contedo deslizou para o centro da massa dos biscoitos. Ento, fui jogar a casca no lixo, mas infelizmente 
errei a pontaria, e os pedaos foram todos para o cho.
- Tudo bem, tudo bem, chega - minha me disse, abaixando-se para recolher as cascas do cho. - Misture bem esse ltimo ovo e ponha a massa na geladeira. Depois, 
venha se sentar comigo aqui na mesa, para conversarmos um pouco sobre o que est acontecendo com voc.

- No  nada, verdade - protestei cinco minutos mais tarde.
Eu estava sentada  mesa da cozinha, de frente para minha me. J ao pronunciar aquelas palavras, eu sabia que ela no iria me deixar escapar pela tangente s porque 
eu dizia no haver nada de errado. Minha me tem um jeito s dela de me fazer entregar o jogo. Nunca sei muito bem como ela faz isso, mas antes que eu perceba o 
que est acontecendo, j estou contando tudo a ela.
- S estou um pouco nervosa por causa dessa festa, isso  tudo - continuei.
- H-h - ela disse, no parecendo nem um pouco convencida.
Ela se levantou, foi at a geladeira e pegou dois refrigerantes. Colocou um na minha frente, voltou  sua cadeira e abriu o outro.
- Pensei que essa festa fosse idia sua - ela disse, depois de se acomodar. - Por que, ento, voc deveria ficar nervosa por causa da festa?
- Uma festa s para Jayne foi idia minha - respondi. - Uma festa conjunta para ela e John foi idia de Dean.
- Ah, Dean... - mame murmurou, e tomou um gole do refrigerante.
Ai ai, l vem, pensei.
- Ele vai vir ajud-la a assar esses biscoitos, no ? - ela perguntou.
A idia de Dean e eu assarmos biscoitos juntos andara perturbando meu equilbrio o dia todo. Parecia uma coisa de casal com vrios anos de casamento. Ou o tipo de 
coisa que uma garota faria com um namorado antigo e estvel, no com o cara com quem tivera de terminar aps dois dias de namoro.
- , ele deve chegar daqui a mais ou menos meia hora - respondi, ainda no muito segura de quanto eu queria confidenciar  minha me. - Portanto, no acho que a 
gente tenha muito tempo para uma sesso de terapia intensiva, me.
Minha me me olhou, a cabea inclinada para um lado. Era seu olhar do tipo "estou avaliando a situao".
- Ento quer dizer que o fato de voc ter deixado as coisas carem a tarde toda no tem nada a ver com seu relacionamento com o Dean?
- Ns no temos um relacionamento - respondi, abrindo meu refrigerante. - Ns terminamos, se  que voc j se esqueceu.
- Isso no significa necessariamente que vocs no tenham mais um relacionamento - minha me insistiu. - Natalie, no pretendo criar caso em cima disso, se voc 
realmente no quiser me contar o que est acontecendo.
Ela fez uma pausa. Pude sentir que estava a ponto de dizer algo inspirado e maternal.
- Eu s gostaria de observar que no  caracterstica sua ter medo de encarar alguma coisa de frente.
O que h com as mes, afinal? Ser que, depois que uma mulher d  luz, ela ativa automaticamente algum gene que a torna capaz de adivinhar tudo o que acontece na 
vida e na cabea dos filhos? Mame tinha razo, claro. Eu no estava realmente encarando as coisas de frente - sobretudo meus sentimentos em relao a Dean.
Tnhamos nos encontrado umas duas vezes nos ltimos dias, para combinar os detalhes da festa, e Dean fora muito legal todas as vezes. Ele no tinha dito ou feito 
nada que pudesse me causar algum mal-estar pelo fato de termos terminado. E em nenhum momento me pressionara para que eu voltasse com ele.
Seu comportamento fora exatamente como eu parecia querer que fosse. No entanto, essa sua conduta to polida e tranqila me deixara ansiosa e deprimida. Era impossvel 
que Dean tivesse tido algum dia sentimentos to fortes por mim quanto os que eu tivera por ele. Se tivesse tido, no teria desistido to fcil assim.
Eu no podia conversar sobre aquilo tudo com Jayne, porque teria sido obrigada a lhe revelar a razo pela qual Dean e eu andvamos nos vendo ultimamente. A nica 
pessoa a quem eu realmente podia confidenciar alguma coisa era minha me. Talvez seja assim que ela consegue fazer com que eu lhe conte tudo. Ser minha me lhe d 
as melhores condies para estar no lugar certo na hora certa.
- Acho que, na verdade, estou meio confusa em relao ao que tem acontecido com Dean e comigo - me abri, por fim. - Pensei que ele gostasse mesmo de mim, mas nos 
ltimos tempos no  o que parece, de jeito nenhum.
- Mas espere a. No foi voc quem quis terminar o namoro? - minha me inquiriu.
- Bom... foi - respondi. - Mas nunca por no gostar dele, me. Terminei o namoro porque Dean  de Gmeos, s por isso. Ns dois formamos uma pssima combinao astrolgica. 
Eu aprendi isso na base da paulada... com Garth.
Minha me ficou em silncio por um momento. Tomei um gole de meu refrigerante, engasgando um pouquinho quando o gs fervilhou na minha garganta.
- Natalie, voc sabe que eu nunca interferi no seu interesse pela astrologia - minha me comeou. - Mas preciso dizer que sua obsesso com os astros me preocupa 
de vez em quando. Voc leva tudo to ao p da letra, filhinha...
Olhei para o tampo da mesa. Ela parecia genuinamente preocupada comigo.
- Voc no acha que a astrologia funciona melhor quando a gente a usa s como um guia geral? - ela perguntou.
Pensei na pergunta de minha me, enquanto tomava um segundo gole do refrigerante. Eu mesma andara tendo pensamentos parecidos. Simplesmente no conseguia entender 
como estar com Dean podia parecer to certo e fazer com que me sentisse to bem, sendo ele do signo errado para mim. Parecia quase possvel que, no fim das contas, 
os signos no tivessem tanta importncia. Mas, se eu voltasse atrs agora, iria parecer uma completa idiota aos olhos de todos.
- Usar como um guia? - perguntei. - No estou entendendo muito bem o que voc quer dizer. Ou voc acredita numa coisa ou no acredita. No  assim?
- No estou dizendo que voc tenha de parar de acreditar na astrologia - minha me respondeu. - Mas, pela minha experincia, nada na vida funciona da maneira como 
voc acredita que os signos funcionam. O mundo no  s preto e branco. Existem os cinza.
Concordei com um gesto de cabea. O que ela dizia fazia bastante sentido. Como de hbito.
- Alguma vez Dean fez algo que levasse voc a acreditar que ele a trataria como Garth a tratou?
- No - admiti. - Eu s estava to certa de que, mais cedo ou mais tarde, Dean se revelaria um estpido porque ele  de Gmeos.
- Ento quer dizer que, se Dean no fosse de Gmeos vocs dois ainda estariam juntos?
- Pode ser - respondi.
- Experimente responder com sim ou no - minha me insistiu.
Me contorci na cadeira como uma criana de jardim-de-infncia a quem tivessem acabado de apanhar roubando o lanche da melhor amiga na hora do recreio.
- Ok, tudo bem. Provavelmente sim. Mas Dean no parece muito perturbado com o fato de no estarmos juntos - respondi.
Respirei fundo.
- Faz vrios dias que estamos organizando esta festa - continuei -, e ele no mencionou o nosso rompimento nenhuma vez.
Minha me balanou a cabea com ar de desaprovao.
- Acho que voc est querendo duas coisas opostas ao mesmo tempo, Natalie. Quer romper com Dean, mas quer mant-lo amarrado a voc. E quer que Dean fique mal com 
o rompimento, mas no tem nenhuma inteno de voltar com ele.
Era uma bela argumentao. S havia um problema em tudo o que minha mame dissera: ela estava absolutamente certa.
- E o que devo fazer? - perguntei.
- Eu no sei se h algo que voc possa fazer, a no ser que se sinta disposta a repensar toda essa coisa da astrologia - ela respondeu. - Pessoalmente, acho que 
voc deveria confiar mais nos seus prprios instintos. Voc nunca vai aprender a viver uma relao, se sempre se basear na astrologia e no no que realmente estiver 
sentindo.
Nesse instante a campainha tocou.
- Ai, meu Deus! - exclamei. - J so cinco horas.  o Dean.
- Vou deixar vocs sozinhos - minha me prometeu.
Ela se levantou e deu um rpido aperto carinhoso nos meus ombros.
- Confie no seu corao, filhinha. Ele geralmente est no lugar certo, mesmo quando as estrelas no esto.
- Ha, ha, muito engraado - resmunguei.

- Esses biscoitos so para a festa, sabe? - ralei poucas horas mais tarde.
Dean e eu estvamos na cozinha, rodeados de assadeiras cheias de biscoitos. Primeiro, tnhamos feito biscoitos de amendoim. Depois passamos para os de aveia com 
passas, e tnhamos acabado de fazer vrias dzias dos de flocos de chocolate.
Dean e eu havamos conseguido reunir uma quantidade impressionante de guloseimas. Mas toda vez que eu passava perto das assadeiras de biscoitos de flocos de chocolate 
que esfriavam, parecia estar faltando mais um.
- Eu nao peguei nenhum - Dean insistiu. -No sei do que voc est falando.
Era difcil no rir cada vez que eu olhava para ele. Na esperana de ter meus hosrmnios sob controle, se Dean no parecesse to bonito como era, eu o fizera vestir 
o avental da cozinha mais enfeitado com rufos e babados que encontrara. At aquele momento, o avental parecia ter sido uma boa idia. Eu conseguira me concentrar 
em assar os biscoitos, sem me deixar distrair demais pelo desejo de beijar Dean.
Mas ainda me sentia muito confusa. Meus sentimentos por Dean - tanto os bons quanto os ruins -se imiscuam em todos os meus pensamentos. Eu podia perceb-los sempre 
l no fundo, mais ou menos como o chiado da esttica no rdio.
Voltei-me para a pia, para lavar uma tigela. Talvez minha me tivesse razo. Talvez eu devesse usar a astrologia apenas como um guia geral. Poderia, por exemplo, 
aceitar que no geral os geminianos eram uma m combinao para mim, mas talvez eu fosse capaz de fazer das certo uma relao amorosa com um geminiano muito especial.
Dean, que estava de p perto da mesa sobre a qual os biscoitos esfriavam, voltou-se na minha direo. Uma paisagem de xadrez azul e branco repleta de babados e pregas 
encheu meus olhos. Minha me sempre se referia ao avental que Dean estava vestindo como sua fantasia de dona de casa nmero um. Havia uma gota de chocolate grudada 
num dos cantos da boca dele.
Eu me forcei a parar de sonhar acordada e a me concentrar na conversa que Dean e eu estvamos tendo.
- Ah, quer dizer que voc no comeu nenhum biscoito? - perguntei. - Ento como  que esse chocolate foi parar no seu rosto?
- No comi, juro - Dean protestou, tentando eliminar a prova do crime passando a mo na cara. - Cad o chocolate no meu rosto?
Peguei uma toalha de papel e caminhei at ele.
- Bem aqui - respondi, esticando o brao com a toalha na direo de seu rosto.
- Ei, espere a um minuto - Dean disse rindo.
Ele ergueu rapidamente um brao para bloquear minha mo. Tentei sem xito atravessar a guarda dele.
Depois de vrios segundos de luta pela posse da toalha de papel, Dean me empurrou gentilmente contra a bancada da pia. Com as mos, travou meus braos atrs das 
costas, prendendo-os pelos pulsos.
- Se voc acha que vou deixar voc me atacar com essa toalha de papel encharcada, sem mais nem menos, pode tirar o cavalinho da chuva - ele disse. - S me mostre 
onde est o chocolate.
Ele me deixou soltar uma mo, a que no estava segurando a toalha de papel. Coloquei a ponta do meu dedo indicador no canto de sua boca.
- Bem aqui, Dean - falei suavemente.
No instante em que o toquei, soube que tinha cometido um erro. Seus olhos quase abriram um buraco em mim. O rapaz amigvel e boa-praa que ele tinha sido nos ltimos 
dias desapareceu de repente.
Os lbios de Dean comearam a se mover devagar na minha direo. Eu sabia que devia me afastar, mas estava paralisada. Um segundo depois, estvamos nos beijando.
O beijo de Dean foi ardente e possessivo - o tipo de beijo que afirma e reivindica. E esse beijo me contou em termos clarssimos como ele realmente se sentia quanto 
ao nosso rompimento. Soube ento que, para ele, era como se a horrvel cena na cantina da escola nunca tivesse acontecido. Dean ainda estava apaixonado por mim.
Eu sabia que no devia retribuir aquele beijo - no enquanto no tivesse decidido o que queria de fato. Mas parecia impossvel reprimir o desejo. Minha me tinha 
me recomendado que eu ouvisse meus instintos... e naquele exato instante meus instintos gritavam que eu queria beijar Dean.
Seus braos estavam em torno dos meus. Ele j no me prendia contra a pia, mas, em vez disso, me apertava contra seu corpo. Coloquei minha mo livre em sua nuca.
A pele estava quente, e seus cabelos, macios e sedosos. Era to bom toc-lo, parecia tudo to perfeito, to certo para mim... Me vi desejando que pudssemos ficar 
daquele jeito para sempre. No queria que o beijo terminasse.
Finalmente, Dean se afastou. Eu estava sem flego, e meu corao batia como um tambor. Ele me abraou com fora. Apertei meu rosto contra seu peito. Depois de arrancar 
o elstico que prendia meu rabo-de-cavalo, Dean ps-se a pentear meus cabelos com seus dedos, fazendo-os deslizar sobre meus ombros.
- Esperei semanas para poder fazer isto - ele disse baixinho.
- O qu? - consegui perguntar, no sei como. - Me beijar ou mexer no meu cabelo?
- As duas coisas.
E me beijou de novo. Dessa vez, com mais suavidade, mas no menos deciso. No fundo do meu corao, eu sabia que pertencia a Dean. E ele a mim. Pertencamos um ao 
outro. Apesar da astrologia.
- Natalie, ns no podemos ignorar o que est acontecendo - Dean disse quando o beijo terminou. - Precisamos conversar sobre isto.
- Eu sei - sussurrei. - Eu sei que precisamos, Dean.  s que...
Senti os msculos de seu corpo se retesarem quando ele percebeu minha relutncia em ter uma "conversa".
- No daria para a gente esperar at depois da festa? - continuei. - Se parecer que estamos juntos de novo, toda a ateno vai se centrar em ns. E esta noite  
para ser de Jayne e John.
- Sei que voc tem razo - ele disse baixinho. - Mas mesmo concordando, gostaria de deixar registrado que no gosto muito da idia.
O timer do forno apitou, avisando que ficara pronta a ltima fornada de biscoitos de flocos de chocolate. Dean deu um passo atrs e me soltou.
- Deixe que eu tiro - ele disse.
Retirando a assadeira do forno, ele a colocou em cima do tampo do fogo.
Esperamos um pouco, at os biscoitos esfriarem. Ento comecei a tir-los da assadeira com uma esptula.
- Voc parece muito boa na cozinha - Dean comentou. - Uma verso mais jovem daquelas apresentadoras de programas de culinria...
- E voc, com este aventalzinho, no fica atrs! - retruquei.
Camos os dois na gargalhada, enquanto eu removia o ltimo biscoito da assadeira. Desliguei o forno e, ento, desamarrei o cordo do avental de Dean.
Assim que se viu livre dos rufos e babados, ele me puxou de novo para junto de seus braos. Beijou-me devagar, um beijo de promessa. Ele podia ter concordado em 
protelarmos um pouco a discusso sobre os detalhes da nossa relao, mas definitivamente no haveria mais volta atrs.
- Bom... ento acho que nos vemos mais tarde, no ? - ele perguntou.
- H-h - confirmei. - A no ser que voc esteja planejando dar o cano na nossa festa.
- Eu jamais perderia essa festa - Dean replicou com um sorriso malicioso. - Por nada neste mundo.
Em seguida, deu-me outro beijo rpido na bochecha e perguntou:
- Voc quer que eu chegue um pouco antes para ajudar a arrumar as coisas?
- Minha me vai me ajudar - respondi, tentando voltar a um clima mais pragmtico. - Sua tarefa mais importante agora  conseguir arrastar John at aqui.
- Ele vai vir, no se preocupe - Dean prometeu, me soltando. - Nem que eu tenha de amarr-lo e enfi-lo numa caixa.
- No se esquea de fazer um belo embrulho - falei, enquanto caminhvamos rumo  porta da frente. - Com um grande lao de fita no topo.
- Pena que no pensamos nisso antes - disse ele, enquanto eu abria a porta. - A gente podia fazer ele saltar de dentro de um bolo.
- No daria certo. Imagine s se aqueles cabelos dele ficassem lambuzados de glac.
- O que h de errado com os cabelos de John? - Dean perguntou com uma expresso zombeteira nos olhos.
- Tchau, Dean - respondi sorrindo e dando um empurrozinho nele.
- Au revoir, Natalie - Dean replicou, enquanto atravessava o caminho de cimento do jardim da minha casa.
- No sabia que voc falava francs - gritei.
Foi s quando fechei a porta que me dei conta de que, na verdade, ele no dissera "tchau", mas "at logo".
Sorri. Se as coisas corressem bem, Dean e eu com certeza logo estaramos nos vendo de novo. E de novo, e de novo...

- gua de colnia  sempre um presente agradvel - a vendedora da loja de departamentos sugeriu.
- No - eu disse. - Acho que no faz o gnero dele.
Eu tinha resolvido dar um pulo de ltima hora no shopping. Os preparativos para a festa j se haviam encerrado com sucesso. E eu me sentia excitada demais, por causa 
do que acontecera com Dean, para simplesmente me sentar e ficar sem fazer nada em casa.
Ainda teria tempo de sobra para tomar banho e ficar o mais bonita que pudesse. Por isso tinha decidido usar o tempo excedente para procurar um presente para Dean.
J tinha planejado lhe dar algo como agradecimento por ele ter se disposto a ser co-anfitrio na festa e pela fora toda que tinha me dado na preparao. Mas agora, 
depois do que acontecera  tarde na minha casa, queria encontrar algo especial, alguma coisa que refletisse o fato de que estvamos juntos de novo.
Eu ainda me sentia bastante nervosa com toda a situao. Havia muitos detalhes a acertar. Mas aquele primeiro beijo na cozinha tinha definido algo entre ns dois. 
Eu seria uma idiota se fingisse que no.
Para o bem ou para o mal, iria comear a ver Dean de novo.
Infelizmente, no estava tendo muita sorte na busca por um bom presente. Tudo o que via me parecia genrico demais, inspido demais, banal ou piegas demais. No 
podia dar a ele um simples livro ou uma reles colnia masculina. Precisava de algo engenhoso, sugestivo. Algo que simplesmente dissesse "Dean".
- Em todo caso, obrigada - agradeci  moa atrs do balco da seo de perfumaria masculina. - Acho que vou ter de continuar procurando.
Sa de novo para o corredor do shopping, para dar uma olhada nas lojas menores. Se eu no encontrasse nada, talvez eu pudesse dar a Dean algo meio boboca e romntico, 
como por exemplo um cravo de lapela, parecido com o que lhe dera no baile do Dia dos Namorados. Poderia funcionar como uma espcie de smbolo do nosso recomeo.
Decidi que uma xcara de caf me cairia bem. Precisava refletir sobre aquela ltima idia. J ia a caminho do caf mais prximo, torcendo para que a cafena me trouxesse 
alguma inspirao, quando uma mo pousou sobre meu ombro direito.
- Ei, aonde voc vai com toda essa pressa? - perguntou uma voz masculina bastante familiar.
Meu estmago virou do avesso. Quando me virei, dei de cara com Garth Hunter.
Garth estava com a pinta de sempre: de modelo de moda masculina. Seu rosto era to perfeito e a roupa to cuidadosamente combinada que ele quase no parecia real. 
Eu no podia imaginar Garth passando horas na minha cozinha, assando biscoitos vestido com o avental da minha me. E absolutamente no podia me imaginar querendo 
beij-lo quando tivssemos terminado de assar os biscoitos.
Resisti bravamente  tentao de lhe dizer que retirasse a pata do meu ombro. Em vez disso, apenas dei um passo para trs. A mo de Garth caiu ao lado de seu corpo.
- Oi, Garth - cumprimentei friamente. - Voc quer alguma coisa?
- Ei - Garth disse de novo, sorrindo -, isso no  maneira de cumprimentar um velho amor. Estou s sendo simptico, Natalie. Como anda voc? Faz tempo que no a 
vejo.
- Voc me v na escola cinco dias por semana - respondi com um sorriso duro. - Eu estou bem. Algo mais?
Por uma frao de segundo, seus olhos focalizaram algum ponto s minhas costas. Ento, seu olhar apontou direto para o centro do meu rosto.
- Para falar a verdade, sim, h algo mais - ele disse.
Garth comeou a acariciar meu brao esquerdo, passando a
mo para cima e para baixo num gesto irritantemente ntimo.
Dei outro passo para trs, na esperana de que ele entendesse a indireta. Mas, em vez disso, ele se aproximou ainda mais.
- A verdade  que eu... tenho sentido saudades de voc, Natalie.
Comecei a me perguntar se no estava tendo uma alucinao. Talvez o shopping possusse algum poderoso sistema de segurana por ultra-som que estivesse alterando 
minhas ondas cerebrais.
- Voc tem sentido minha falta? - perguntei num tom de total descrdito. - Isso s pode ser uma piada.
- Ora, vamos l, Natalie - Garth disse com uma voz clida e aduladora. - No seja assim. Voc sabe que, na verdade, eu nunca quis que terminssemos. S desmanchei 
nosso namoro por causa da Tanya.
- Isso ficou bastante bvio - retruquei secamente.
- Mas ela vai sair da cidade nas frias de primavera - Garth continuou. - Vai ficar fora uma semana inteira. E achei que talvez voc e eu pudssemos aproveitar esse 
tempo para reavaliar nossa relao... Voc sempre me entendeu to bem...
Pode apostar que sim, pensei. Eu entendo voc perfeitamente. Dei a Garth um enorme sorriso. Ele retribuiu, acreditando que tinha triunfado. Ento, dei um rpido 
passo  frente e passei meus braos em torno do seu pescoo.
- Tive uma idia ainda melhor, Garth - sussurrei em seu ouvido. - Enquanto Tanya estiver viajando, pegue a sua brilhante idia e faa com ela uma longa caminhada 
pelo litoral at o Alasca.
Afastei-me dele com um sorriso:
- E fique por l para sempre, Garth.

10

Dean

Gmeos (21 de maio - 20 de junho)
Grande desastre pairando no horizonte - justo quando parecia que tudo estava indo bem. No tire concluses precipitadas. D a seus entes queridos o benefcio da 
dvida. Procure sadas.

Eu me senti como se tivesse levado um chute na boca do estmago. Tinha acabado de sair da Fleur du Jour, uma floricultura no shopping, depois de ter gasto uma pequena 
fortuna com uma dzia de grandes rosas vermelhas, e a primeira coisa que vi foi Natalie se jogando nos braos de Garth Hunter.
O cheiro das rosas pareceu subir de repente e me sufocar. Eu as estava segurando com tanta fora que podia sentir os espinhos me espetando as mos atravs do grosso 
papel plastificado.
Menos de duas horas antes, Natalie e eu estvamos nos abraando e beijando na cozinha da casa dela. Eu teria jurado que ela estava se entregando de corpo e alma 
queles beijos. Mas agora, ali estava a prova de quem era o verdadeiro dono do corao de Natalie.
Era Garth Hunter, no eu.
Dei meia-volta e sa andando na direo oposta. Talvez desse as rosas a minha me. Ou poderia lev-las  festa e dizer que eram um presente de John para Jayne.
Sentia-me mal s de pensar em ir  festa na casa de Natalie. Mas sabia que precisava levar aquela farsa at o fim. Devia isso a John.
Quando alcancei a sada do shopping, trombei com as portas de vidro com tanta fora que meu brao ficou dolorido. Sa para o estacionamento e caminhei a passos rpidos 
para o carro.
Tentei imaginar como me sentiria quando visse Natalie de novo. Ela provavelmente sorriria para mim, jamais suspeitando que eu pudesse saber o que estava acontecendo.
Ba lancei a cabea com profunda tristeza. Nunca, nem nos meus mais terrveis pesadelos, eu teria imaginado que Natalie pudesse ser to falsa.
Eu me enganara completamente quanto ao tipo de garota que ela era. Me enganara desde o comeo.
Joguei as rosas numa lixeira prxima e destranquei a porta do carro. Liguei o motor e parti do estacionamento o mais rpido que pude.
Enquanto dirigia pelas ruas de Seattle, percebi que j tinha parado de temer a festa daquela noite. Pelo contrrio: agora eu ansiava por ela. Queria ver a expresso 
no rosto de Natalie, quando eu lhe contasse que tinha testemunhado o encontro amoroso entre ela e Garth Hunter.
Depois que lhe contasse essa novidade, deixaria cair outra bomba: diria a Natalie que nunca mais iria querer v-la na minha frente.

- No posso acreditar que vocs fizeram isto - John exclamou vrias horas mais tarde.
Estvamos de p num dos cantos da sala da casa de Natalie, tomando refrigerantes. Jayne estava perto do som, colocando um novo cd. Vestia um vestido azul que combinava 
com seus olhos, e suas bochechas tinham um brilho rosado. A todo momento, olhava para John, lanando-lhe sorrisos tmidos.
At aquele momento a festa estava sendo um sucesso. Fora Natalie e eu, todo mundo parecia se divertir bastante, e John e Jayne mal tinham se separado a noite toda.
E eu tinha de admitir que havia sido brilhante a idia de Natalie de animar a festa com brincadeiras de criana. Tnhamos nos dividido em dois times, homens contra 
mulheres. John liderava os homens e Jayne, as mulheres. Elas haviam se sado melhor na cabra-cega, mas ns ganhramos no pega-pega.
- E ento - perguntei a John, enquanto comeava a tocar um disco dos Rolling Stones -, como vo as coisas entre voc e Jayne?
- Definitivamente, com muito bom aspecto - ele respondeu.
E sorriu quando viu Jayne vindo em nossa direo.
- Foi voc que armou tudo isto, no foi? -John perguntou.
- S dei uma forcinha - admiti.
- Ah, sei - disse ele, dando uma olhada na direo da sala de jantar, onde Natalie reabastecia uma travessa vazia de batatas fritas.
- As coisas, h... parecem um pouco tensas entre voc e Natalie - ele comentou.
Dizer que as coisas pareciam tensas entre mim e Natalie era o eufemismo do ano.
Quando o grande momento chegou, eu na verdade no entrei feito um louco na casa de Natalie, acusando-a aos gritos de ter me enganado. Lembrara a mim mesmo que aquela 
era a grande noite de John. Sabia que deveria esperar para ver como evoluiriam as coisas na vida amorosa do meu amigo, antes de voltar a ateno para a minha prpria.
Fora uma deciso muito difcil de tomar, considerando o estado emocional em que me encontrava. Mas conclu que devia isso a John. Ele era meu melhor amigo. Nunca 
tinha mentido para mim. Se eu armasse um escndalo com Natalie  custa de John, estaria tornando-a mais importante do que ele.
Assim, em vez de brigar com ela logo de cara, optara por evit-la a noite toda. Assim que entrei, Natalie passou o brao por minhas costas, num rpido abrao. No 
consegui det-la, mas no retribu o abrao.
Ela ficou me lanando olhares desconcertados a noite toda. A coisa que mais me perturbava era que a expresso magoada em seu rosto estava mesmo comeando a me pegar.
Natalie parecia to inocente, to confusa... Seus grandes olhos escuros estavam repletos de perguntas. Mas continuei dizendo a mim mesmo que no baixasse a guarda, 
pois tudo o que ela fazia agora no passava de pura encenao.
Perguntei-me quando, afinal, ela iria me contar que tinha voltado com Garth. Talvez o plano fosse no me contar nunca. Continuaria me enganando e manipulando.
Assim, ela e Garth poderiam rir juntos do quanto eu era idiota. S de pensar nos dois juntos, meu estmago comeou a arder.
Natalie terminou de encher a travessa de batatas fritas e desapareceu na cozinha. Voltou um momento depois, carregando uma travessa de biscoitos. A viso dos biscoitos 
que tnhamos assado juntos fez subir mais um grau o ardor no meu estmago.
No faa isso a voc mesmo, Dean, pensei. Ela no vale isso.
Forcei um sorriso para Jayne, enquanto ela vinha caminhando para onde John e eu estvamos. Pude sentir John passando para o estado de alerta mximo, como se algum 
o tivesse plugado numa tomada.
- Feliz aniversrio! - cumprimentei. - Voc est muito bonita, Jayne.
- Obrigada, Dean - Jayne agradeceu com voz contente, mas serena. - E obrigada pelo cd.
- No h de qu - respondi. - tima msica para danar, hein?
Jayne corou.
- Eu gosto - ela respondeu.
De repente, John assumiu um aspecto como se o colarinho de sua camisa estivesse apertado demais.
- Voc... talvez... gostaria de danar? - perguntou a Jayne. Ela o olhou nos olhos, os dela cintilando.
- Adoraria! - respondeu.
John sorriu. E, no que foi para ele um gesto absolutamente ousado, pegou Jayne pela mo e saiu andando com ela na direo do canto da sala que Natalie convertera 
em pista de dana. Continuei de p, sozinho, no mesmo lugar, olhando para Natalie do outro lado da sala.
Tomei um grande gole de refrigerante e ponderei a situao. Agora  a hora de fazer o que deve ser feito, disse a mim mesmo. John e Jayne j esto muito bem encaminhados. 
Eles no precisam mais de nenhuma ajuda.
Comecei a andar na direo de Natalie, mas ela se moveu primeiro. Nos encontramos no centro da sala.
Seus belos olhos castanho-escuros pareciam genuinamente preocupados. Havia minsculas linhas de tenso desenhadas em torno de sua boca.
- Dean, h algo errado? - ela perguntou. - Voc ficou me evitando a noite toda.
- Me surpreende que voc at tenha notado que eu estava aqui - respondi com uma voz horrvel, que no pude evitar. - Ser que voc no est esperando por algum 
mais importante?
A testa de Natalie se franziu mais ainda.
- No sei do que voc est falando - ela respondeu.
Na verdade, uma parte de mim a admirou naquele momento. Mesmo cara a cara com a minha fria, ela no revelava nada. Iria representar a Santa Inocente.
- Pense, Natalie - contra-ataquei. - No h algo que voc gostaria de me contar? Algo que poderia ser importante para mim, que tem a ver com a nossa relao?
- Nossa relao? - Natalie perguntou.
- Ah, claro! Desculpe, j tinha me esquecido - comentei sarcstico. - Ns no temos uma relao de fato, no  mesmo?  s uma coisa que eu imaginei.
- Dean - Natalie disse, sua voz carregada de mgoa e frustrao -, no estou entendendo por que voc est to bravo. Voc precisa me contar o porqu de tudo isso.
Naquele exato momento a porta da frente se abriu. Ns dois nos voltamos para ver quem tinha chegado.
- Ei, por acaso h uma festa aqui ou  impresso minha? - uma voz masculina perguntou alto.
Vi os olhos de Natalie se arregalarem. Seu rosto ficou plido.
- Ah, no! - ela exclamou.
A voz pertencia a Garth Hunter.

11

Natalie

Escorpio (23 de outubro - 21 de novembro)
Caos! Voc vai descobrir que andou vivendo num paraso de mentirinha. O castelo dos seus sonhos no passa de um castelo de cartas. Mas talvez ainda exista uma base 
slida debaixo dos seus ps. Encare seus problemas de frente.

Isto  um pesadelo, pensei quando olhei para Garth. No est acontecendo. No pode ser real. Quando ele chegou, eu estava de p no meio da sala, lutando contra algo 
que ainda no sabia o que era, mas que ferira Dean profundamente. S sabia com toda a certeza do mundo que, fosse qual fosse o motivo da fria de Dean, a presena 
de Garth no ajudaria em nada.
Por que Garth tinha de escolher justamente aquela noite para estragar uma festa? Tive o pressentimento de que ele faria tudo que pudesse para piorar as coisas entre 
mim e Dean.
- Com licena um minuto - disse a Dean, e sa andando na direo do hall de entrada. - Preciso resolver uma coisa.
- Ah, fique  vontade - ele replicou atrs de mim.
Era mais uma daquelas observaes enigmticas que Dean fizera a noite toda. Tudo o que saa de sua boca durante a festa soava raivoso e amargo.
- Isto  uma festa particular, Garth - falei, pegando seu brao e tentado conduzi-lo de volta  porta.
Eu no queria fazer uma cena. Outras pessoas o tinham visto entrar, e eu no queria que ele arruinasse a festa de Jayne. E, definitivamente, no queria Garth perto 
de Dean.
Isto vai ser algo indito na histria da humanidade, pensei. Garth provavelmente nunca foi expulso de uma festa.
- Sinto muito - continuei, enquanto o impelia para o mais longe possvel de Dean -, mas s posso receber um certo nmero de convidados aqui. Prometi isso a meus 
pais.
- Ah, mas que boa menininha voc , Natalie - ele disse. 
Seu hlito tinha um cheiro acre, como cerveja amanhecida. 
O que ser que eu via em voc?, pensei comigo. Por baixo de sua superfcie reluzente, Garth no passava de um canalha.
- Pois , Garth - prossegui -, e isso significa que voc vai ter de procurar alguma outra festa para se divertir.
Garth soltou uma risada e se virou rapidamente, livrando seu brao com um puxo da minha mo que o apertava. Com a surpresa, eu parei e dei um passo para trs, batendo 
contra a parede do hall.
Garth colocou suas mos na minha cabea, uma de cada lado, e inclinou seu corpo contra o meu. Fiquei aprisionada.
- Ento me conte algo antes, boa menina - disse ele, posicionando sua boca a poucos centmetros da minha. - Como vo as coisas esta noite entre voc e o seu Deanzinho?
- O que voc tem a ver com isso? - perguntei irada. - Para trs! Este bafo de cerveja est me dando nusea.
Garth riu de novo e se aproximou um pouco mais.
- Ele viu ns dois juntos hoje  tarde, sabe?
Senti meu sangue literalmente congelar nas veias, como se estivesse no meio de um filme de horror. Agora o estranho comportamento de Dean fazia todo o sentido do 
mundo.
Se Dean havia visto ns dois no shopping naquela tarde, tinha todas as razes do mundo para achar que Garth e eu estvamos juntos de novo. Ele devia ter achado que 
eu o trara, correndo direto de seus braos para os de Garth.
- Seu canalha desgraado! - falei o menos alto que pude. - Fora da minha casa, j!
- Ei, calma, calma, j estou indo - Garth disse. - S quero me despedir direito.
Antes que eu pudesse impedi-lo, ele se inclinou para a frente e me beijou nos lbios. Ento, se afastou e, com a maior calma do mundo, saiu andando pela porta da 
frente. Acho que at o ouvi rir enquanto fechava a porta. Mas estava perturbada demais para prestar muita ateno.
Eu tinha de encontrar Dean e explicar a ele o que acontecera no shopping. Tinha de faz-lo acreditar que no havia nada de errado. Comecei a voltar para a sala. 
Mas dei dois passos e parei.
Dean estava de p na entrada do hall. Ele tinha visto Garth me beijar.
- Dean... - falei num chiado rouco.
Minha voz estava tensa e carregada de pnico. Mostrando que no queria me ouvir, ele passou por mim, dirigindo-se para a porta.
- Dean! No  o que voc est pensando! - gritei. - Deixe-me contar o que aconteceu!
- Poupe-se do esforo - ele disse enquanto escancarava a porta e saa. - Eu sei exatamente o que aconteceu, Natalie. Voc andou me fazendo de palhao.
- Isso no  verdade - eu disse, seguindo-o at a varandinha da entrada e fechando a porta ao sair, para que ningum l dentro pudesse ouvir a nossa briga.
Fazia frio na rua. O cheiro do escapamento do carro de Garth ainda pairava no ar. Dean continuou andando em direo a seu carro, estacionado no meio-fio.
- Dean, voc no pode simplesmente ir embora deste jeito! - implorei, correndo atrs dele. - Voc tem de me dar uma chance de explicar!
- Explicar o qu? - ele gritou, girando o corpo para me encarar.
Seu rosto parecia plido sob a luz da rua.
- Explicar que voc me beijou hoje  tarde e imediatamente saiu correndo para se encontrar com Garth Hunter? Eu diria que essa situao fala por si mesma, Natalie. 
Vocs dois estavam juntos o tempo todo, no ? E rindo da minha cara o tempo todo!
Quando ele terminou seu monlogo, respirei fundo.
- No, Dean - eu disse o mais calma que pude, achando que se evitasse ficar brava talvez pudesse faz-lo enxergar a luz da razo. - Garth e eu no estamos juntos. 
E no sa correndo para encontr-lo. Eu encontrei Garth no shopping por acaso.
- Ah, e se jogou por acaso nos braos dele? Como aconteceu esse acidente? Voc tropeou e caiu nos braos dele? Quantas vezes mais voc "tropeou" nos ltimos tempos, 
se no for muito incomodo me contar? Ou quem sabe voc no pretendesse me contar absolutamente nada?
- No h nada para contar, Dean - respondi, ainda tentando segurar as pontas. - Eu sei que tudo o que voc viu cheira muito mal, mas no  o que parece. Se voc 
simplesmente se acalmar um minuto e me deixar explicar...
- Esquea, Natalie - Dean interrompeu. - No estou interessado.
Meu temperamento quente de escorpiana finalmente subiu a tona. Ningum jamais falara comigo daquele jeito. Eu j tivera brigas, claro. Mas nunca ningum me dissera 
que no estava interessado em ouvir o que eu tinha a dizer.
- Certo, tudo bem, no me oua - gritei. -No se interesse pela verdade. No me importo.
- Eu sei que voc no se importa, Natalie. Esse  justamente o problema. Mas eu posso resolv-lo para voc. Estou saindo daqui e da sua vida.
Eu no podia acreditar que ele realmente iria embora no meio da nossa discusso. Dean estava se comportando exatamente da maneira que eu sempre temera que se comportasse: 
como um geminiano insensato e sem considerao.
- No acredito que voc vai fazer isso - falei, seguindo-o at a calada.
Dean foi rapidamente para o meio da rua e comeou a tentar abrir a porta do carro de sua me.
- No posso acreditar que voc vai simplesmente desistir de ns sem nem ao menos me dar o benefcio da dvida.
- Benefcio da dvida?! - ele quase gritou por cima da capota do carro. - Essa  muito boa mesmo, vindo da sua boca. Quando voc me deu o benefcio da dvida? Foi 
voc que rompeu comigo porque eu era do signo errado.
- E agora vejo que estava absolutamente certa.
- Tudo bem - disse ele, desistindo de tentar abrir a porta do carro e voltando a passos tempestuosos at a calada. - Tudo bem Ento vamos testar essa sua teoriazinha. 
Que signo seria a combinao astrolgica perfeita para voc?
- Touro - respondi, sem hesitar um segundo. - Algum nascido entre vinte de abril e vinte de maio. Para ser absolutamente perfeito, precisa ter nascido no dia cinco 
de maio s nove horas.
- Da noite ou da manh?
- Da manh - respondi. - No fuso horrio da Costa Oeste. 
Dean cruzou os braos.
- Diacho - disse sarcasticamente -, um sujeito desses no deve ser to difcil assim de encontrar. Se eu localizasse um espcime para voc, voc sairia com ele?
- Ora, mas que pergunta cretina! Claro que sairia! Eu seria louca se no topasse sair com o parceiro dos meus sonhos.
Dean fez um gesto afirmativo com a cabea.
- Ok, ento estamos combinados. Vou encontrar esse cara e entreg-lo a voc. Se quiser, at o embrulho com um lao de fita vermelha.
- No acho que o lao de fita seja necessrio, obrigada - repliquei.
Dean fez um aceno com o brao.
- Como quiser. De todo jeito, vou fazer de tudo para que o Sr. Perfeito proporcione a voc a noite mais romntica da sua vida. Voc pode estipular todos os detalhes. 
Mas se a noitada no for no mnimo absolutamente perfeita, ento voc vai concordar em me dar uma nova chance.
- Espere um pouco a! - falei, duvidando de que tinha ouvido bem. - Pensei que voc no queria uma nova chance. Pensei que voc estivesse absolutamente convencido 
de que eu continuo apaixonada por Garth Hunter.
- Sim ou no, Natalie?
- Sim - respondi.
Era uma proposta absurda. Mas no havia maneira de eu perder. Ningum, nem mesmo Dean, tinha a menor chance contra meu parceiro astrologicamente perfeito. Se esse 
parceiro pudesse ser encontrado.
Seria tambm a oportunidade ideal para provar que eu estivera certa ao pr tanta f na astrologia. Eu obteria ao mesmo tempo o meu parceiro perfeito e uma confirmao 
de minhas decises passadas baseadas na astrologia.
- Ento toque aqui - Dean disse.
De p na rua, atrs do carro da me de Dean, trocamos um aperto de mos, fechando a aposta.
Um flash do passado cruzou minha mente: a primeira vez em que tnhamos apertado as mos para fechar uma aposta havia sido no baile do Dia dos Namorados, quando planejamos 
o primeiro grande encontro entre John e Jayne. Muitas guas haviam rolado desde aquela noite.
Dean voltou para o carro de sua me e dessa vez conseguiu abri-lo.
- S mais uma coisa - ele disse. - Como vou saber o que realmente ter acontecido nesse encontro dos seus sonhos?
Eu sorri, sentindo-me bem pela primeira vez desde que tnhamos comeado aquela briga ridcula.
- J fechamos a aposta, Dean. Agora voc no pode acrescentar novos termos. Mas acho que tenho uma soluo.
- Qual? - Dean perguntou, soando levemente desconfiado.
-  voc confiar em mim e acreditar que vou contar a verdade.

12

Dean

Gmeos (21 de maio - 20 de junho)
Tempos difceis no campo amoroso. Voc pode estar sonhando um sonho impossvel. Um plano para tirar voc da lama corre o risco de virar o feitio contra o feiticeiro. 
Lembre-se do que acontece com muitos dos planos mais geniais da histria do crime.

- Voc tem certeza de que isso vai funcionar? - perguntei a John, enquanto nos esgueirvamos pelo corredor rumo  secretaria da escola.
- Absoluta - ele prometeu. - No tem como falhar. Estvamos tirando proveito de uma simulao de incndio
na escola para executar a primeira parte do plano para ganhar minha aposta. amos vasculhar os arquivos da escola em busca de uma lista dos garotos qualificados 
para serem o parceiro astrologicamente perfeito de Natalie.
Usar os computadores da escola tinha sido idia de John, mas vrios dias foram necessrios para descobrir uma maneira de ter acesso aos dados.
Piratear de casa nos parecera muito arriscado. Eu queria ter minha revanche com Natalie, claro, mas preferia que fosse de uma maneira que no me fizesse ir parar 
na cadeia. Quando anunciaram o exerccio de simulao de incndio na quarta-feira de manh, a ocasio nos pareceu perfeita.
Na cantina, na hora do almoo, John e eu tnhamos desenhado mapas em guardanapos e elaborado todos os detalhes da nossa estratgia. A aventura estava fazendo com 
que eu me sentisse um membro da equipe do Misso Impossvel.
A simulao estava marcada para as duas da tarde. O plano era usar o intervalo de cinco minutos entre a primeira e a segunda aula da tarde para nos escondermos no 
banheiro masculino do primeiro andar. Quando o alarme contra incndio disparasse, John e eu nos esconderamos nos boxes.
Enquanto todo o mundo estivesse do lado de fora, esperando o sinal para voltar para dentro do prdio, John e eu iramos de fininho at a secretaria. E, ento, John 
entraria no banco de dados do computador.
O plano dele era entrar nos arquivos e puxar os nomes de todos os alunos da segunda e terceira sries do colegial nascidos em 5 de maio. Eu tinha resistido ao impulso 
de estender a pesquisa aos alunos do primeiro ano tambm. No fazia sentido contrariar Natalie, menos ainda sugerindo que sua nica chance seria um calouro.
At ali o plano estava correndo bem. O alarme contra incndio ainda estava apitando. John j tinha conseguido entrar no banco de dados. Mesmo assim, eu no parava 
de suar e ter vises com algum funcionrio da escola que tivesse decidido que a simulao de incndio era oportunidade perfeita para ficar sozinho em sua mesa, fazendo 
um lanchinho sossegado.
- Muito bem - John disse, enquanto seus dedos se moviam com rapidez pelo teclado. - Voc quer alunos da segunda e terceira sries nascidos no dia 5 de maio, certo?
Confirmei com um gesto de cabea. John digitou um pouco mais e, ento, apertou o enter. A tela ficou preta. S o cursor pulsava num canto.
- Voc estourou esse treco a, cara! O que voc fez? - perguntei apavorado.
- Caramba, Dean - John murmurou. - D para voc relaxar um pouco? O computador est pesquisando,  s isso. Vai levar s uns minutinhos.
- Ah, que bom, s uns minutinhos! E voc quer que eu relaxe? - retruquei ainda mais nervoso.
O alarme contra incndio subitamente parou de tocar. Havia um silncio de morte nas salas. Em mais alguns minutos, o sinal normal da escola soaria, e ento as pessoas 
comeariam a voltar para o interior do prdio.
Quando isso acontecesse, ns j precisaramos estar de volta no banheiro, de maneira que pudssemos sair dele e nos misturar aos outros alunos como se tivssemos 
participado do exerccio de simulao.
- Vamos l, vamos l - murmurei, os olhos grudados no monitor.
Ento, uma coluna de nomes apareceu de repente do lado esquerdo da tela.
- Pronto - John disse. - Voc quer uma cpia impressa, no ?
- Quero.
John deu o comando para imprimir. Em poucos segundos, a lista saiu da impressora laser, no exato momento em que o sinal normal da escola comeou a soar.
Agarrei a lista e me dirigi para a porta da secretaria. John apertou a tecla escape e veio logo atrs. Corremos pelo corredor rumo ao banheiro. Assim que a porta 
do banheiro se fechou atrs de ns, as vozes dos primeiros alunos que tinham entrado no prdio comearam a ressoar pelas salas e corredores.
- Cara - John disse, enxugando o suor da testa -, no consigo acreditar que conseguimos a lista.
- Nada mau para uma dupla de amadores, hein? - comentei, piscando um olho.
John soltou uma risada.
-  mesmo. Mas voc precisa ter nervos de ao para fazer esse tipo de coisa todo dia.
-  verdade - concordei. - Isso significa que provavelmente ns dois no temos nenhum futuro na cia. Pronto para colocar a ltima fase do plano em ao?
John assentiu com a cabea. Abrimos a porta do banheiro e samos dissimuladamente para o corredor. Deixamos a mar de alunos levar-nos de volta  nossa classe. E 
ento nos sentamos em nossas carteiras, como se tivssemos ficado com o resto da classe o tempo todo.
Eu estava me sentindo bem, at me lembrar do verdadeiro motivo da nossa grande aventura na secretaria. Em algum lugar da lista, que agora descansava no bolso de 
trs do meu jeans, encontrava-se o nome do parceiro dos sonhos de Natalie.
O cara por quem ela estava apostando que se apaixonaria, aquele pelo qual iria me trocar.

- Voc ficou totalmente pinu, Dean - John disse horas mais tarde. - Voc no pode estar levando a srio essa idia de armar um encontro entre Natalie e Tony LaScaglia.
A idia me agradava to pouco quanto a John. Contudo, ao contrrio dele, eu sabia que no havia escapatria.
- Ainda no tenho certeza de que vai ser o Tony - respondi. - Mas preciso falar com ele. S h trs caras na lista. E ele  um dos trs.
Eu tinha passado todos os momentos livres da tarde entrevistando os candidatos em potencial para sair com Natalie, fingindo que fazia uma pesquisa para o curso de 
sociologia.
At ento, o mais perto que eu tinha chegado de encontrar o parceiro perfeito para ela fora Mark Crawford. Ele tinha nascido no dia 5 de maio s sete da manh.
Agora que j tinha entrevistado todos os candidatos exceto um, comeava a me sentir um bocado idiota. Na verdade, aquilo tudo era uma pssima idia. Quem, com uma 
cabea minimamente saudvel, sairia por a tentando encontrar outro cara para substitu-lo com a namorada? S um idiota furioso. Agora eu podia ver claramente que 
era uma coisa muito boa o fato de eu no ficar furioso com freqncia.
Tony LaScaglia era o ltimo nome da lista. Eu o havia deixado para o fim de propsito - mesmo que isso me fizesse sentir ainda mais idiota.
Tony era, sem sombra de dvida, material de primeira para os sonhos romnticos de qualquer garota. No era preciso ser nenhum gnio para perceber isso. Se eu tivesse 
de escolher a dedo a hiptese mais aterrorizante dentre os nomes da lista de possveis parceiros astrologicamente ideais para Natalie, Tony LaScaglia teria sido 
o escolhido.
Ele era perfeito. Simplesmente no havia porns. Era bom de futebol americano e capito do time de beisebol. E estava no terceiro ano. Esse fato, por si s, j tendia 
a lhe dar uma certa vantagem inicial, j que, pelo menos conforme a minha experincia, as garotas sempre se sentiam atradas por garotos mais velhos.
Mas o pior mesmo era que todo mundo gostava de Tony LaScaglia. At eu gostava dele. E agora me via obrigado a abord-lo de uma maneira falsamente casual e perguntar-lhe 
a que horas tinha nascido. Se Tony tivesse vindo ao mundo a qualquer hora perto das nove da manh, eu estaria em srios apuros.
- No v falar com ele, Dean - John pediu, enquanto caminhvamos pelo campus da escola.
O tempo estava quase decente, e muitos estudantes aproveitavam para se sentar ao ar livre. Tony estava ajudando a montar uma das barracas para a festa de comemorao 
da chegada da primavera, que seria em apenas uma semana e meia.
- Voc e eu somos os nicos que vimos a lista - John me lembrou. - Natalie no precisa saber nunca a respeito de Tony LaScaglia.
Balancei a cabea, desejando que as coisas fossem to simples como ele dizia.
- No posso fazer isso, John. O meu pacto com Natalie se baseia em confiana mtua. Se ela descobrisse, mais tarde, que eu tinha deliberadamente deixado de fora 
um cara como o Tony, nunca mais falaria comigo.
- Ela provavelmente no vai falar com voc nunca mais, de todo jeito -John profetizou. - No, se sair com Tony LaScaglia.
- Ah, voc me tranqilizou bastante com essa observao. Obrigado pelo maravilhoso voto de confiana, John.
Tony LaScaglia estava com as mangas da camisa arregaadas. Seus braos musculosos pareciam estar atraindo um considervel grupo de meninas. Dei uma rpida olhada 
ao redor, para ver se Natalie andava por perto. No a encontrei. Ela e Jayne deviam ter ficado dentro do prdio.
- Oi, Tony - falei, caminhando na direo dele.
A barraca que Tony ajudava a montar fora pintada de azul com estrelas douradas. Me lembrou a Casa da Fortuna de Madame Sonya.
Ao ouvir meu cumprimento, Tony parou de martelar e sorriu. Seus dentes eram to brancos que, quando o sol batia neles, at ofuscavam a vista.
- O que voc conta, Dean? - Tony perguntou, simptico.
- Estou fazendo uma pesquisa para a aula de sociologia - menti. - Sobre tipos de personalidade. A que horas voc nasceu?
- A que horas eu nasci? - ele repetiu, rindo. As garotas ao redor dele soltaram algumas risadinhas. - E o que isso provaria?
- Um cientista desenvolveu uma teoria de que as pessoas nascidas na parte da manh tm uma personalidade mais competitiva - continuei a mentir.
Tony comeou a brincar com o martelo, jogando-o de uma mo para a outra.
- Srio? - ele disse. - Puxa... Bom, ento acho que deve haver algum fundo de verdade nessa teoria. Eu nasci s nove e cinco da manh.
- No fuso horrio da Costa Leste ou Oeste? - perguntei, tentando ignorar o enorme n em que todo o meu estmago subitamente se transformara.
- Oeste - Tony respondeu. - Nasci aqui mesmo, em Seattle.
- Parabns - falei, o n em meu estmago agora dando piruetas. - Voc acaba de passar para a etapa seguinte da pesquisa.
Era a hiptese mais aterrorizante tornando-se realidade. Tony LaScaglia era o parceiro astrologicamente perfeito para Natalie.
- Grande - disse Tony. - E o que eu ganho? Eu suspirei.
- Venha at aqui, que explico tudo a voc.

- Agora deixe-me ver se entendi isso direitinho - Tony disse, cinco minutos mais tarde.
Ns dois estvamos num canto retirado do campus da Emerald High. Tony tinha passado a John a tarefa de martelar.
- Quer dizer que voc gosta da Natalie Taylor, mas quer que eu saia com ela? - ele perguntou.
- Isso mesmo. Por causa dessa obsesso que a Natalie tem com astrologia. - repeti. -J expliquei a voc.
-T, tudo bem - Tony disse. - Mas isso no significa que eu tenha entendido bulhufas.
Gemi por dentro. Aquilo estava se mostrando mais difcil do que eu havia imaginado.
- Veja, Tony - recomecei. - Foi isto o que aconteceu: Natalie e eu comeamos a namorar. Ento, ela terminou comigo quando descobriu que eu no era do signo certo. 
E agora estou tentando provar para ela que o signo da pessoa no faz a menor diferena. Por isso lhe ofereci arranjar um encontro com um cara que fosse astrologicamente 
perfeito para ela. E esse cara acabou sendo voc.
- Eu?! - Tony exclamou.
- Exatamente.
- Puxa!
- E ento, voc topa? Topa sair com ela?
- Ora, claro - Tony respondeu. - Mas ainda no entendi qual a grande vantagem para voc. E se ns dois sairmos e nos dermos superbem?
- Ento concordo em ficar longe de Natalie - respondi. - Mas se o encontro de vocs dois no for no mnimo absolutamente fantstico, eu continuo na parada.
- Ah, j saquei - Tony disse com seu sorriso contagiante. - Voc est torcendo para que ela fique entediada comigo quando sairmos...
- No, no estou - repliquei.
Tony arqueou as sobrancelhas, com ar de descrena.
- Tudo bem, tudo bem - emendei -, admito que talvez esteja um pouco. Mas voc tem de dar o melhor de si nisso, Tony. No pode fajutar para me ajudar. A Natalie perceberia.
Tony balanou a cabea.
- Dean, eu realmente gosto de voc, cara, e por isso tenho de dizer o que vou dizer. Acho que voc est completamente pirado.
- Imagino que deva parecer isso mesmo, Tony - falei. - Mas sei o que estou fazendo. E ento, voc topa? Fechado?
- Claro - Tony respondeu. - Eu no tenho nada a perder. S tem um probleminha... Estou meio durango no momento.
Quem vai bancar essa grande noitada  luz de velas?
- Bom, acho que vou ter de ser eu.
Enquanto discutamos os detalhes de seu encontro romntico com Natalie, comecei a rezar para no ter de acabar pagando tambm de outra maneira.

13

Natalie

Escorpio (23 de outubro - 21 de novembro)
Inesperado tringulo no plano amoroso. Agora  a sua chance de alcanar as estrelas. No entanto, expectativas no preenchidas podem voltar a persegui-la. S voc 
poder tomar uma importante deciso.

Na quarta-feira de manh, Tony LaScaglia se apresentou na minha frente com sua certido de nascimento em mos.
Quase uma semana se passara desde que Dean e eu tnhamos fechado nossa aposta quanto ao parceiro dos meus sonhos. Desde aquela noite, eu no tinha trocado mais nenhuma 
palavra com ele. Comeava a achar que Dean tinha desistido. Talvez meu companheiro astrologicamente perfeito simplesmente no existisse - ou, ao menos, no entre 
os alunos da Emerald High.
Mas os dados na certido de nascimento de Tony LaScaglia eram prova inequvoca do contrrio. Ele tinha nascido em 5 de maio. O documento dizia isso, preto no branco.
- A que horas voc nasceu? - perguntei, mal acreditando que estava realmente tendo aquela conversa.
Tony sorriu para mim. Tive de resistir ao impulso de pegar meus culos escuros. Seus dentes eram to brancos que pareciam recm-sados de uma propaganda de pasta 
de dentes. Precisaria lembrar de pedir a ele que fssemos a algum lugar romntico e escuro quando sassemos, ou eu provavelmente ficaria cega.
- s nove e cinco, pelo fuso horrio da Costa Oeste. Aqui mesmo em Seattle. Nasci no Hospital Ballard.
- timo! - exclamei, tentando conter minha excitao. Tony era a combinao astral perfeita para mim! Devolvi a certido de nascimento.
Ele a dobrou e enfiou no bolso de trs da cala. Olhei para ele, perguntando a mim mesma o que aconteceria em seguida.
Agora que o parceiro dos meus sonhos tinha aparecido, eu me dei conta de que Dean no fora muito especfico com relao a quanto revelaria ao candidato sobre o que 
estava rolando.
- Bom - Tony disse -, eu achei que talvez pudssemos sair juntos uma noite dessas. Voc sabe, j que somos to perfeitos um para o outro e tudo o mais...
Isso responde  minha pergunta, pensei. Dean obviamente contara a Tony todo o aspecto astral da situao. Mas Tony no parecia constrangido por isso. Tanto melhor.
- Eu adoraria - respondi. - O que voc tinha em mente?
- Algo especial - Tony disse, acomodando-se no banco em que eu estava sentada.
Ele sorriu de novo. Eu pisquei os olhos.
- Algo to especial quanto voc - acrescentou.
- Como o qu, por exemplo? - perguntei, inclinando-me um pouco, de maneira a encostar de leve no brao dele.
Era divertido paquerar de novo. Fazia muito tempo que eu no paquerava assim. E, sem dvida, era fcil faz-lo com Tony. Qualquer garota que no sentisse pelo menos 
uma vontadezinha de paquer-lo provavelmente estava morta.
- Andei pensando em algo bem romntico - Tony respondeu. - Que tal o Luigi's?
O Luigi's era um restaurante italiano maravilhoso, tido pelos estudantes da Emerald High como o melhor lugar da cidade para encontros romnticos. Um garoto s levava 
uma garota ao Luigi's se quisesse impression-la, j que o evento geralmente exigia que o cara surrupiasse o carto de crdito do pai.
- No sei... - respondi, ainda fazendo o joguinho da paquera. - O que voc acha?
- Estou achando melhor a cada segundo que passa - Tony respondeu.
O primeiro sinal tocou. O intervalo do meio da manh estava chegando ao fim.
- Ento, sbado  noite seria bom para voc? - ele perguntou. - Digamos, por volta das oito?
- Acho perfeito - respondi, levantando-me do banco e jogando minha mochila sobre os ombros. - Voc sabe onde eu moro?
- No - Tony disse, com outro sorriso resplandecente iluminando seu rosto. - Mas tenho o resto da semana para descobrir.

- Voc est linda, Natalie -Jayne elogiou.
Era a noite do meu grande encontro com Tony. Eu estava de p diante do espelho do meu quarto, e Jayne sentada na minha cama. Ela tinha aberto mo da possibilidade 
de sair com John s para vir me ajudar a me arrumar. Sem dvida, h razes de sobra para considerar Jayne minha melhor amiga.
Rodopiei um pouco diante do espelho.
- Voc acha mesmo que est bom? - insisti.
A roupa era nova. Um vestido branco justo e curto, com grandes girassis amarelos estampados. Eu tinha amado o vestido  primeira vista. Bem retr, bem cool. At 
me dera ao luxo de esbanjar um pouco e comprar um par de sapatos brancos de salto anabela para combinar.
- Acho que est fantstico -Jayne confirmou. - E esse tom castanho no centro dos girassis destaca a cor dos seus olhos.
Na verdade, eu tinha ajudado a destacar meus olhos com uma generosa, porm discreta aplicao de rmel. Mas no havia por que revelar meus pequenos segredos de embelezamento, 
se no fosse absolutamente necessrio.
- Bom, se voc diz... - falei.
Jayne riu pela primeira vez desde que tinha chegado  minha casa. Caminhei at ela, sentando-me a seu lado na cama.
Jayne no tinha exatamente comemorado quando lhe contei sobre meu programa com Tony LaScaglia. Mas no tentou me fazer desistir. Disse at que torceria para que 
eu conseguisse o que desejava. Pessoalmente, suspeitei que minha me andara instruindo minha amiga com algumas conversas didticas sobre relacionamentos amorosos.
- E aqui estou eu de novo, ajudando voc a se arrumar para uma grande noite - Jayne comentou logo que me sentei. - Meio dj vu, no ?
Concordei com um gesto de cabea, tentando no pensar no fato de que a ltima vez em que ela me ajudara a me arrumar fora para sair com Dean.
Eu tinha evitado olhar para a foto de ns dois juntos enquanto me arrumava. Havia uma boa chance de eu ter de me desfazer dela para sempre depois daquela noite. 
Se tudo corresse bem com Tony, eu no teria mais nenhuma razo para pensar em Dean. Aquela idia me deu uma estranha sensao de vazio na boca do estmago.
- A prxima vez vai ser voc - eu disse a Jayne. - Voc e John j esto juntos h uma semana. J  mais do que a durao de qualquer uma das minhas relaes nos 
ltimos tempos.
- Quem teria adivinhado que, de ns duas, seria eu quem acabaria conseguindo uma relao estvel primeiro, no ?
Ficamos em silncio por um momento. A imagem do belo rosto de Dean esvoaou rapidamente por minha cabea.
- Natalie - Jayne disse -, preciso perguntar uma coisa a voc.
- O qu? - falei, embora tivesse a sensao de j saber o que ela iria perguntar.
- Voc tem certeza de que sabe o que est fazendo?
- Claro que sei - respondi. - Estou saindo com o meu parceiro astrologicamente perfeito.
- Mesmo no sabendo nada sobre ele? - ela insistiu.
- Ele  do signo certo - falei. - Essa  a nica coisa que preciso saber.
- Mas voc no acha que, se Tony LaScaglia realmente fosse o seu parceiro astrologicamente perfeito, voc teria sentido algum tipo de fasca de reconhecimento Escorpio-Touro?
Eu j tinha me feito a mesma pergunta, mas aquele estava longe de ser o melhor momento para admitir essa dvida. Em vez disso, dei a Jayne a mesma resposta que dera 
a mim mesma a semana toda.
- Na verdade, no faz tanto tempo assim que estou envolvida com astrologia, Jayne. S desde que o meu namoro com Garth terminou. E depois disso veio o Dean e eu 
me desconcentrei.
Pronto. A besteira estava feita. Eu pronunciara o nome de Dean em voz alta. Ele permanecera na minha mente a tarde toda. Parecia que eu no conseguia parar de me 
perguntar como Dean passaria sua noite, enquanto Tony e eu estivssemos por a, vivendo juntos o grande momento de nossas vidas.
Levantei-me. Pensar em Dean s estava me deixando deprimida. Eu no podia me centrar no passado. Precisava olhar para a frente.
- Deseje-me sorte, Jayne - pedi. Ela se levantou e me deu um abrao.
- Boa sorte, Natalie. Espero que vocs dois sejam muito felizes juntos.
Aquilo me fez rir.
- Ns no estamos nos casando, Jayne. Estamos s saindo pela primeira vez.
O encontro mais importante da minha vida. Aquele que me diria de uma vez por todas no que eu deveria confiar: nos meus instintos ou na astrologia.

14

Dean

Gmeos (21 de maio - 20 de junho)
Julgamentos precipitados podero voltar a lhe causar problemas. Voc est pronto para assumir as conseqncias de seus prprios atos? S o futuro pode decidir. Uma 
estrela brilhando no horizonte pode ser uma falsa esperana. Deixe a sua prpria luz brilhar.

- No gosto disso, Dean - John resmungou. -  uma pssima idia.
- Voc ficou repetindo isso nas ltimas duas horas - ralhei. - No acho que eu precise ouvir de novo.
Estvamos acotovelados atrs de um dos carrinhos de metal usados para recolhimento e limpeza dos pratos no Luigi's, esvaziando os pratos dos restos de comida deixados 
pelos clientes.
O trabalho j seria bastante desagradvel sob circunstncias normais, ou seja, se estivssemos sendo pagos por ele. Mas a razo pela qual John e eu nos encontrvamos 
ali estava longe de ser normal, e no visava a nada to simples quanto ganhar alguns trocados.
Depois de uma semana inteira dizendo a mim mesmo que no precisava me preocupar quanto a Natalie e Tony LaScaglia, entrara em pnico na ltima hora, pouco antes 
do encontro dos dois.
O dono do Luigi's era um velho amigo da minha me. Em parte, havia sido por causa dessa amizade que eu sugerira a Tony que levasse Natalie quele restaurante. J 
tinha reservado uma mesa especial para os dois.
Quando liguei para o amigo de minha me, pedindo que me deixasse trabalhar no restaurante naquela noite, ele pareceu achar que eu precisava de internao psiquitrica 
urgente.
Levei um tempo para convenc-lo de que poderia confiar em mim. E, depois, ainda havia o fato de que eu no tinha nenhuma experincia no ramo.
Finalmente, porm, ele concordou que John e eu trabalhssemos por apenas uma noite, desde que no executssemos nenhuma tarefa que implicasse contato direto com 
a comida que os clientes comeriam mais tarde.
Assim, fomos designados para cuidar dos restos, o que explicava porque estvamos ali, raspando a sobra dos pratos para dentro de um recipiente alojado no carrinho.
Quando os pratos formavam uma pilha alta o bastante, John levava o carrinho para a cozinha, e nos trazia de volta outro, vazio.
O Luigi's tinha a forma de uma grande lua crescente, o que permitia belssimas vistas panormicas do mar. Atrs das mesas, havia uma srie de divisrias de alvenaria 
separadas por vos, justapostas como biombos e decoradas com murais imitando os afrescos italianos antigos. Garons de smoking manobravam por entre as brechas estrategicamente 
posicionadas nas paredes-biombo.
As brechas haviam sido dissimuladas com tanto engenho que quem estava no salo de jantar tinha dificuldade para localiz-las. Isso fazia com que tudo no Luigi's 
parecesse acontecer por mgica, o que constitua parte do charme do restaurante.
O carrinho dos pratos em que John e eu estvamos trabalhando ficava atrs de uma dessas paredes-biombo, a menos de um metro de distncia da mesa que eu reservara 
para Natalie e Tony. Com um pouco de sorte, eu poderia ouvir cada palavra do que eles conversassem.
Na privacidade do meu quarto, onde me viera  cabea, a idia me parecera brilhante. Mas agora que a estava colocando em prtica, no me parecia to boa. Na verdade, 
me fazia sentir imaturo e infantil.
- Pensei que todo esse pacto entre voc e Natalie se baseasse em confiana mtua - John sussurrou, empurrando vrias rodelas de cebola de um prato de salada para 
dentro do recipiente de metal no carrinho. - No foi isso o que voc disse quando recomendei que simplesmente deixasse Tony fora do preo?
- , foi o que eu disse - sussurrei de volta, inseguro com relao a at onde o som de nossas vozes poderia ser ouvido. - Mas isto  diferente. No se trata de confiana. 
Se trata de controle. Eu preciso saber com antecedncia no que vai dar esse encontro. Assim, Natalie no vai poder me surpreender mais.
- Acho que voc est caindo em contradio -John disse, virando um copo vazio. - Ou voc confia numa pessoa, ou no confia.
- Por aqui, por favor - ouvi o matre dizer do outro lado da divisria. Minhas mos congelaram no carrinho.
- Puxa, este lugar  o mximo! - uma voz disse. Tive certeza de que era a voz de Tony.
- Pasquale estar s suas ordens, senhor - o matre anunciou. - Ele vir atend-los num minuto. Bem-vindos ao Luigi's, e bom apetite.
Acho que Tony e Natalie comearam a conversar logo que se sentaram, mas no conseguia ouvi-los com o rumor do restaurante zoando em meus ouvidos.
Nas prximas duas ou trs horas, todo o meu futuro amoroso seria decidido.
Ou Natalie escolheria a mim, ou escolheria Tony. E tudo o que eu podia fazer era raspar pratos sujos e esperar para ver qual dos dois seria o premiado.

15

Natalie

Escorpio (23 de outubro - 21 de novembro)
O ciclo amoroso aproxima-se de seu fecho. Voc realizar um velho sonho. Mas podem surgir eventos inesperados, capazes de alterar a situao. Analise as motivaes. 
Olhe debaixo da superfcie. As coisas podem no ser o que parecem.

- Puxa! - Tony disse assim que entramos no Luigi's. - Uma lagoa com peixes dentro de um restaurante! D s uma olhada nisto, Natalie.
Inclinamo-nos sobre a balaustrada e vimos vrios peixes grandes e dourados deslizando num tanque sob a ponte que conduzia ao salo de jantar do Luigi's.
- Que legal! - falei. - Eu j tinha ouvido falar.
Um matre de palet branco sorriu para ns com ar condescendente.
- Todo mundo j ouviu falar da lagoa do Luigi's - ele observou. - Somos famosos por ela. Se a senhora e o cavalheiro fizerem a gentileza de me acompanhar... Por 
aqui, por favor.
At ento, minha noite com Tony estava sendo absolutamente fantstica. To romntica quanto eu esperava que fosse. Ele me apanhara em casa com o carro do pai, um 
belo e charmoso Mercedes prateado. De modo geral, no me importo com o tipo de carro que um cara tem, especialmente quando nem sequer  dele. Mas aquela noite era 
especial, e achei que no me faria mal nenhum curtir a chance de desfrutar do bom e do melhor.
 verdade que Tony tinha passado todo o trajeto da minha casa at o restaurante explicando a funo de cada boto do painel do carro.  parte um genrico "puxa, 
voc est demais", assim que me viu abrir a porta de casa, Tony no tinha falado nada sobre o meu magnfico vestido. No estava me olhando da maneira como Dean me 
olhou quando samos. E tampouco exibia um sorriso misterioso vagando no fundo dos olhos.
Assim que Tony estacionou em frente  entrada do Luigi's, deixando o carro com o manobrista, disse a mim mesma que era hora de mudar de canal. Precisava parar de 
pensar no passado. Iria me concentrar apenas nos acontecimentos daquela noite. Fazer menos do que isso no seria justo com Tony. Ele merecia minha total ateno. 
Afinal, era meu parceiro perfeito em potencial.
Alm do mais, concentrar-me somente naquela noite serviria a outro importante fim. Significava no me permitir pensar em Dean de jeito nenhum.
At ali, meu plano parecia estar funcionando bem. Tony e eu j tnhamos passado da salada inicial. Nosso garom acabava de partir a passos rpidos com nossos pratos 
vazios. Uma espcie de placidez cara sobre a nossa mesa - aquele tipo de paz que acontece quando voc acabou de vivenciar algo muito bom, e sabe que algo igualmente 
bom est por vir.
Ao meu redor, eu podia ouvir em surdina as conversas dos outros clientes. Tony passou a vista pelo ambiente, reparando nos afrescos que o decoravam e nas delicadas 
luminrias penduradas nas paredes, junto das janelas.
- E ento? - ele perguntou. - Voc acha este lugar legal ou no?
Senti um levssimo tremor de apreenso. Era a quarta vez que Tony fazia aquela mesma pergunta. Claro que o Luigi's era super-legal. Mas eu comeava a me perguntar 
se o restaurante iria ser nosso nico assunto... Alm do carro do pai dele.
Fiz que sim com a cabea, como fizera nas ltimas trs vezes em que Tony formulara a mesma pergunta. Do jeito que as coisas caminhavam, l pelo fim da noite os msculos 
do meu pescoo estariam duros como pedra.
- Sem dvida - resolvi confirmar tambm com algumas palavras. - Muito legal.
Eu precisava mudar de assunto rpido. Os taurinos no so to impulsivos e passionais quanto os escorpianos. Talvez coubesse a mim criar um clima mais ntimo.
Inclinei-me para a frente, por sobre a mesa, no que esperei que fosse um gesto sexy.
- Tony, tenho a sensao de que na verdade no conheo voc. Por que no me conta o que gosta de fazer quando no est jogando futebol?
Tony tomou um gole de gua e analisou a pergunta.
- Jogar beisebol - ele respondeu.
Um sbito estardalhao de pratos se chocando soou por detrs de uma das divisrias decoradas com afrescos. Tive de admitir que a resposta de Tony no fora bem o 
que eu esperava. Ele no estava de modo algum entrando no clima do meu jogo de seduo. As coisas teriam sido totalmente diferentes com Dean.
Voc se prometeu que no pensaria em Dean, lembrei a mim mesma. A resposta de Tony no havia sido nada de to preocupante, afinal. Ele apenas tinha um estilo diferente.
- Beisebol! - falei. - Que legal!
- Beisebol  demais! - Tony disse entusiasticamente. -  a quintessncia do esporte de vero.
O uso da palavra "quintessncia" me pareceu promissor. No era comum ouvi-la na boca dos atletas da escola.
- Sem dvida deve ser muito melhor no calor do que hquei no gelo - brinquei, justamente no instante em que o garom chegava com nossos pratos.
Outro estardalhao de pratos retumbou atrs da divisria, seguido de um rudo que soou como uma seqncia de frenticos sussurros. Tony olhou para mim, franzindo 
a testa.
- Desculpe - ele disse. - O que voc falou?
- Deixe para l - respondi, sorrindo para o garom enquanto, em minha mente, promovia minha apreenso ao grau de genuna preocupao.
Primeiro, Tony no demonstrara nenhuma reao  minha aparncia. Agora no reagia s minhas piadas.
O garom retribuiu meu sorriso e brandiu um enorme moedor de pimenta sobre o meu fettuccine, como se fosse uma arma num filme de kung-fu.
- Um pouco de pimenta-do-reino para a senhora? - ele perguntou.
- Acho que no, obrigada - respondi.
- E para o senhor? - o garom perguntou de novo, agora com o moedor pronto e a postos sobre o prato de Tony.
Esperei que Tony me olhasse. Com certeza, ele tinha notado o quanto era ridculo todo aquele ritual com o moedor de pimenta. Seria a nossa primeira piadinha particular, 
a primeira coisa na qual estaramos em total sintonia e cumplicidade.
- Claro, mande ver - Tony respondeu, confirmando com entusisticos gestos de cabea.
Pude sentir meu apetite comear a se esvanecer  medida que a preocupao ia sendo substituda pela dvida.
Tony era um cara muito legal. Eis a um ponto em que todo mundo na Emerald High concordava. Mas eu estava comeando a me perguntar se o motivo pelo qual Tony era 
to popular no seria o fato de simplesmente no haver nada marcante nele, nada de que algum pudesse no gostar. Quero dizer, o que haveria para desgostar num cara 
to amigvel e simptico quanto um filhotinho de cachorro, e to profundo quanto uma piscina de criana?
Olhei de novo para Tony, enquanto ele atacava seu espaguete  carbonara. Nossos grandes temas de conversa durante a noite tinham sido o carro do pai dele, beisebol 
e os peixes no tanque do Luigi's.
Eu estava cara a cara com meu parceiro astrologicamente perfeito e no tnhamos nada a dizer um ao outro. Mais alguns minutos daquele jeito, e eu ficaria entediada 
demais at para me mexer.
Jayne estava certa quanto a Tony e a mim, pensei. Simplesmente no h nenhuma fasca de reconhecimento entre ns. Pior do que isso: no h nenhum tipo de fasca.
Nada nele era divertido ou insinuante, e ele no ria com as mesmas coisas inesperadas ou incomuns que me faziam rir. Eu sabia que os taurinos costumavam ser diretos 
e sbrios, mas com certeza meu complemento astral teria de ter algum senso de humor.
Dei uma garfada no fettuccine e mastiguei devagar, tentando espantar um sentimento de derrota que comeava a pairar no ar. Pelo andar da carruagem, minha noitada 
com Tony iria terminar em desastre total. O companheiro astrologicamente perfeito dos meus sonhos terminaria sendo o meu pior pesadelo.
Teria de confessar a Dean que ele estava certo e eu, errada. Que eu no deveria ter baseado na astrologia as minhas decises quanto  nossa relao. Pior ainda, 
talvez eu at tivesse de rastejar e lhe perguntar se ele ainda queria me ver de novo.
Ento, um pensamento horrvel me ocorreu. E se Dean no tivesse sido completamente honesto quando dissera que queria uma ltima chance? Talvez aquele encontro com 
Tony no passasse de uma armao. Uma maneira de Dean perpetrar sua vingana.
Ele ficara furioso com o que pensava ter acontecido entre mim e Garth Hunter. E se toda aquela histria da nossa aposta fosse apenas uma maneira de ele me chutar 
quando eu estivesse por baixo? Eu admitiria que tinha sido um erro romper com ele s por causa de seu signo, e ento ele me diria para sumir de sua vida, eu ficaria 
sozinha, e seria tudo culpa minha.
De repente, o fettuccine pareceu formar uma bola viscosa no fundo do meu estmago. Eu sabia que no poderia comer mais nenhuma garfada.
- Voc me d uma licencinha um momento, Tony? - eu disse, enquanto afastava minha cadeira da mesa.
- Claro - Tony respondeu, levantando a vista de seu prato de macarro e me olhando. - Voc est parecendo meio esquisita. Algum problema?
Agora ele repara na minha aparncia, pensei. Essa  boa.
- Estou tima - respondi. - S quero me refrescar um pouco. Sa da mesa sem mais cerimnia, certa de que Tony jamais notaria que eu perdera o interesse pelo nosso 
encontro.
O Luigi's era lindo, mas era tambm muito confuso. Eu tinha dado somente alguns passos quando me senti perdida. As divisrias com afrescos pareciam me cercar por 
todos os lados.
Finalmente, resolvi escolher uma brecha qualquer entre os afrescos. Uma vez do outro lado da parede divisria, vi um carrinho de metal carregado de pratos sujos. 
Seria um pouco embaraoso, mas mesmo assim decidi perguntar aos dois rapazes que estavam esvaziando os pratos no carrinho em que direo ficava o banheiro.
Enquanto eu comeava a caminhar na direo deles, um dos rapazes se dirigiu para a cozinha, empurrando o carrinho. O outro ficou esperando imvel, agora sem pratos 
para limpar.
- Desculpe - comecei. - Voc poderia por favor me di... Ao som da minha voz, o rapaz ergueu a cabea de um tranco e me olhou assustado. Era Dean.
Olhamos um para o outro estupefatos. Todo o meu corpo formigava, como se estivesse sendo espetado por minsculos alfinetes. Um estranho zumbido tomou conta de meus 
ouvidos.
Os peridicos estardalhaos de pratos subitamente fizeram perfeito sentido. No havia sido apenas um ajudante de cozinha qualquer, mas um ajudante especfico. Um 
ajudante que ouvira cada palavra do meu jantar com Tony.
A cara de Dean ficou muito plida. Pude ver seu pomo-de-ado subindo e descendo, conforme ele engolia em seco.
- Natalie - ele disse -, no  o que voc est pensando. Me deixe explicar..
- Do mesmo jeito que voc me deixou explicar sobre Garth? - rebati, minha garganta to seca e tensa que fiquei espantada de conseguir falar. - Ah, por favor, Dean, 
me poupe. Voc ficou me espionando a noite toda.  melhor admitir.
- Bom, e da? - ele rebateu, agressivo.
Obviamente, ele estava supondo que a melhor estratgia de defesa seria um ataque violento.
- E da se fiquei espionando? Eu tenho muito em jogo nessa coisa toda.
- Essa coisa? - quase gritei. - Acontece que essa coisa  a minha vida ntima e particular. E se no me falha a memria, voc prometeu confiar em mim.
- No prometi, no senhora. Isso nunca fez parte das regras do nosso pacto.
Senti o sangue latejar nas tmporas.
- Ento quer dizer que voc no confia em mim - falei. - Achou que eu mentiria quanto ao que acontecesse com Tony esta noite.
- No - Dean respondeu. - Eu s queria ter certeza de que...
- De que eu estaria dizendo a verdade - emendei, meu rosto vermelho de raiva. - Pois bem, deixe-me lhe dizer uma coisa, Dean. A nica vez que menti para voc foi 
quando disse que sentia muito por ter precisado terminar o nosso namoro. Sinto muito coisa nenhuma. Se tivesse de fazer de novo, faria exatamente igual. Tudo o que 
voc fez esta noite s veio provar que eu estava certa. Voc  quem no merece confiana, Dean. No quero ver voc na minha frente nunca mais.
- Quer fechar um pacto em cima disso tambm? - Dean perguntou.
Sua voz soara sarcstica, mas quando ele estendeu a mo para que eu a apertasse, notei que ela tremia. No tenho certeza do que eu teria feito se Tony no tivesse 
aparecido naquele exato instante.
- Natalie? - ele chamou, sua cabea surgindo por entre as divisrias. - Voc est a atrs? O que est acontecendo?
- Nada, Tony, nada - respondi, dando as costas para Dean. Sa andando na direo de Tony, que olhava alternadamente
para mim e para Dean, sem entender nada. Minhas costas estavam to eretas que eu poderia estar marchando com o batalho de cadetes na parada do Dia da Independncia.
- Mas sabe o qu? - continuei dizendo a Tony. - Este lugar no  nem de longe to romntico quanto eu esperava que fosse. O que voc acha de irmos embora daqui e 
fazermos algo realmente divertido?
Tony coou o queixo, seus olhos de cachorrinho repletos de compaixo.
- Como voc quiser, Natalie.

16

Dean

Gmeos (21 de maio - 20 de junho)
Desastre! Atos tolos e irresponsveis trazem conseqncias duras. Hora de ir para casa e lamber suas feridas. Avalie os danos. Reveja a situao. O que vai acontecer 
em seguida depender de voc.

- Acho que realmente estraguei tudo, no foi? - perguntei a John quando saamos de carro do Luigi's, de volta para casa.
A noite estava linda. Atravs do pra-brisas, eu podia ver o cu repleto de estrelas.
Tenho certeza de que algumas pessoas diriam que a viso das estrelas deveria ter feito eu me sentir muito melhor quanto ao fato de ter acabado de ser pego espionando 
a garota que acreditava amar. Que a beleza da noite deveria ter feito eu me dar conta de como eram insignificantes meus prprios problemas, se comparados  imensido 
e  glria do cosmo.
Pessoalmente, acho esse tipo de pensamento um tanto quanto exagerado. Quem quer ser lembrado do quanto  insignificante?
Eu tinha sado com Natalie pela primeira vez numa noite exatamente como aquela. E a havia beijado sob aquelas mesmssimas estrelas. No me parecia justo que a noite 
fosse to bela agora, quando eu a perdera para sempre.
- Detesto ter de dizer isto... -John comeou.
- No diga - interrompi, entrando na rua dele. - No diga. As coisas j esto ruins o bastante sem voc dizer "eu avisei".
- , acho que voc tem razo - ele concordou depois de alguns segundos.
Estacionei o carro em frente  casa de John. Desliguei o motor e apaguei os faris.
- Voc acha que Natalie me viu? -John perguntou, no fazendo nenhum movimento para sair do carro.
- No - respondi. - Acho que no. Ela estava ocupada demais se enfurecendo comigo para reparar em qualquer outra coisa.
Dei um soco no volante do carro.
- Como pude ser to idiota? Desta vez perdi Natalie para sempre, com certeza.
John concordou com um triste gesto de cabea.
- Tudo bem, John, pode dizer. Eu mereo.
- Eu avisei -John disse baixinho.

Uma hora mais tarde eu estava de p debaixo da rvore do jardim da casa de Natalie.
A janela de seu quarto ficava logo acima de mim. Achei que ela ainda estava acordada, porque a luz do quarto continuava acesa. Ou talvez ainda nem tivesse chegado 
em casa. Talvez ela e Tony tivessem decidido cair na gandaia at o amanhecer.
Vi uma sombra passar por trs da cortina do quarto. Pelo menos isso. Natalie estava em casa. Pelo que podia ver l de baixo, estava andando de um lado para o outro, 
provavelmente tentando se acalmar.
Eu me sentia to tenso que achei que nunca mais conseguiria dormir. Como as coisas tinham dado to errado entre Natalie e mim, depois de um comeo to promissor?
Considerei a possibilidade de procurar algumas pedrinhas no jardim, para atirar na janela dela. Talvez ainda no fosse tarde demais. Talvez ainda pudssemos conversar.
Isso, Dean, pensei enquanto via a sombra de Natalie passando de novo atrs da cortina. V em frente. Talvez ela responda jogando uma panela de leo fervente na sua 
cabea.
A sombra de Natalie parou. Ela ficou bem no centro da janela. As cortinas se separaram um pouco, mas eu no tinha como saber se ela estava ou no olhando para baixo. 
Era mais provvel que estivesse olhando para cima, estudando o alinhamento dos astros.
Perguntei-me se Romeu tinha se sentido daquela maneira, esperando por Julieta sob o balco. Havia a pequena diferena de que Romeu no tinha feito nada de errado. 
Ele pensava que tinha a vida toda pela frente. Sabia que seria afortunado no amor, pelo menos por algum tempo. No meu caso, toda a fortuna se fora.
 isso a, Dean, pensei. Mas voc precisa levantar a cabea e seguir em frente. Est ficando melanclico demais.
Eu tinha me comportado mal, sem dvida. Mas nem tudo o que dera errado entre ns dois era culpa minha. Ela era quem tinha decidido primeiro que no podamos mais 
nos ver.
Natalie se afastou da janela. Um segundo depois, a luz de seu quarto se apagou. Fiquei l de p, apoiado no tronco da rvore, por pelo menos mais uns vinte minutos. 
Durante todo esse tempo, a cortina no se moveu nem mais uma nica vez.
Isso significava que ela no tinha me visto. Ou que, se tinha, no ligara. Voltei para o carro e percorri lentamente a curta distncia at minha casa, torcendo para 
que houvesse algum filme bom na televiso. Seria a nica maneira de matar todas aquelas horas vazias antes do amanhecer.

- Dean? - minha me chamou assim que entrei em casa.
Numa tentativa de evitar ser notado, eu entrara pela garagem, mas deveria ter sabido que no adiantaria. As mes tm dispositivos especiais embutidos no crebro, 
para detectar desastres que ocorrem com seus filhos, especialmente quando o desastre tem a ver com as coisas do amor.
- Oi, me - respondi, pendurando as chaves do carro no gancho perto da porta da cozinha.
- J  to tarde. Correu tudo bem l no Luigi's?
- Isso depende do lado de quem voc est.
Minha me apareceu na porta da cozinha, vestida com seu robe cor-de-rosa e suas pantufas em forma de Mickey Mouse. Tanto o robe quanto os chinelos tinham sido presentes 
de natal de Roy e Randy.
- Estou do seu lado, claro - ela respondeu.
- Bom, ento sinto muito decepcionar voc, mas acho que perdemos.
- Nesse caso, voc deve estar com fome - ela disse. Porque no acende a lareira para espantar o frio da sala, enquanto eu preparo um chocolate quente e umas torradas 
de canela?
- Muito bem - minha me disse, quando j estvamos sentados na frente da lareira acesa. - Comece do comeo. No deixe nada de fora.
- Nasci no dia 21 de maio, numa pequena cidade perto de...
- Engraadinho - cortou ela.
Peguei um pedao de torrada de canela do prato e dei uma
grande mordida.
Assim que comecei a comer a torrada, comecei a me sentir um pouco melhor. A terapia da torrada de canela sempre funciona comigo. Minha me sabia disso, claro. Foi 
ela quem inventou o ritual quando eu era pequeno.
- E ento? - ela disse, as chamas do fogo se refletindo em seu rosto. - Voc quer me contar, ou prefere no falar no assunto?
- Eu estraguei tudo, me. Em grande estilo.
- Como foi? - ela perguntou, dando um gole no chocolate quente.
- Armei um encontro entre Natalie e outro cara hoje no Luigi's, e ento me escondi para espionar.
Minha me ficou em silncio por um momento, assimilando a informao. Tomou outro gole do chocolate, o que deixou resduos de marshmallow derretido em seu lbio 
superior. Abocanhei minha torrada de canela.
- V? Nenhum comentrio? - perguntei, quando j no podia mais suportar o silncio.
Ela franziu a testa e recolocou sua xcara de chocolate quente na mesinha de centro.
- Estou tentando pensar no que dizer - respondeu. Voc realmente me surpreendeu, Dean.
Depois de uma breve pausa, continuou:
- Esse tipo de comportamento no se parece com voc, de modo algum.
- Foi ela quem me levou a isso, me - protestei.
- O que voc acabou de dizer  uma grande bobagem, Dean, e voc sabe disso. O que aconteceu, filhinho? - ela perguntou com uma voz um pouco mais suave. - Pensei 
que voc e Natalie se gostassem de verdade.
- Eu tambm achava isso - falei. - Mas, ento, ela terminou comigo por aquele motivo ridculo, e a partir da as coisas ficaram meio confusas. Minha me pegou uma 
torrada de canela e deu uma pequena mordida.
- Dizer que as coisas ficaram meio confusas  o eufemismo do sculo - ela observou.
- Natalie acha que eu a espionei porque no confio nela. Mas no  exatamente isso, me. Eu simplesmente senti que tudo estava acontecendo  minha revelia e que 
no havia nada que eu pudesse fazer para impedir. Eu s quis recuperar algum controle sobre as coisas.
- Ah, Dean - minha me disse, abandonando seu pedao de torrada no prato e olhando para o fogo.
Fazia muito tempo que eu no a via parecer to triste.
- s vezes voc me lembra tanto eu mesma, filhinho. Cometi o mesmo tipo de erro com seu pai.
Minha me nunca fala de meu pai. No que ela ande por a eternamente furiosa ou magoada pelo que aconteceu no passado. Mas simplesmente no o menciona. Roy e Randy 
no percebem. Quando ele nos deixou, os dois ainda no tinham idade suficiente para se lembrar dele.
- Voc no pode controlar o amor, Dean - minha me continuou com doura. - No pode usar o amor para forar uma pessoa a fazer aquilo que quer que ela faa. O melhor 
que pode fazer  tentar manter controle sobre si mesmo. Assim, pelo menos voc ter a satisfao de saber que foi fiel ao seu prprio corao, mesmo que no consiga 
o que queria.
- Voc amava o papai, no ?
Ela confirmou com um gesto de cabea.
- Claro que sim. Durante um tempo, achei que apenas am-Io seria o suficiente. Mas  necessrio mais do que o amor de uma s pessoa para construir uma relao.
- Ento o que eu devo fazer?
Ela arqueou as sobrancelhas, estendendo o brao para pegar
seu chocolate quente.
- Acho que voc sabe a resposta para essa pergunta - respondeu. - Voc fez uma coisa errada, Dean, mesmo que achasse que tinha boas razes para faz-Ia.
- Preciso pedir desculpas a Natalie, no ?
- Acho que sim. Mas a deciso  sua.
Minha me sorriu e se levantou do sof. Me levantei tambm.
- Esta sesso maternal me deixou cansada. J  hora de eu ir para a cama. Apague a lareira antes de ir dormir, filhinho.
- Certo - falei, enquanto ela se inclinava para me dar um beijo. - Boa noite, me. E obrigado.
- Voc no tem nada que me agradecer por isso - ela disse. - E acabe com estas torradas de canela. Se Roy e Randy descobrirem que no ganharam, vou ouvir durante 
uma semana.
Olhei para os ps dela, enfiados nas pantufas do Mickey, arrastando-se com um rudo abafado rumo ao quarto. Tornei a me sentar e fiquei olhando para o fogo.
Minha me estava certa. De algum jeito, no mximo at segunda-feira de manh, eu tinha de descobrir uma maneira de dizer a Natalie que sentia muito. E ento, se 
mesmo assim ela no quisesse me ver nunca mais, eu teria de decidir o que fazer da minha vida.

17

Natalie

Escorpio (23 de outubro - 21 de novembro)
A escura noite da alma pode ter um revestimento de prata. Lembre-se de que o cu sempre  mais escuro antes da aurora. O que parece perdido pode estar ao seu alcance. 
Para sair do dilema, tente examinar seu corao.

Eram duas da madrugada, e eu continuava acordada. Por que a insnia tomava conta de mim sempre que tudo o que mais queria era esquecer minhas dores, caindo no sono 
com as cobertas puxadas por cima da cabea?
Depois de sair do Luigi's, Tony e eu tnhamos ido a uma danceteria, para danar e queimar energia.
Tony tinha sido superlegal. Entendeu perfeitamente como eu me sentia em relao ao que acontecera com Dean. E concordou que o comportamento de Dean tinha sido inadequado 
e ultrajante. Cheguei at a pensar que poderia haver alguma esperana de que Tony e eu nos acertssemos - at o momento em que ele me deu o beijo de boa-noite, debaixo 
da rvore do jardim de casa.
Uma garota pode dizer muito sobre um cara s pela maneira como ele beija. E no estou falando de tcnicas de lngua nem nada do gnero. Refiro-me a sentir se ele 
est beijando voc em especial ou se est apenas saboreando com seus lbios a forma feminina mais prxima disponvel.
Na verdade, beijar Garth deveria ter sido minha primeira pista de que ele no passava de um canalha. Eu deveria ter sido capaz de dizer imediatamente que ele no 
se importava com quem eu era.
Tony me tratou bem, mas pude sentir instantaneamente que nada de srio iria acontecer entre ns. Ele estava apenas beijando um corpo. No estava me beijando. E como 
poderia ser diferente? Durante a noite toda, ele no estivera realmente comigo. Ns no tnhamos nos conectado.
- Obrigada por tudo, Tony - eu disse quando o beijo terminou.
Ele tinha me abraado para me manter aquecida, enquanto estvamos ali de p, no frio da noite, debaixo da rvore.
- Foi uma noite muito gostosa - continuei.
- Sei, sei - Tony disse, mostrando mais intuio do que a que tivera durante a noite toda. - Por que ser que sinto um "mas"  vista?
- Mas - eu disse, sorrindo para ele -, eu acho que no devemos nos ver de novo.
Tony no disse nada por alguns segundos.
-  por causa do Dean, no ? - ele perguntou, por fim.
- No - respondi. -  por causa de voc e de mim, Tony. Voc  um cara muito legal, e eu realmente gosto de voc... Mas, admita, estamos perdendo nosso tempo.
Tony pareceu um pouco desconcertado. Talvez ele fosse to popular que nunca antes uma garota lhe tivesse dito no.
- Voc  diferente, no , Natalie?
- No, s brutalmente sincera - respondi. Um lado da boca de Tony se franziu um pouco.
- Eu gostaria muito que pudssemos ser amigos - falei.
- Isso seria muito bom - ele disse. - Talvez voc pudesse vir assistir a algum dos meus jogos de beisebol.
Depois que Tony partiu, fiz tudo o que fui capaz de imaginar para espantar o inevitvel: um sentimento de incrvel frustrao e derrota. Aquela deveria ter sido 
a noite mais importante da minha vida. Em vez disso, fora o meu maior fiasco.
Tomei um longo banho quente de banheira, com minhas ervas favoritas. Depois, consumi uma chaleira inteira de ch de camomila. No desespero, at cheguei a pegar o 
material para comear um trabalho de ingls para a escola.
Nenhuma distrao ttica funcionou. Acabei reduzida a ficar andando em crculos pelo meu quarto. Toda vez que ficava quieta, minha mente comeava instantaneamente 
a passar um replay de toda a minha relao com Dean.
Nem mesmo olhar para as estrelas tinha ajudado. Eu tinha depositado nelas toda a minha f, e elas tinha falhado comigo. Para piorar, no instante em que abri as cortinas 
da janela do meu quarto, podia jurar que estava vendo Dean. Ele estava l embaixo, olhando para minha janela, como Romeu esperando que Julieta aparecesse no balco.
Fechei as cortinas e apaguei a luz imediatamente. Se Dean estivesse mesmo rondando o jardim da frente da minha casa, no seria por querer fazer o papel de Romeu 
para a sua Julieta. Seria para me espionar.
Por fim, totalmente exausta, me enfiei na cama, esperando que mais cedo ou mais tarde o fato de estar na horizontal me ajudasse a fugir para o mundo dos sonhos.
Contei ovelhas para ver se ajudava um pouco. Depois, contei pastores. Depois, cordeiros. E quando j estava contemplando seriamente a possibilidade de ter de percorrer 
todos os animais da Arca de No, decidi que tudo aquilo era um exerccio de futilidade. Sentei-me na cama e acendi o abajur do criado-mudo.
Na sbita luminosidade, a primeira coisa que vi foi a foto de Dean comigo no baile do Dia dos Namorados. No iria ficar ali sentada, olhando para aquela foto, de 
jeito nenhum.
Joguei as cobertas para o lado e pulei da cama. Claramente, a nica soluo era descer e assistir a televiso. Talvez o canal de compras ajudasse. Aquele canal era 
capaz de fazer dormir at mesmo a pessoa mais insone do mundo.
Desci at a salinha de televiso e liguei o aparelho. Mantive o volume de som bem baixo, para no acordar meus pais.
Mesmo assim, minha me apareceu na porta em menos de sessenta segundos. Ela no entrou na salinha logo de cara. Isso teria deixado bvio demais que a razo pela 
qual tinha acordado era que estava preocupada comigo. Em vez disso, entrou na cozinha primeiro. Pude ouvir o som da gua caindo dentro da chaleira e de pratos sendo 
colocados em sua bandeja preferida.
Mantive os olhos grudados no canal de compras durante todo o tempo que a gua levou para ferver. Finalmente, mame saiu da cozinha carregando uma bandeja com um 
prato de rosquinhas, dois pratos menores vazios, xcaras e um bule de ch de gengibre.
- Senti vontade de um lanchinho noturno - ela disse enquanto colocava a bandeja na mesinha. - E achei que talvez voc pudesse gostar de um pouco de companhia.
Senti vontade de um lanchinho noturno - ela disse enquanto colocava a bandeja na mesinha. - E achei que talvez voc pudesse gostar de um pouco de companhia.
- So duas da manh, me - falei. - E eu jamais conseguiria comer estas bombas de acar no meio da noite.
Ela me passou um pratinho e uma xcara para o ch.
- Abuse, sirva-se  vontade - ela disse, erguendo o prato de rosquinhas.
- Se eu ganhar cinco quilos, voc paga o guarda-roupa novo - avisei. - Qual delas voc acha que tem mais recheio?

- Voc quer falar sobre o que aconteceu hoje  noite? - minha me perguntou, depois que cada uma de ns tinha consumido o prprio peso em rosquinhas.
Todo aquele acar deve ter enfraquecido minha resistncia. Eu nem sequer tentei resistir. Contei tudo a ela, de uma vez s.
- Ah, me, foi horrvel! - respondi. - Tony e eu fomos ao Luigi's para jantar, e Dean estava l escondido, me espionando o tempo todo.
- Espionando voc? - minha me espantou-se. - Para qu?
- Para saber o que estava acontecendo entre Tony e mim. Ela encheu de novo sua xcara de ch.
- Eu pensei que tinha sido o prprio Dean quem havia organizado o seu encontro com Tony - ela observou, colocando a chaleira de volta no tampo da mesinha.
- E foi - respondi. - Mas na verdade era s um desafio. Ele queria provar que eu estava enganada quanto  astrologia. O pacto era que, se Tony e eu sassemos e nossa 
noite no fosse no mnimo perfeita, ento eu deveria tentar de novo com Dean.
- E como foi a noite com Tony? - minha me perguntou. - Quero dizer, antes de voc descobrir que Dean estava espionando.
Dobrei e desdobrei meu guardanapo vrias vezes.
- Bem entediante - respondi, depois de alguns segundos.
- Ento Dean estava certo - ela disse. - No havia nenhuma razo para escolher um parceiro baseando-se simplesmente na astrologia.
- Essa no  mais a questo, me - protestei. - Dean me espionou. Ele no esperou que eu fosse lhe contar o que tinha acontecido no meu encontro com Tony. Tentou 
descobrir sozinho. No confiou em mim!
- Calma, filhinha - minha me disse. - Eu acredito em voc. Alis, eu concordo. Mas gostaria de observar que voc colocou Dean numa posio bastante difcil.
- O que voc quer dizer?
- Voc rompeu com Dean por causa do signo dele - ela
respondeu. - Porque estava certa de que, sendo geminiano, mais cedo ou mais tarde ele magoaria voc. No foi isso?
Eu confirmei.
- Ento essa deciso de Dean de espionar voc no fica parecendo uma espcie de profecia cumprida por ele prprio?
Peguei outra rosquinha.
- Eu no armei essa situao toda de propsito, me.
- No estou dizendo isso. Estou dizendo que s vezes, quando acreditamos em algo com muita fora, tornamos possvel que nossas expectativas sejam atendidas.
Tomei um gole do ch e pensei no que ela acabara de dizer.
- Tudo bem, acho que entendo sua colocao - concordei. - Mas isso ainda no torna certo o que Dean fez.
- Claro que no - ela disse. - O que Dean fez foi completamente execrvel. E eu teria ficado furiosssima se algum fizesse o mesmo comigo. Mas, da maneira como 
eu vejo a coisa, ele estava num beco sem sada. Nada que ele fizesse pareceria certo aos seus olhos, Natalie.
- Porque eu me importava mais com o signo dele do que com quem ele era?
- Acho que  por a - minha me respondeu.
Tomei outro gole de ch, sentindo o gengibre picante aquecer todo o meu corpo. Coloquei a rosquinha de volta no prato.
- Eu provavelmente devo a ele algum tipo de pedido de desculpas, no ? - perguntei.
Minha me riu.
- Acho que essa foi a observao mais hesitante que j ouvi voc fazer - ela disse. - Eu sei que no vai ser fcil, Natalie. Mas, na minha opinio, a resposta  
sim. Mesmo que vocs no voltem a ficar juntos, acho que seria bom deixar tudo limpo entre os dois.
- Voc vem junto comigo, fica segurando a minha mo? - perguntei.
- No. Mas deixo voc praticar comigo, se quiser.
- Sinto muito se algo que eu fiz levou voc a agir como um babaca inseguro e estpido - falei, ensaiando um pedido de desculpas.
- Voc captou a idia, mas a forma pode melhorar um pouco - minha me disse rindo.
- Acho que vou ter de trabalhar em cima disso - concordei. 
S esperei ter coragem suficiente para dizer o que tivesse de dizer a Dean de verdade...

- Just do it! Simplesmente faa! - Jayne exclamou. - V at ele e diga que voc sente muito.
- Daria para voc parar de falar como uma propaganda da Nike?
Era segunda-feira de manh, o primeiro dia da festa da primavera. Jayne e eu estvamos dando os ltimos retoques na minha barraca de vidente.
Apesar de ter refletido o domingo inteiro sobre a conversa que tivera com minha me na noite anterior, eu ainda no tinha decidido como ia fazer para pedir desculpas 
a Dean.
A situao estava me deixando nervosa. Tal como eu via as coisas, ns dois ramos responsveis pelo terrvel incidente da noite de sbado. Se eu tinha de pedir desculpas 
a ele, ele tambm tinha de pedir desculpas a mim.
- Alm do mais - continuei -, essa sua idia me parece meio arriscada. E se Dean simplesmente for embora quando me vir chegando?
Jayne bufou irritada, passando-me uma fita de seda vermelha.
- Ele no vai fazer isso, Natalie - assegurou ela, enquanto eu fixava a fita de seda no dossel que tnhamos criado dentro da barraca. - Aposto que ele est querendo 
pedir desculpas tanto quanto voc.
-  bom que esteja - observei.
- Ah, timo - Jayne ralhou. - Com essa atitude, voc nunca vai conseguir se reconciliar com Dean.
Ns duas demos alguns passos para trs, para analisar melhor o nosso trabalho; depois, samos da barraca para ver como tinha ficado do lado de fora. A maioria das 
barracas da festa tinha um balco logo na frente e, mais atrs, o espao para as pessoas que trabalhariam ali. A minha barraca era diferente. No havia balco, s 
um nico ambiente, sem divises, uma espcie de salinha na qual as pessoas poderiam entrar e sentir-se relativamente isoladas do mundo exterior.
Jayne e eu havamos estendido tecidos no teto e nas paredes, e tiras mais finas na entrada, formando uma cortina. Tambm tnhamos colocado um tapete velho e algumas 
almofadas no cho. Por fora, as laterais da barraca haviam sido pintadas de azul, com grandes estrelas douradas. Toda a decorao inspirava-se na Casa da Fortuna 
de Madame Sonya.
Eu vestia uma roupa preta e grandes brincos dourados de argola. Tambm passara bastante sombra e rmei nos olhos. Queria que, juntos, o efeito geral da minha figura 
e da barraca fosse colorido e extico. Queria que todos que perambulassem por ali se sentissem atrados e pagassem uns poucos dlares para ter seu futuro revelado. 
A renda iria para um fundo que financiaria os eventos especiais dos alunos da segunda srie. Todo o propsito da festa da primavera era que cada srie arrecadasse 
seus prprios fundos.
- E ento, o que voc achou? - perguntei.
Jayne comeou a enrolar no topo da minha cabea uma faixa de tecido azul acetinado, bordada com fios dourados. Arrematou o turbante com um n e deixou as extremidades 
da faixa carem sobre meus ombros.
- Acho que ficou brbaro - ela disse. - Quer que eu seja sua primeira cliente?
- O seu futuro eu j sei. Voc vai ser feliz para sempre - respondi.
Jayne corou.
- Previso grtis sempre  bom - ela disse. - E que tal se eu for dar uma volta por a para tentar fisgar alguns clientes?
- tima idia.
Entrei de novo na barraca. Ajeitei as almofadas, me acomodei o mais confortavelmente que pude num canto e procurei assumir um ar mstico. Agora, era s esperar pelas 
filas de clientes que logo se aglomerariam na entrada.
Perguntei-me o que Dean estaria fazendo. Ser que ele facilitaria as coisas para mim, quando eu tentasse lhe pedir desculpas? E se no facilitasse, como eu agiria?
Ele merecia um pedido de desculpas, no havia dvida quanto a isso. Eu tinha de tentar, custasse o que custasse. Olhei para as tiras de tecido penduradas no teto 
e movendo-se com a brisa, e decidi no pensar mais se Dean estaria ou no disposto a me dar uma segunda chance.
As tiras da cortina da entrada se abriram e um cliente entrou. Vestia uma cala jeans preta e uma malha de moletom com capuz. O capuz estava puxado por sobre a cabea 
e cobria a parte superior de seu rosto. Por isso, e por causa das tiras de tecido que Jayne e eu havamos pendurado no teto, no havia como ver quem era meu primeiro 
cliente.
- Seja bem-vindo - eu disse, tentando fazer minha voz parecer rouca e solenemente misteriosa. - Voc veio em busca de alguma luz sobre o que o futuro lhe reserva?
O cliente se sentou numa pilha de almofadas.
- Sim, foi para isso que eu vim - ele respondeu com uma voz ainda mais rouca que a minha, como se estivesse tentando disfar-la.
timo, pensei.  meu primeiro cliente e j est tentando me pregar uma pea.
- Meu passado foi repleto de mistrios - ele disse, com a voz ainda esquisita. - Agora estou numa encruzilhada.
Ele falava de um jeito pomposo e formal, como se tivesse ensaiado. Tudo bem, espertinho, pensei.
- Deixe-me ver a palma da sua mo - pedi, estendendo a minha.
Ele colocou sua mo na minha, com a palma virada para cima. Sua linha da vida era firme e forte. Era o tipo de linha da vida que Dean teria.
- Voc precisa me ajudar - ele disse, enquanto eu prosseguia com minha leitura. - Tenho sido muito infeliz no amor.
- Claro que tem - respondi. - Voc j ouviu falar de algum que tenha ido a uma vidente porque era feliz no amor?
- Mas minha situao  especial - meu cliente protestou.
- Muitas videntes j tentaram descobrir o que h de errado, mas nenhuma, nem mesmo a prpria Madame Sonya, pde me ajudar.
Surpresa, levantei os olhos na direo de seu rosto. Se era verdade que ele tinha visitado a Casa da Fortuna de Madame Sonya, talvez estivesse sendo sincero, afinal.
- Eu achava que minha namorada no gostava de mim - o cliente disse, seu rosto ainda escondido sob o capuz. - Na raiva, cometi uma grande injustia com ela. Como 
eu posso lhe pedir desculpas de uma maneira que ela acredite em mim? Como posso dizer a ela que tudo o que quero  que a gente volte a ficar junto?
Leves tremores comearam a se irradiar pelo meu brao, subindo at o ombro. O cenrio que ele descrevia me pareceu bastante familiar.
Um golpe de ar invadiu a barraca. O misterioso personagem sentado  minha frente girou a cabea para olhar para a porta, e nesse momento pude vislumbrar brevemente 
seus olhos. Eram de um belo tom cinzento, com minsculas manchas verdes brilhantes, cintilando l no fundo. Senti as lgrimas comeando a brotar do fundo dos meus 
olhos.
- Talvez a sua namorada tambm esteja infeliz com a situao
- falei, sem entender muito bem como estava conseguindo fazer minha voz soar. - Talvez ela tambm tenha se dado conta dos prprios erros e esteja buscando uma maneira 
de consertar as coisas.
A palma da mo de meu cliente tremeu na minha.
- Ento o que devo fazer? - ele perguntou. - Desta vez, preciso ter certeza. Acho que no suportaria uma nova rejeio.
- Ela no vai rejeit-lo - prometi. - Voc precisa ser corajoso e lhe contar como realmente se sente. Se fizer isso, ela lhe dar a resposta pela qual voc tanto 
anseia. Ela no  totalmente idiota.
O silncio encheu a barraca por uma frao de segundo. Ento, o cliente misterioso retirou sua mo da minha e, bem devagar, puxou o capuz de sua malha para trs.
- Eu amo voc, Natalie - ele sussurrou.
- Eu tambm amo voc, Dean.
Ele esticou seu brao e me puxou para si. Acho que nos beijamos por longos minutos, mas o mundo pareceu ter parado de girar enquanto seus lbios estavam nos meus.
- Peo desculpas por tudo, Dean - falei quando o beijo terminou. - Eu precisava dizer isso a voc.
- Eu tambm peo desculpas por tudo, Natalie - disse ele. - No posso acreditar que fui to incrivelmente idiota.
- Foi mesmo, no foi? - brinquei, sorrindo para ele.
- No abuse da sorte, Natalie - Dean respondeu, tambm rindo. - S me prometa uma coisa.
- O qu?
- Que voc vai dar um tempo com esse negcio de astrologia.
- Prometo - sussurrei. - Sob uma condio.
As sobrancelhas de Dean se arquearam. As manchas verdes em seus olhos danavam.
- Que condio?
- Que ns abandonemos um pouco a minha empresa de leitura do futuro e voc deixe eu lhe pagar algumas rodadas na barraca de tiro-ao-alvo de Garth Hunter. O prmio 
para quem acerta na mosca  dar um caldo em Garth no tonel de gua ao lado da barraca.
O sorriso de Dean ficou mais radiante que qualquer estrela do firmamento
- Feito - ele disse.
- Ento toque aqui.

18

Natalie

Escorpio (23 de outubro - 21 de novembro)
Perfeito alinhamento dos planetas favorece vitria pessoal, unio com a pessoa que voc ama. O que parecia impossvel tem agora um final feliz. Tudo est bem quando 
acaba bem.

- Estou contente por finalmente poder conhecer voc, Natalie - a me de Dean disse.
- Obrigada, senhora Smith - respondi. - Tambm estou contente por conhecer a senhora.
A festa da primavera tinha terminado. Dean insistira para que comemorssemos o fato de estarmos juntos de novo e, depois da escola, levou-me para conhecer sua me 
e seus irmozinhos. Ele parecia querer varrer do caminho o mais cedo possvel o ltimo obstculo em potencial  nossa felicidade.
Eu tinha dito a ele que no era possvel que seus irmozinhos fossem to ruins assim. E Dean respondera que eu devia esperar at conhec-los, antes de fazer qualquer 
julgamento precipitado.
Jayne e John foram conosco, para dar um apoio moral. Ns quatro havamos passado a tarde toda juntos.
Era a primeira vez que saamos juntos oficialmente, como casais. Dean dera o pontap inicial na comemorao acertando na mosca os quatro tiros que dera na barraca 
de Garth. Como prmio, pde afundar quatro vezes seguidas a cabea de Garth Hunter na gua gelada do tonel, sem que Garth pudesse fazer nada para impedir.
- Eu fui a uma festa da primavera... - a me de Dean comeou a dizer, enquanto nos servia um prato de biscoitos.
- No vou comer com Dean e a namorada dele - gritou Roy, ou talvez fosse Randy, surrupiando em seguida o maior biscoito do prato. - E se eles se beijarem? Vai ser 
nojento.
Depois, pulou da cadeira e saiu correndo para o quintal.
- Triplamente nojento - o outro acrescentou, agarrando um biscoito tambm e disparando atrs do irmo gmeo.
- Vocs precisam perdoar os meninos - a me de Dean disse, sacudindo a cabea com tristeza. - Acho que eles ainda no esto completamente "domesticados".
Peguei um biscoito e passei o prato para Jayne.
- Como eu ia dizendo - a me de Dean continuou -, fui a uma festa da primavera no dia em que Dean nasceu. Ns morvamos em Miami naquela poca. Meu marido tinha 
acabado de conseguir seu primeiro trabalho como jornalista freelancer.
- Espere um instante - interrompi, o biscoito suspenso a meio caminho da boca. - Quer dizer que Dean nasceu no fuso horrio da Costa Leste?
- Natalie! - Dean exclamou. - Voc prometeu! Eu o ignorei.
- Nasceu - confirmou ela. - Quase  meia-noite. Eu at tive uma discusso com o mdico sobre em que dia, afinal, ele tinha nascido.
Depositei meu biscoito sobre a mesa.
Mal podia acreditar naquilo. Dean tinha nascido  meia-noite, entre 20 e 21 de maio. E no fuso horrio da Costa Leste.
Meus instintos estavam certos o tempo todo. E minha devoo  astrologia tambm! A diferena de trs horas no fuso horrio mudava tudo: Dean era de Touro!
E o fato de ele ter nascido no limite explicava muitas coisas de sua personalidade. Explicava a tranqilidade e a estabilidade. Explicava o fato de ele no ter desistido 
de mim, apesar de todos os contratempos e obstculos. Essas eram caractersticas tpicas de Touro. Mas a poro geminiana de sua personalidade explicava seu refinado 
senso de humor e aquela tendncia a sempre querer transformar tudo num desafio.
- Natalie? - Dean perguntou. - Voc est se sentindo bem?
- Estou tima! - respondi, estendendo meu brao e pegando sua mo.
Enlacei meus dedos nos dele. O encaixe era perfeito.
- Est tudo timo, Dean.
Eu ainda no iria lhe contar que, na verdade, ele era um taurino. Tnhamos acabado de consertar as coisas entre ns. No havia nenhuma necessidade de complicar a 
situao dizendo-lhe que eu estivera errada - e certa - desde o comeo.
No h nenhuma pressa, pensei, enquanto apertava os dedos de Dean. Com o canto do olho, vi que a me dele sorria.
Haveria tempo de sobra para explicar tudo. Dean e eu ficaramos juntos por muito, muito tempo. Tinha de ser assim. Fomos feitos um para o outro.
Agora eu sabia que nosso amor estava escrito nas estrelas.

Guia astrolgico para o amor

Voc acredita que seu destino est traado nas estrelas? Ser que vocs esto destinados a ficarem juntos para sempre, como Romeu e Julieta? Certo, tudo bem, esse 
exemplo  um pouco desanimador... Mas, antes de mergulhar de cabea numa relao condenada pelos astros, leia nosso guia astrolgico para o amor. E evite um catastrfico 
confronto com o destino.

RIES (21 de maro - 19 de abril)
"Eu sei exatamente o que estou fazendo"  o seu lema. Com muito esprito e f, voc mergulha de cabea nas relaes, deixando a precauo de lado. Mas, por mais 
devotada que possa ser no comeo, voc tende a se chatear logo. O tdio  uma coisa que uma ariana, vida por ao, no consegue suportar. Um rpido e vivo GEMINIANO 
saber mant-la rindo com seu afiado senso de humor; e, mais importante, a manter interessada. Fique longe dos TAURINOS. Eles no se adaptam  sua necessidade de 
estar sempre certa.

TOURO (20 de abril - 20 de maio)
Como uma estica herona medieval, voc vive a vida com fora e coragem. Leal at o fim, a taurina  confivel, sempre disposta a assumir de corpo e alma um compromisso. 
Encontre um CAPRICORNIANO forte e responsvel. Ele se beneficiar de seu esprito slido e consistente e, por sua vez, ser sempre fiel a voc. Quanto aos GEMINIANOS, 
nem chegue perto. Eles vivem da mutabilidade e do agora, ao passo que voc precisa de estabilidade e segurana.

GME0S (21 de maio - 20 de junho)
Voc  sempre o centro da festa, e suas amigas ficam impressionadas com sua capacidade de flertar sem esforo. Voc
adora viver, e precisa de um cara que seja capaz de lhe proporcionar grandes experincias. Um SAGITARIANO charmoso, sempre em busca de um agito,  a sua combinao 
perfeita. Juntos, vocs vo viver a mil. Fique longe de qualquer um que queira podar suas asas, como os caseiros TAURINOS.

CNCER (21 de junho - 22 de julho)
Sensvel e preocupada com os outros, voc  uma tima amiga e uma namorada atenciosa. Mas fique atenta  sua tendncia de se tornar maternal com o companheiro - 
aceite o fato de que ele gosta de comer torresmo no caf da manh. Um atencioso e potico PISCIANO seria feliz tendo voc como companheira, mas no se deixe envolver 
pelos charmosos SAGITARIANOS, que apreciariam a sua gentileza apenas para tirar proveito dela e, depois, cair fora.

LEO (23 de julho - 22 de agosto)
Menina, voc precisa de um namorado que a trate como rainha - romance em grande estilo  o que voc quer. E quer as coisas sempre do seu jeito. Mas d tanto quanto 
recebe, e uma vez que um cara prove que est  sua altura, voc entra na relao para valer e para durar. Um companheiro tambm LEONINO  sua melhor combinao amorosa: 
ele entende intuitivamente como voc quer ser tratada. J os VIRGINIANOS, desmancha-prazeres, s vo tentar extinguir esse seu fantstico fogo interior.

VIRGEM (23 de agosto - 22 de setembro)
Mesmo enquanto anota cada mnimo detalhe de seus compromissos na agenda, voc anseia em segredo por um romance que vire a sua vida de pernas para o ar. Atenciosa, 
solcita e compulsivamente organizada, o seu parceiro perfeito  outro VIRGINIANO. S ele pode compreender sua necessidade de colocar cdigos de cor na gaveta das 
meias. Fique longe dos ARIANOS egostas. Dando canos a cada encontro e destruindo sua rotina, eles a deixariam em pedaos, e sozinha para recolher os cacos.

LIBRA (23 de setembro - 22 de outubro)
As sofisticadas LIBRIANAS anseiam por um romance  luz de velas, com rosas e finos cristais. Encontre um cara que seja to elegante e maduro quanto voc, e ver 
que ele provavelmente ser outro LIBRIANO sonhador. Se um imaturo SAGITARIANO atravessar o seu caminho, d-lhe um pirulito e diga "no, obrigada". Ele no est  
altura da sua sofisticao.

ESCORPIO (23 de outubro - 21 de novembro)
Voc  intensamente emocional e passional, mas se esfora para encobrir seus sentimentos. O tranqilo e intuitivo TAURINO  a combinao perfeita para voc. Ele 
consegue enxergar atravs da sua armadura de proteo e sintonizar-se com suas sbitas mudanas de humor. No se envolva com um voltil GEMINIANO. Ele no ficar 
com voc pelo tempo suficiente para dar-lhe o apoio e ateno de que voc precisa.

SAGITRIO (22 de novembro - 21 de dezembro)
Socialmente, voc  um camaleo que fica  vontade em qualquer situao e adora novas experincias. O pacato TAURINO  seu pior pesadelo. Deixe-o roncando no sof 
e procure um GEMINIANO, uma verdadeira cpsula de energia que a levar a viver grandes aventuras. O maior desafio que vocs vo enfrentar como casal ser decidir 
que novas terras inexploradas desbravar em seguida.

CAPRICRNIO (22 de dezembro - 19 de janeiro)
Cheia de energia, extremamente confivel e com muito a oferecer, o seu nico defeito  no acreditar no seu prprio valor. O VIRGINIANO realista e sincero a puxar 
para cima quando voc estiver por baixo, mostrando-lhe o bvio: que, para isso, voc no precisa de nada melhor do que voc mesma! Evite o indiferente SAGITARIANO. 
Quando precisar falar de algo que  importante para voc, ele se sentir desconfortvel e encerrar o assunto dizendo que  "coisa -toa".

AQURIO (20 de janeiro - 18 de fevereiro)
Por ser curiosa, vivaz e eternamente simptica, voc prospera em grupos e amizades mais que nas relaes a dois. Mostre a um sonhador e vaidoso LIBRIANO o quanto 
voc  amorosa, e ele no saber dizer que bicho o mordeu. Jamais ter sentido algo to intenso por outra pessoa, o que produzir uma relao profunda e excitante. 
Um sossegado CANCERIANO, que sempre vai quer-la sozinha e s para si, podaria o seu estilo.

PEIXES (19 de fevereiro - 20 de maro)
Sensvel e atenciosa, voc se sente atrada pelo tipo musical, artstico, que precisa do seu esprito super-emptico. Encontre um CANCERIANO romntico e idealista, 
e poder contar com longas caminhadas pela praia, toneladas de flores e devoo eterna. Um egocntrico LEONINO no ser sensvel aos seus sentimentos, e far de 
voc um trapo lamuriento.

Agora, v  luta, e boa sorte!

***FIM***
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